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Hilário Franco Júnior - 6 - Setembro de 1995
A criação da história
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A criação da história

 

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR

Apologie pour l'Histoire ou Métier d'Historien
Marc Bloch Edição crítica de Etienne Bloch, prefácio de Jacques Le Goff Armand Colin, 156 págs. R$ 33,00

Talvez nenhum historiador deste século tenha merecido tanta atenção de seus pares quanto o francês Marc Léopold Benjamin Bloch (1886-1944). Em parte, não se pode negar, devido à imagem de intelectual-mártir, fuzilado pelos nazistas às vésperas da Libertação. Mas, principalmente, pelo pioneirismo e importância de sua obra. De um lado, a criação em 1929, junto com Lucien Febvre, da célebre revista "Annales", responsável por uma profunda renovação dos estudos históricos, verdadeira "revolução francesa da historiografia", no dizer de Peter Burke. De outro lado, pelos seus instigantes livros.
Sobretudo três deles. "Les Caractères Originaux de l'Histoire Rurale Française", de 1931, que inovava a história geográfica e econômica de seu tempo, recorrendo ao comparativismo e ao "método regressivo", que busca compreender o passado pelo presente. "A Sociedade Feudal", de 1939-1940 (Edições 70, Lisboa, 1979), obra de síntese que ultrapassava a tradicional história institucional, vendo no feudalismo uma economia, uma cultura, uma mentalidade, em suma, uma sociedade, portanto uma globalidade. E, acima dos anteriores, seu primeiro livro, "Os Reis Taumaturgos", de 1924 (Cia. das Letras, São Paulo, 1993), estudo que, depois de anos de esquecimento, por ter estado bem à frente de seu momento historiográfico, foi redescoberto com grande repercussão. Para Jacques Le Goff, ali está o ato fundador da antropologia histórica, da história das mentalidades e da nova história política. Para Carlo Guinzburg, trata-se de uma das maiores obras historiográficas do século 20.
Em função do crescente reconhecimento da importância da obra de Bloch, em 1989 aparecia a bela biografia escrita pela americana Carole Fink, "Marc Bloch - A Life in History" (Cambridge, CUP). Em 1990, uma obra coletiva fazia o balanço de sua contribuição: "Marc Bloch Aujourd'hui. Histoire Comparée et Sciences Sociales" (Paris, EHESS). Em 1992, foram publicadas as cartas escritas por ele a Henri Berr, entre 1924 e 1943 (Paris, Imec). No mesmo ano, revitalizava-se a "Association Marc Bloch" -dirigida dentre outros por Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie e Charles Morazé-, que objetiva estudar sua vida, seu pensamento e sua obra, publicando para tanto uma revista anual, os "Cahiers Marc Bloch". Nesse contexto é que aparecem os dois livros ora em questão.
O primeiro deles, póstumo, havia sido publicado por Lucien Febvre em 1949 ("Introdução à História" - Publicações Europa-América, Lisboa, 1965). Baseado em um maior número de manuscritos, o filho de Marc Bloch, Etienne, lança agora uma edição mais fiel e cuidadosa que a anterior. Ainda assim, é claro, continua a ser um texto que não pôde ser completado e revisado, pois escrito em 1941-1943, em condições difíceis, na clandestinidade e longe de bibliotecas, foi interrompido pela morte do autor. De qualquer forma, a redação que chegou até nós pode ser vista, na sua incompletude e nas suas deficiências formais, como uma espécie de testamento historiográfico de Marc Bloch.
