

A especulação cósmica
O físico Freeman Dyson compõe uma épica da colonização do Universo
HENRIQUE FLEMING
Freeman Dyson é um dos grandes físicos teóricos do pós-guerra. Antes, porém, ainda nos cueiros, tinha feito matemática de primeira qualidade. Assim é que, dirigindo-se à Universidade Cornell para se iniciar em física pelas mãos de Hans Bethe, foi precedido por uma carta de recomendação do grande matemático J.E. Littlewood que dizia, com poucos rodeios: "Dyson é o melhor matemático da Inglaterra". Em Ithaca, não a "ilha de cabras" de Homero, mas a segunda melhor aproximação, a cidade universitária do Estado de Nova York, se tornou famoso por entender e explicar aos outros numa série de trabalhos quase insuportavelmente brilhantes as descobertas de Feynman, Tomonaga e Schwinger sobre a teoria quântica do eletromagnetismo.
Cabia-lhe o Prêmio Nobel, mas foi derrotado por um dos tantos regulamentos do mais regulamentado de todos os prêmios. Com tudo isso, não teve tempo para o doutoramento, nunca o fez e falta não lhe fez. Após uma carreira brilhantíssima, narrada no que considero o melhor de seus livros, "Perturbando o Universo" (ed. UnB), resolveu seguir o conselho de um de seus mestres, o matemático Godfrey Hardy: "Jovens devem publicar artigos, homens idosos devem escrever livros". Só temos a agradecer. Alguns leitores reconhecerão o nome de Bruce Sterling, um dos máximos autores na área de ficção científica. Diz ele, sobre "Perturbando o Universo": "A especulação cósmica que se encontra aqui não é superada em lugar nenhum".
"Infinito em Todas as Direções" usa como título uma frase do físico do século 19, Emil Wiechert, que se referia à inexauribilidade da natureza, quer nossos esforços se dirijam ao estudo de porções cada vez maiores, mais distantes (e mais antigas) do Universo, quer ao estudo de subdivisões cada vez menores da matéria. Ao chegarmos aos aglomerados de galáxias estamos tão distantes da fronteira infinita quanto, ao chegarmos aos quarks, estamos distantes da fronteira infinitesimal. Ou seja, não há nenhum indício de que existam essas fronteiras.
Condição de consistência
Contudo em nossos dias encontramos, pela primeira vez, um fato de extrema importância e que tem sido muito pouco celebrado: temos em nossas mãos uma fantástica condição de consistência. A pesquisa da microestrutura da matéria foi muito além dos átomos, ultrapassou mesmo os núcleos e formulou um modelo da matéria que, se não é notável pela sua concisão e elegância, o é pela precisão com que descreve o micromundo. Foi construído exclusivamente pelo método de subdividir para entender. Entrementes a pesquisa do céu nos levou a sistemas cada vez maiores, seguindo escrupulosamente o método de multiplicar (ou seja, abarcar porções sempre maiores do mundo) para entender.
Nestas últimas décadas se percebeu que os dois métodos, em princípio opostos, se entrelaçaram "no infinito", se me permitem a expressão imprecisa. Os primeiros instantes do nosso gigantesco Universo, ou seja, do ponto de vista observacional, os eventos que se passam nas bordas do Universo que vemos são descritos pela física das partículas elementares, que atua no âmago do núcleo atômico; o estado atual do nosso Universo em larga escala nos diz qual o número máximo de tipos de neutrinos (partículas subnucleares) que podem existir. Os resultados são consistentes.
O que é que, no dilúvio de livros que descrevem a ciência para leigos, distingue "Infinito em Todas as Direções"? A resposta é simples: é Dyson! Recentemente ele recebeu dois prêmios importantes, o prêmio Lewis Thomas da Universidade Rockefeller, dado em reconhecimento a cientistas como poetas, e o prêmio Templeton, um gigantesco prêmio de 1 milhão de libras, atribuído por "contribuição original ao progresso na compreensão religiosa". Entre os vencedores recentes está a Madre Tereza de Calcutá. Ora, Dyson não escreve poesias nem é religioso! A meu ver, esses reconhecimentos se devem tanto às suas extraordinárias metáforas (como a borboleta espacial) quanto, e principalmente, à sua coragem de pensar livremente, de explorar os caminhos que as leis naturais sugerem em uma linguagem cifrada, que a sua luminosa inteligência decifra, domina e transforma em arte.
