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Sebastião Uchoa Leite - 83 - Março de 2002
A dupla fantasia de Sussekind
Foto do(a) autor(a) Sebastião Uchoa Leite

A dupla fantasia de Sussekind

Um romance labiríntico a quatro mãos 

O Autor Mente Muito
Carlos Sussekind e Francisco Daudt da Veiga
Dantes (Tel. 0/xx/21/2511-4156)
300 págs., R,00

SEBASTIÃO UCHOA LEITE

Carlos Sussekind entregou até agora quatro títulos a quem o acompanha, sempre com alguma surpresa interessante nos quatro, que trazem sempre uma marca forte não só de suas curiosas escolhas temáticas, mas também de um humor irresistível, com um fundo amargo.
Desta vez ele vem acompanhado de um parceiro que parece à sua altura, e é nada menos do que seu psicanalista Francisco Daudt da Veiga. As obras de Sussekind são, até agora, a novela "Ombros Altos" e os romances "Armadilha para Lamartine" -em que convoca o próprio pai, morto, para seu parceiro, por meio de um diário-, "Que Pensam Vocês Que Ele Fez?" e este "O Autor Mente Muito". São obras intrincadas, talvez "clownescas", mas esses "divertimenti", num sentido mais musical, talvez mozartianos, nunca são assim tão divertidos. Atravessa-os certo "sentimiento tragico de la existéncia", unamuniano. Talvez com algum exagero, mas certa adequação.
Também há, felizmente, um certo "sentimiento cómico da la existéncia", nem tão próprio de Unamuno assim. Mas é mais do que inegável sua grande originalidade e importância dentro do romance moderno brasileiro. Apesar da "nonchalance" dos autores, nada convencionais. Além de certo sentimento anárquico, talvez além da conta.
O que nos deu, neste exemplo recente, o efeito tão mais acentuado de humor anárquico? Não nos esqueçamos da colaboração de Francisco Daudt. Habituamo-nos a pensar que Sussekind fosse o principal responsável pelo teor cômico-amargo dos resultados. Afinal, algumas passagens mais hilariantes de "Que Pensam Vocês Que Ele Fez?" (texto só de Sussekind) são, ainda, citações do diário paterno, como a passagem em que o pai se deixa envolver no banho de mar pelo ritmo das ondas e pelo oscilar do corpo das jovens acompanhantes -um idoso nada indiferente a isso-, passagem em que o erotismo malicioso do pai nos transmite uma deliciosa sensação humorística. Mas isso não é um absoluto quanto ao que o leitor sente em relação ao contexto anárquico do livro mais recente (um verdadeiro emaranhado de situações, cada qual mais insólita e absurda): a sensação mais correta é a de certa perplexidade, como quem se diz: "O que é que se vai fazer com isso? Rio ou me solidarizo com essa dupla impagável? Eles afinal são responsáveis pelo imbróglio e não é possível distinguir quem é quem".
A capa já nos diz muito sobre a proposta geral. No alto estão as figurinhas da dupla cômica irresistível, Tweedledum e Tweedledee, criações do nonsense de Lewis Carroll e criações gráficas de John Tenniel. Deve-se a inserção aos autores ou aos capistas? (provavelmente aos últimos, pela lógica das atribuições). Por dentro, na página de rosto, cremos poder atribuir a Carlos Sussekind e/ou a Daudt a inserção casual por colagem, do gênio cômico do alemão Wilhelm Busch, das figurinhas de Hans e Ulrich, das famosas historinhas ilustradas e em verso, deste volume traduzido no Brasil por ninguém menos do que Olavo Bilac (sob o pseudônimo de Fantasio, talvez do francês). O nome brasileiro era "Juca e Chico".

