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Jacqueline Hermann - 28 - Julho de 1997
A vida das mulheres brasileiras
Foto do(a) autor(a) Jacqueline Hermann

A vida das mulheres brasileiras

 

JACQUELINE HERMANN

A entrada das mulheres no campo da historiografia como objeto específico de investigação foi mais um dos importantes desdobramentos das reflexões provocadas pela chamada história das mentalidades, que revalorizou a história narrativa, redescobriu a história do cotidiano e os microtemas. Alvo, entretanto, de críticas severas pela inconsistência teórica e explicativa que diluía seus objetos numa difusa teia do "inconsciente coletivo", a história das mentalidades acabou pulverizada em campos de estudos mais restritos quanto ao objeto, campos esses que precisaram construir suas bases teóricas e metodológicas e marcar suas especificidades.
Nesse conjunto, certamente um dos que mais se destacou foi o da história das mulheres, fato que pode ser verificado pela já vasta produção internacional sobre o tema e da qual a coleção "Histoire des Femmes", organizada por George Duby e Michelle Perrot, e publicada originalmente na Itália em 1990, foi um marco significativo.
No Brasil também já contamos com uma produção razoável de estudos sobre a mulher, mas a lacuna quanto a uma reflexão histórica e de conjunto se vê agora preenchida por essa obra pioneira sobre a vida das mulheres brasileiras, contada a partir de um número expressivo de textos que revelam a riqueza, a variedade e o avanço da pesquisa nacional sobre um tema muitas vezes ainda olhado com desconfiança, quando não com preconceito, por ser considerado "coisa de feminista".
Esta alcunha, que passou a designar equivocadamente as feministas como um grupo de mulheres radicais sempre em luta aberta com os homens, obscureceu e desvalorizou o importantíssimo papel desempenhado pelo movimento de mulheres na transformação do preconceito e da discriminação contra as mulheres em uma questão social e política, bem como o estímulo dado pelo feminismo à criação de um consistente e produtivo campo de estudos acadêmicos do qual este "História das Mulheres no Brasil" nos dá mostras eloquentes.
Como primeira avaliação de conjunto, e que bem demonstra o preconceito embutido na desconfiança de ser este mais um livro de mulheres escrito para mulheres, deve-se destacar a presença de vários especialistas dedicados ao tema, historiadores que, a exemplo de Ronaldo Vainfas e Renato Venâncio, há muito incluem em suas pesquisas análises de diversas dimensões da vida de mulheres pobres, perseguidas, pressionadas de inúmeras maneiras pelas dificuldades do cotidiano, bem como suas criativas maneiras de resistir e lutar contra a discriminação e a misoginia, em diferentes momentos de nossa história.
O volume reúne 19 artigos de pesquisadores de todo o Brasil, e um texto final de Lygia Fagundes Telles, revelando investigações amadurecidas e atualizadas com o que há de mais recente na produção sobre as chamadas relações de gênero -reflexão que incorpora a noção da construção social e política dos papéis de homens e mulheres. Exatamente por isso, estes textos nos falam não só de mulheres, mas dessas e de suas relações com filhos, pais, padrastos, maridos, companheiros, namorados e patrões. Descortinam, assim, uma nova e mais complexa história do Brasil, ampliada e com fronteiras nem sempre bem definidas entre a casa -espaço da "domesticidade"- e a rua, espaço por excelência público e masculino.
Quanto a este último aspecto, poderíamos dizer que uma das maiores contribuições de "História das Mulheres no Brasil" é analisar, ao longo do tempo e do espaço continental brasileiro, quão relativa sempre foi a separação desses espaços para a maioria das mulheres brasileiras. O estudo de Luciano Figueiredo, por exemplo, sobre "Mulheres nas Minas Gerais", nos faz descobrir a participação significativa das mulheres em atividades importantes para a economia de uma região que sofreu um rápido e desordenado processo de urbanização, provocado pela descoberta das minas. As mulheres mineiras tiveram ação destacada no comércio, sobretudo no comércio ambulante, onde "as negras de tabuleiro" inventaram mil estratagemas para burlar o controle sobre um comércio que muitas vezes encobria o contrabando de pedras, quando não transformava as vendeiras em donas de casas de alcouces e prostíbulos.
Mas, apesar do predomínio de estudos que descrevem e discutem o cotidiano de mulheres pobres, estudos como o de Maria Ângela D'Incao, "Mulher e Família Burguesa", analisam o aprisionamento das "mulheres de bem" à teia do mundo doméstico e da família, modelo adequado à construção de uma família "burguesa e higienizada". Este rígido enquadramento acabou tornando o homem refém dos comportamentos e da imagem que suas mulheres demonstravam socialmente, já que nestas se depositava toda a honra do chefe da casa e da família. A prática recorrente do justiçamento de mulheres em nome da "honra do marido" não foi, entretanto, tema de um estudo específico nessa coletânea, o que nos deixou sem a análise de uma das dimensões mais perversas desse "poder" concedido às mulheres pelo modelo burguês.
Com outra perspectiva, e acompanhando a relação das mulheres com o processo educacional desde o período colonial até os dias de hoje, Guacira Lopes Louro, em "Mulheres na Sala de Aula", nos dá um rico panorama de uma história que começou com o cerceamento à educação, caminhou na direção da incorporação gradativa das mulheres, forjando para isso uma relação de continuidade entre a tarefa primordial da mulher -a maternidade- e a missão de educadora, até nos revelar o contínuo processo de "feminização do magistério", processo acompanhado pelo crescente desprestígio da categoria e da antiga "arte de educar".
Esta rápida apresentação de alguns artigos permite perceber a riqueza e a diversidade temática dos textos que integram o volume, não só pelos aspectos abordados, como pelas fontes trabalhadas: relatos de viajantes e de missionários, processos inquisitoriais e criminais, antigos manuais e teses de medicina, documentos de arquivos eclesiásticos, cronistas, romances, legislação etc. A unificar as abordagens deve-se ressaltar a relativização definitiva do modelo único de sociedade patriarcal que durante tanto tempo simbolizou a estrutura da família e do poder no Brasil, assim como o caráter precursor de pesquisas, que indicam quão antigos são os temas que ainda hoje podem ser observados: a feminização da pobreza, o expressivo e crescente número de mulheres chefes de família, as "investidas sexuais" de chefes e patrões no mundo do trabalho.
Por tudo isso, "História das Mulheres no Brasil" é livro importante não só para especialistas, mas para todos aqueles que se interessam pela história do Brasil, pelos estudos do cotidiano das classes populares, pelas variadas formas de resistência criadas pelas mulheres diante de inúmeras adversidades e preconceitos. No entanto, a opção por temas ligados fundamentalmente à vida privada e à família deixou de fora aspectos que ajudariam a compreender outras dimensões importantes da vida das mulheres, a exemplo da conquista dos direitos políticos e civis, ou de uma reflexão crítica sobre o próprio feminismo no Brasil. Mantém-se, portanto, apesar do tom crítico da obra, uma imagem da mulher em certa medida circunscrita aos horizontes domésticos, à luta pela sobrevivência e proteção dos filhos, aos desejos e paixões individuais.
De qualquer modo, este é livro que pode ser considerado desde já obra de referência e estímulo para que o resgate da história das mulheres brasileiras não fique apenas nesse volume. Pois, se o livro não desata completamente a camisa-de-força, que faz do privado a referência para uma história da mulher, fornece elementos suficientes para afirmar que os modelos de mulher baseados nas figuras de Maria ou Eva nunca passaram de estereótipos desencarnados e abstratos. 

Jacqueline Hermann é professora de história da UFF.
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