Nele se destacam cinco idéias maiores, ainda que desigualmente desenvolvidas. A primeira, é a primazia do homem -e não do passado- como sujeito da história. Primazia do homem coletivo, do homem em sociedade, não dos grandes personagens que a história positivista tendia a hipervalorizar. Mas colocar o homem como centro de interesse significa ter um objeto de estudo "total", no qual se mesclam diversas "formas de sentir e de pensar" (para retomar o título de um dos mais importantes capítulos de "A Sociedade Feudal"). Com efeito, "o tempo da história é o próprio plasma no qual se banham os fenômenos, e o lugar de sua inteligibilidade" (pág. 84). O que não significa, porém, que não se possa recortar uma faceta restrita do objeto para melhor estudá-lo. É mesmo "mais salutar" centrar o estudo sobre um problema preciso (pág. 166). Não há um totalitarismo do total. Assim, tampouco há contradição em não buscar esse total a cada livro, ao contrário do que afirmam alguns críticos atuais dos "Annales".
A segunda idéia-força é que a história, mais do que "ciência do passado", é o resultado de um ir-e-vir constante entre presente e passado, passado e presente. Mais do que inspirar o historiador, esse transitar entre duas épocas é condição sine qua non para se fazer história. De fato, ao estudar os documentos, as "fontes primárias", os historiadores estão na verdade criando os fatos históricos. Não existem "fontes" senão a partir do momento em que o historiador se debruça sobre elas: os "fatos" não são fenômenos objetivos, como pensavam os positivistas, e sim consequência do trabalho dos historiadores. Estes formulam questões aos documentos, tanto em função de seu objeto de estudo, quanto das necessidades de seu presente. Logo, não há fatos sem interpretação, nem interpretação sem fatos.
Disso decorre uma terceira preocupação central. A história deve ser essencialmente explicativa, não descritiva. Não deve, contudo, abandonar o sabor atraente da narrativa. Deve ser uma ciência que conserva sua veia poética (pág. 72). Somente assim ela pode cumprir sua função social: "a ignorância do passado não se limita a prejudicar o conhecimento do presente; ela compromete, no presente, a própria ação" (pág. 93). Para dar conta da tarefa explicativa, recorre-se como método maior ao comparativismo. Apenas por intermédio dele se pode perceber o que há de comum e de específico em um fenômeno histórico, em uma época, em uma sociedade. Comparativismo que deve abarcar elementos internos e externos aos quadros geográficos, cronológicos e civilizacionais do objeto em estudo. Dessa preocupação com a comparação é que sairia o profícuo conceito -explicitado, nomeado e desenvolvido depois por Fernand Braudel- de longa duração histórica.
Conceito que não é cronológico, mas rítmico. Longa duração não significa uma extensa faixa temporal, e sim o ritmo lento de determinados fenômenos. Designa aquilo que evolui mais vagarosamente que outros componentes históricos. Com isso chegamos à quarta idéia, mais tangenciada do que propriamente formulada por Marc Bloch: a da história das (palavra que ele raramente usou) mentalidades. "Os fatos históricos são, na essência, fatos psicológicos" (pág. 188). Como aquele estudado por ele sobre as pretensas curas realizadas pelos reis taumaturgos: "O que criou a fé no milagre, foi a idéia de que ali devia haver um milagre". Mas por serem fatos históricos, não se pode atribuir aos fatos psicológicos qualquer autonomia ou primazia. A "psicologia coletiva" (pág. 104) está profundamente articulada com a vida social e material.
Esta consideração dos dados mais enraizados nos homens, leva-nos à quinta e última proposta essencial de Bloch: uma história ampliada e aprofundada. Uma história que abre novas frentes de investigação, de reflexão, como ele próprio fizera no conjunto de sua obra com os mitos, os ritos, a sensibilidade coletiva, a memória social, o corpo, o conceito de tempo, a ocupação do solo. Para tanto, ele estimula a história a se abrir ao diálogo com a sociologia (para ele durkheimiana), com a antropologia, com a economia, com a geografia, com a linguística, com a psicologia, com as ciências naturais. Com efeito, "poucas ciências são obrigadas a usar, simultaneamente, tantos instrumentos diferentes" (pág. 111). Como o domínio seguro de todos esses instrumentos é impossível, o trabalho do historiador deixa de ser apenas individual, para ser desenvolvido também em grupo.
