

A dor de pensar
GABRIEL COHN
A contribuição de Siegfried Kracauer ao pensamento crítico judaico-alemão do século 20
O ORNAMENTO DA MASSA
Siegfried Kracauer
Tradução: Carlos Eduardo J. Machado e Marlene Holzhausen
COSACNAIFY
384 p., R$ 69,00
Impossível grafar seu nome sem a sensação de que já nos seus termos tão conflitantes se encontra um sinal das tensões e turbulências que marcariam a vida e a obra dessa figura de perene “extraterritorialidade”, como ele próprio se definia. Siegfried Kracauer, germânico puro e duro, judeu polonês, já era conhecido entre nós por seu livro sobre o cinema alemão da década de 20 até o advento do nazismo em 1933, De Caligari a Hitler. Faltava ter uma idéia melhor da amplitude da sua contribuição à rica vertente do pensamento crítico judaico-alemão entre os anos 20 e os anos inteligência” e chamava Kracauer de “trapeiro na madrugada, que fisga os trapos de fala e os farrapos de palavras (...) na madrugada do dia da revolução”.
Adorno – a quem o livro é dedicado – nunca sonegou quanto devia a ele, e faz sentido a conjectura de que o título de um dos aforismos do seu livro Mínima Moralia, o de número 18, “Asilo para desabrigados”, seja uma 60 do século passado, na Alemanha e no exílio.
Contribuição, aliás, que mereceu o reconhecimento explícito de algumas das suas maiores figuras, em especial daquelas próximas do círculo que ficou conhecido como “Escola de Frankfurt”. Walter Benjamin, com quem estava na fatídica tentativa de fuga para a França, via Espanha, dedicara-lhe tributo do qual muito se orgulhava. Referindo-se ao seu livro de 1930 sobre Os empregados, Benjamin assinalava sua importância na “radicalização da
referência críptica, como todas naquela obra, a capítulo assim nomeado do livro de Kracauer.
Vocação humanista
Kracauer era, por formação, arquiteto. Na realidade, seu diploma era de engenheiro, o que na severa universidade alemã da sua época significava pesada formação técnica em todos os níveis dessa área do conhecimento. Lembro isso para frisar que esse humanista por vocação conhecia por dentro os campos alternativos de exercício da inteligência. Jamais apreciou, todavia, o exercício da sua profissão, por mais que fosse dotado para ela em pelo menos um aspecto: a rica sensibilidade para a dimensão espacial, nutrida por um estilo de pensar todo voltado para o exercício da visão. (Impossível não lembrar aqui o contraste com seu amigo Adorno, que se caracterizava como dado a “pensar com os ouvidos”; nem a afinidade com outro amigo comum, Walter Benjamin, também ele dado a perscrutar o mundo com olhar atento e melancólico).
Já houve quem notasse a construção arquitetônica da presente coletânea, com suas seis partes distribuídas – pelo próprio autor, que ainda teve tempo de organizá-la – em “geometria natural”, “objetos externos e internos”, “construções”, “perspectivas” e um desfecho como “ponto de fuga”, tudo isto ainda comportando uma seção aparentemente anômala e, no entanto, muito significativa na sua produção, simplesmente intitulada “cinema”.
Uma composição com forte caráter “ornamental”, como escreveu o editor das suas obras completas, Karsten Witte, ele próprio um estudioso do cinema com fortes afinidades pessoais e intelectuais com Kracauer.
Dificilmente Kracauer teria alçado o título de um dos textos da sua coletânea à condição de referência para o conjunto se a idéia do “ornamento das massas” não lhe parecesse especialmente significativa. A questão é: qual, de fato, o seu significado? A expressão é carregada de ambigüidade – coisa pouco surpreendente num mestre no trato com significados ambíguos, que apontam para direções conflitantes e retiram sua força dessa tensão interna.
A idéia de ornamento remete a de algo acessório, que se adiciona por capricho àquilo que realmente importa. Por isso mesmo era anátema para os colegas arquitetos de Kracauer, partidários das linhas severas da funcionalidade. Ao mesmo tempo, o ornamento, traço superficial do conjunto, é o que mais dá na vista, exatamente porque está na superfície. Isso já sugere que Kracauer é atento ao que está na superfície, recusa-se a descartá-lo em nome daquilo que recobre; entretanto, recusa-se a permanecer nela sem descobrir o seu significado.
Rede de interpretação
Nesse sentido, o termo ornamento guarda índole crítica no vocabulário de Kracauer. Deveremos, então, entender ornamento da massa como aquilo de que se adorna a massa? Ou será mais apropriada a solução encontrada na tradução italiana da obra, que alude à “massa como ornamento”?
O texto no qual Kracauer trata diretamente do tema sugere ambas as coisas: o ornamento é das massas, e elas aparecem como ornamento. Aparecem para quem? Este é o ponto: aparecem para si mesmas. O ornamento constitui o modo de aparência das massas e o modo como são levadas a se verem. Ao longo desse texto, e dos demais, multiplica-se o recurso a um estilo alusivo, em que uma “rede de interpretação” vai sendo urdida nos interstícios dos fenômenos para encontrar o seu sentido.
A análise não vai tanto em busca da profundidade quanto do preenchimento dos vazios na superfície. Para isso, esse “trapeiro” não desdenha aquilo que Freud chamava de “dejetos do mundo fenomênico”, numa expressão, aliás, equivocadamente traduzida no prefácio como “recusa do mundo fenomênico”.
E já que falamos da tradução: é claro que o leitor pedante encontrará aqui e ali alimento para seu mau humor. Mas terá que se contentar com pouco, considerando-se a dificuldade da tarefa. Numa equipe que conta com a presença de especialista como Carlos Eduardo Jordão Machado, não há por que temer pela qualidade do texto final; embora seja forçoso reconhecer que uma última leitura do conjunto teria sido benéfica.
O texto de maior densidade do volume, um clássico até hoje, trata de Simmel, o pai de todos, figura extraordinária que, além de Kracauer, deixou marcas em G. Lukacs (de passagem: também em Max Weber), Benjamin, Adorno, Elias e tantos outros. Simmel é de certa forma o patrono dessa singular mescla de filósofo, sociólogo, psicólogo, literato e figura cultural pública que conferiu incomparável densidade ao pensamento em língua alemã na sua época e continua vivo, muito para além do seu território de origem (até porque era privado disso) no mundo contemporâneo.
Uma passagem desse notável texto permite caracterizar o perfil intelectual do próprio Kracauer, naquilo que ele tinha e naquilo que ele gostaria de superar. (Neste espírito, aliás, há notável paralelismo entre o tributo de Kracauer a Simmel e o tributo de Adorno a Kracauer). Simmel, escreve ele, não é pensador do tipo que se limita a concatenar fatos, nem busca um “significado absoluto do mundo”. É “um mediador entre o fenômeno e a idéia. Partindo da superfície das coisas, com a ajuda de uma rede de relações analógicas e de afinidades substantivas, penetra nos seus fundamentos espirituais; evidencia assim em toda superfície o caráter simbólico. O evento mais insignificante indica o caminho em direção às profundezas da alma. Em Simmel, uma luz que parte do interior faz resplendecer os fenômenos, como o tecido e o adereço em certos quadros de Rembrandt”.
Nisto encontram-se ambos, Kracauer e Simmel, naquilo que têm de melhor e nos seus limites, que Kracauer busca superar ao seu modo (a começar pela sua adesão inquebrantável ao primado da razão, contra tendências como a da “filosofia da vida” de Simmel). É dessa busca, feita por uma inteligência inquieta e ciente, como Simmel, de que “pensar dói”, que este livro dá testemunho.