Assim é que, ao fim do livro, quando se atinge o estágio em que a humanidade precisou abandonar o sistema solar (porque o Sol tem uma vida muito pequena!), o que efetivamente se tem é um modelo da eternidade. Àquele ponto já não se duvida mais de que esses "roseaux pensants" (juncos pensantes) serão capazes mesmo de dar conta da própria evolução do Universo, se esta lhes for desfavorável.
"Infinito em Todas as Direções" nasceu como texto das Conferências Gifford, que deviam versar sobre o tema "Em Louvor da Diversidade". Em versões anteriores essas conferências foram proferidas por William James e Alfred North Whitehead, só para localizar o nível esperado. Se bem entendi, as conferências constituem a primeira parte do livro, denominada "A Vida no Universo"; a segunda parte, "Pessoas e Máquinas", continua os temas propostos e apresenta, em particular, a posição do autor sobre a tecnologia desejável (e exequível), sobretudo no capítulo "Rápido é Bonito".
A inversão do mito
De uma maneira geral, o livro pode ser pensado como a épica da colonização do Universo. O que nos espera, e que será conquistado pela força da inteligência e pela arte da sabedoria, nossa recompensa enquanto espécie, teremos feito per merecer. Nunca o tivemos antes. É o oposto da tradição cristã e de tantas outras religiões, em que o melhor ficou para trás, tivemos e perdemos, desastrados que somos. Toda a história cristã é a lenta e dolorosa reconquista do que já nos pertenceu. A inversão do mito, proposta por Dyson, não pareceu excessiva aos organizadores do prêmio Templeton, uma associação de igrejas cristãs.
Dos vários capítulos do livro, meu favorito é "Borboletas e Supercordas", em que ele fala sobre as colisões catastróficas da Terra com cometas e pedras em geral. A casca da Terra está toda marcada por crateras de impactos, e temos hoje maneiras de datá-las, isto é, determinar a época em que o impacto se deu. Curiosamente, existem longos intervalos sem impactos, e depois épocas em que os impactos são frequentes. Pensa-se que esses "projéteis" sejam em sua maioria cometas, que giram alegremente em torno do Sol, bem longe, na nuvem de Oort, nos confins do sistema solar.
Jan Oort, astrônomo holandês, propôs a existência dessa nuvem há uns 60 anos. Há milhões e milhões de cometas, pedaços de gelo e rocha, ali depositados. A influência das estrelas mais próximas é capaz de, aleatoriamente, fazer com que um desses cometas se precipite em direção ao Sol, e então ele se torna um cometa catalogado. Aproximando-se, o calor ferve a sua superfície, e vapor e poeira criam a cauda, ou melhor, a cabeleira ("coma"), do cometa. Às vezes a Terra está no meio do caminho, e aí temos uma nova cratera. Mas esse processo é irregular e não poderia explicar por que há épocas de crateras frequentes, que se sucedem, essas épocas, a intervalos regulares.
Uma possível explicação, que introduz regularidade no processo, é a seguinte, ousada e elegante: o Sol seria uma estrela dupla. Sua irmã, para quem Piet Hut e Rich Muller propuseram o nome de Nêmesis, está em geral muito longe, mas periodicamente se aproxima, sendo então capaz, nesse período de proximidade, de desviar muitos cometas. Temos, assim, uma chuva regular, seguida de um período de estabilidade, e assim por diante. Quem sabe se existe, realmente, Nêmesis? Ninguém. É uma questão em aberto.
Michele Ceriana, solitário e eficientíssimo bibliotecário do Instituto de Física de Turim -profissão que está se tornando uma das mais importantes do mundo, e que abrigou Otto Maria Carpeaux e o grande bruxo de Buenos Aires-, adotou a prática de, apenas saído um livro de Dyson, adquiri-lo, bem como todos aqueles contidos na sua bibliografia, antecipando-se aos leitores entusiasmados por aqueles tesouros dos quais tinha Dyson revelado um pouco do brilho. Não por acaso são essas bibliografias excelentes. Em artigo que nunca mais consegui localizar, Freeman Dyson, ex-aluno de Winchester, grande escola que lhe forneceu, sobretudo, tempo abundante, preconiza: a verdadeira educação não se dá nas salas de aula, mas nos museus e nas bibliotecas.
A tradução é primorosa, à altura deste livro essencial.
Henrique Fleming é professor do Instituto de Física da USP.
Infinito em Todas as Direções
Freeman J. Dyson
Tradução: Laura Teixeira Motta
Companhia das Letras
(Tel. 0/xx/11/3846-0801)
386 págs., R$ 33,00