Mas a grande novidade para os admiradores e/ou curiosos da obra e personalidade de Marc Bloch é o volume que começa a tornar pública a correspondência entre ele e seu colega e grande amigo Lucien Febvre.

São mais de 500 cartas escritas ao longo de 15 anos. No prefácio que escreveu em 1983 a "Os Reis Taumaturgos", Le Goff dizia esperar que a publicação daquelas cartas "nos traga precisões, se não revelações" sobre Bloch e sua obra. Esperança em parte realizada já no primeiro volume, que cobre os anos 1928-1933. Nele, além das 184 cartas entre os dois co-fundadores dos "Annales", incluíram-se outras, dirigidas por Bloch a Émile Bréhier, Marcel Mauss e Claudio Sanchez-Albornoz. Em toda essa correspondência, aparecem com frequência menções e comentários da dupla Bloch-Febvre a nomes como Henri Berr, Maurice Halbwachs, Louis Halphen, Henri Hauser, Camille Jullian, Georges Lefebvre, André Piganiol, Henri Pirenne, Augustin Renaudet, François Simiand. É boa parte da rica história intelectual do pré-guerra que desfila diante de nossos olhos através dessa vasta produção epistolar.
Em linhas gerais, ela nos informa sobre três pontos. O primeiro deles, questões editoriais e administrativas dos "Annales d'Histoire Économique et Sociale". Questões que deram à correspondência um tom muito mais profissional que pessoal. Fato compreensível, mas que não deixava de incomodar Marc Bloch em setembro de 1929: "É inevitável que nossas cartas sejam mais dos 'Annales' que de amizade. Mesmo assim, gostaria de ter notícias suas" (pág. 208).
Em segundo lugar, com aquelas cartas penetramos nos bastidores da vida acadêmica da época. Tomamos contato com fatos pitorescos como, por exemplo, o relatado por Bloch, em agosto de 1928, sobre o estado de espírito de Pirenne, "feliz como um garoto", graças à sua primeira viagem aérea, de Malmo a Bruxelas (pág. 49). Ficamos conhecendo o clima tenso que cercava os concursos de ingresso na carreira universitária francesa, com seus meandros nem sempre claros e seus critérios nem sempre estritamente técnicos. Em função disso, Lucien Febvre não teve sucesso na sua tentativa de ser admitido na Sorbonne e conheceu dificuldades para ingressar no Collège de France. Marc Bloch viu frustradas duas vezes suas esperanças quanto ao Collège e teve de se contentar mais tarde com a Sorbonne.
O forte desejo de ambos trabalharem em Paris devia-se, em parte, à atmosfera de concorrência e de inveja que dificultava a vida na universidade de Estrasburgo, onde estavam desde 1919. Sem laços familiares com a região, a situação era especialmente incômoda para Lucien Febvre. Daí seu desabafo na carta que dirige ao amigo durante as férias de Páscoa de 1929: "Não é de Estrasburgo que eu te escrevo -felizmente. Começo a renascer" (pág. 136). No entanto, ele estava consciente, não bastava deixar a província para escapar dos vícios da vida acadêmica. Também em Paris existem naquele meio "indivíduos desprezíveis e de paixões baixas" (pág. 267), caso do historiador Louis Halphen, que, segundo ele, se considerava "um messias" (pág. 127), usava "de astúcia" para criar dificuldades aos concorrentes (pág. 259).
As cartas revelam ainda uma questão bem mais delicada: algumas vezes os dois amigos viram-se diante da incômoda possibilidade de terem de concorrer a uma mesma e única vaga. Daí Bloch, oito anos mais moço, ter em 1928 retirado sua candidatura ao Collège para não dividir os votos e favorecer terceiros. Estratégia naturalmente aprovada por Febvre: "Creio que sua decisão é sábia... É evidente que não entraremos, nem um, nem outro, nos enfrentando" (pág. 116). Contudo, a questão se colocou novamente em 1930, a propósito da École des Hautes Études, e amigos de ambos se preocuparam com a idéia deles entrarem "em conflito direto e brutal" (pág. 265). Por isso Febvre insiste que "devemos, os dois, chegar a Paris. Por nós, porém mais ainda pelo que representamos. É relativamente fácil, mas com uma condição: não façamos nada que possa dar a impressão que somos competidores, rivais" (pág. 266).