A idéia de duplicidade
De qualquer modo, temos aqui uma pista segura. A referência a duplas é mais do que clara. O livro é um labirinto temático, mas algo é fora de dúvida: a importância da idéia de duplicidade, inscrita no próprio romance. Um personagem problemático, louco ou que passa por tal, Teodoro Farpa narra a história de outro "louco" (ou se dizendo tal), Carlinhos "Manivela" (tem a mania de "filmar" seus "colegas" de sanatório). Este último escapa espertamente e tenta viver a sua vida normal lá fora. Essas técnicas sussekindianas são clássicas e transferidas para o parceiro ("amador" de literatura que tem o seu cliente como escritor "cult"). São narrativas dentro de narrativas que não param.
Também são clássicas as várias referências a duplos na literatura que não são cômicos e sim dramáticos e atormentados, como na linhagem fantasmática de Edgar A. Poe ("William Wilson") ou Fiódor Dostoiévski ("O Sósia"). O recurso de Sussekind de reiterar um episódio penoso do diário do pai, o da diarréia, é interessante por se basear também em referentes externos. Não é impossível que esses referentes excessivos possam lembrar referências externas dos "excessos" rabelaisianos e "carnavalescos" (memento Mikhail Bakhtin). Ao mesmo tempo, não se ignore que nossos autores, Sussekind e Daudt , sejam, também, personagens e que dialoguem entre si sobre o destino dos seus outros personagens (o "pai" de Sussekind, por exemplo). Então, quando do famoso episódio diarréico do pai, seria sensato lembrar que isso é ficcionalidade. Não realidade literal. E, mais do que isso, no caso específico de Carlos Sussekind, é transficcionalidade.
É muito difícil resumir esta obra da dupla, pois as peripécias são muitas e entre elas está a técnica quase folhetinesca, em que surgem, por exemplo, a história de um cego e da filha de um cego, um episódio absurdo como o de uma "mulher bifocal" (uma fantástica mulher-criança e, por isso, bifocal e não multifocal, como todo mundo) -criação totalmente exdrúxula e irreal- ou a inserção de personagens "reais", como os autores, Bárbara Heliodora (só uma referência) e Paulo Coelho.
Antes de tudo, é preciso pôr-se em destaque o caráter amplamente lúdico do texto. O próprio fato de que escrevam em dupla nos deixa presente o caráter de jogo em que os dados da narrativa não obedecem a qualquer realismo fatual, mas são duas fantasias que, pelo contrário, sublinham o fato de as duas subjetividades não serem contrapostas ou ao menos contraditórias, mas tampouco harmoniosas entre si. Esta, pois, é uma singular parceria. O caráter de jogo é, ainda, sublinhado pela dualidade dos personagens em que um conta as histórias de outro. Os autores também se corrigem entre si. Mas não há entre os dois fatos, o "narrador" e o "personagem" da narrativa, e também os autores, qualquer dissociação entre fato real e fato ficcional, todos estão imbricados entre si.
Os dois personagens, aliás, encontram-se, de surpresa, num terceiro plano, o da realidade. A surpresa maior seria a do "narrador", Teodoro Farpa, ao ver seu "herói" Carlinhos Manivela (a essa altura, de fato, achamo-nos, literalmente, num sanatório de "loucos", inclusive os autores do romance ou seja lá o que forem). Mas que "realidade" é essa? A absolutamente real ou a que se denomina aqui não apenas de ficcional, mas de transficcional (à Haroldo de Campos sobre suas "transcriações" poéticas). Na verdade, podem-se distinguir aqui quatro planos diferentes:
1) o plano da transrealidade, ou seja, aquele em que se colocam os autores e "planejam" seu texto. Eles divergem entre si, pois Francisco Daudt é partidário do "nexo" e da coerência, enquanto Sussekind é a favor do vôo livre da imaginação. É o plano do real (que é também transreal), aquele em que os dois se entendem ou se "desentendem" e, curiosamente, enquanto Carlos se mantém discreto, Daudt, com o seu "nexo", a certa altura, cai na bebedeira; 2) o plano da ficcionalidade, que é ocupado por Carlinhos Manivela e suas extravagantes aventuras e desventuras, ou seja, o da "mulher bifocal" e o da paixão por sua Eglantina (ou Titina) e o seu pseudopai e poeta cego, que tem uma paixão homoerótica por Carlinhos; 3) o plano transficcional, o da complexa narrativa de Teodoro Farpa ; 4) o transreal propriamente dito, dos esforços do psiquiatra Daudt junto à mãe dele (a de Farpa), a extravagante Dora Abigail, que no fim se revela ainda mais louca do que o filho.
Enfim, quem entende o quê? Em tal labirinto de proposições, no qual se superpõem loucos e pseudoloucos, entre os que saem do sanatório (Teodoro Farpa "curado", vejam só, por Paulo Coelho) e os que a ele retornam, o leitor se decide por o quê? Ele que se vire.


Sebastião Uchoa Leite é poeta, crítico e tradutor.

Sebastião Uchoa Leite poeta e ensaísta.
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