Em terceiro lugar, as cartas nos transmitem algumas preocupações metodológicas da dupla Bloch-Febvre. Fica claro que eles tinham consciência de estar realizando, nesse campo, uma "pequena revolução intelectual", conforme as palavras de Bloch em 1929. Tarefa difícil, que implicava superar diversos obstáculos, pois é preciso "adaptar os outros a ela, e nos adaptarmos nós mesmos a ela. Uma revista como a nossa, é forçosamente uma criação contínua" (pág. 205). Segundo Febvre, escrevendo a Johan Huizinga em 1933, tratava-se de uma "obra de educação e de alargamento intelectual" (pág. 462). Se entre os colegas estrangeiros esse projeto teve desde o início boa aceitação, "devemos contar, do lado francês, com hostilidades muito fortes" (pág. 50), estimava Bloch.
Mas o maior problema estava na escassez de trabalhos metodologicamente identificados com a revista. Lucien Febvre queixa-se disso em junho de 1928, repete a observação em agosto de 1929, Marc Bloch bate nessa tecla no mês seguinte e a reafirma em 1933 diante do convite do amigo para participar da "Encyclopédie Française", que este coordenava. Sobretudo, avalia Bloch, faltam colaboradores da Inglaterra, dos Estados Unidos e da América Latina (pág. 203). O pior, acrescenta Febvre em julho de 1929, é a baixa qualidade dos artigos recebidos (pág. 142). E nem todos podiam ser recusados, fosse devido à pequena oferta, fosse por razões de política acadêmica. Foi o que ocorreu, por exemplo, logo no primeiro número da revista, com "o manuscrito de Glotz. Bruuuu! Ele me dá frio na espinha" (pág. 105). Ou ainda, quando das propostas insistentes de Henri Sée, a quem não se podia "dizer, brutalmente, não" (pág. 232).
De qualquer forma, para eles, as resenhas críticas, as notícias sobre pesquisas em andamento, as informações sobre instituições e pesquisadores, eram tão importantes quanto os artigos. Sobretudo resenhas de "livros capitais para a história, sem serem tecnicamente livros de história", caso do "Origines del Español", de Menéndez Pidal. Obras, justifica Bloch, que "arriscam passar desapercebidas de historiadores muito isolados na sua especialidade" (pág. 509). Ademais, no essencial, tanto as resenhas quanto os artigos devem ter um mesmo objetivo, colocar problemas, mais do que resolvê-los.
Postura nova, que não facilitava as coisas com os autores, "esta raça inferior e aborrecida" (pág. 233), que torna "as funções editoriais espinhosas", na opinião de Febvre (pág. 238). Exigente e irônico, ele não poupava franceses, como Paul Mantoux ("despreza todo trabalho científico", pág. 248) ou Henri Sée ("o príncipe da inteligência", pág. 277). Nem estrangeiros, como o americano Earl Hamilton, que escreve "artigo de um míope", artigo "morno e pouco útil", em uma linguagem "pesada" (págs. 280-282, 294), ou o sueco Eli Heckscher, que com sua documentação "teria podido tornar (seu artigo) extremamente interessante", mas não o fez (pág. 290).
Enfim, da mesma maneira que, com razão, Jacques Le Goff pôde dizer de "L'Apologie Pour l'Histoire", que "este livro inacabado é um ato completo de história", talvez possamos afirmar que "Correspondance", por não ser um livro de história, é uma rica obra sobre historiadores. 

Hilário Franco Júnior
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