Logotipo do Jornal de Resenhas
Paulo Sergio Duarte - 47 - Fevereiro de 1999
A espessura do espaço
Foto do(a) autor(a) Paulo Sergio Duarte

A espessura do espaço

PAULO SÉRGIO DUARTE

Desde o início dos anos 50, e mais exatamente a partir do desenvolvimento da obra de Franz Weissmann, à qual vieram logo se juntar os trabalhos de Amílcar de Castro, de Lygia Clark e, posteriormente, de Sérgio Camargo, a escultura construtiva no Brasil passou a formar um corpo que constitui uma contribuição original à arte deste século. Para que esse fato passasse ao senso comum e, em seguida, fosse acompanhado do reconhecimento internacional, teria sido necessário que o país tivesse se tornado uma nação consciente de que seus gestos civilizatórios são recentes, alguns recentíssimos. Mas isso, sabemos, não ocorre. Não é de estranhar, pois, que a primeira exposição retrospectiva de Franz Weissmann não tenha filas nas portas dos museus em que é exibida. Num dia de semana, pode-se até visitá-la quase em caráter privado. Melhor para o visitante, pior para quem se responsabiliza pelas políticas públicas de educação e cultura -que, no entanto, quando quer, sabe bem armar um circo.
No Museu de Arte Moderna de São Paulo, a retrospectiva de Weissmann sucede à exposição "Arte Construtiva no Brasil - Coleção Adolpho Leirner" (no momento, em exibição no MAM-RJ). Nesta, o público teve a ocasião de apreciar uma rigorosa e paradigmática síntese de um dos capítulos mais importantes da arte moderna no Brasil. Agora o foco se fecha na obra individual de um dos pioneiros desse movimento, numa montagem mais bem-sucedida que a apresentada no Rio de Janeiro, onde se encontrava dividida entre duas instituições -MAM e Centro Cultural do Banco do Brasil-, e com algumas salas saturadas de peças, prejudicando a individualização das obras e o entendimento da lógica que o artista sempre perseguiu.
Nascido na Áustria, em 1911, Franz Weissmann emigra com a família para o Brasil aos dez anos de idade. Em 1939, matricula-se no curso de arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, embora pensasse em ser pintor. Em 1941, abandona o curso da ENBA e no ano seguinte começa a estudar escultura. Muda-se para Belo Horizonte em 1945, ali colabora com Guignard na fundação da Escola de Arte Moderna, onde coordena o ateliê de escultura. As esculturas figurativas de Weissmann do final da década de 40 já anunciam elementos de sua futura investigação construtivista: as figuras esguias são vazadas e deixam-se atravessar pelo espaço.
Em 1951, Weissmann apresenta o "Cubo Vazado" à 1ª Bienal de São Paulo. O trabalho foi recusado por problemas de acabamento. Reapresentado na Bienal de 1953, sintomaticamente depois do sucesso de Max Bill, o "Cubo Vazado" foi aceito. O curador da exposição, Reinaldo Roels, em seu texto no catálogo, situa o problema e corrige a genealogia da obra e as atribuições de "influências".
Em 1955, Weissmann participa do Grupo Frente -os "concretistas" do Rio de Janeiro- com Abraham Palatnik, Aluísio Carvão, Décio Vieira, Ferreira Gullar, Hélio Oiticica, Ivan Serpa, Lygia Clark e Lygia Pape. Em 1959, participa da 1ª. Exposição Neoconcreta, no MAM-RJ, que marca a ruptura com o grupo concretista de São Paulo. Salvo o curto intervalo de sua estada na Europa, após uma viagem pelo Oriente, nos anos 60, quando desenvolve uma experiência no sentido rigorosamente inverso à trajetória anterior, com os "Amassados", a obra de Weissmann é toda marcada por uma coerente pesquisa da reinvenção do espaço dentro de pressupostos construtivos, que culmina, já nos anos 70, com a problemática incorporação da cor que transforma a apreensão da escultura e seu espaço.
Weissmann está presente na história da arte no Brasil em toda a segunda metade deste século como testemunha e um dos protagonistas de dois momentos decisivos. 
Primeiro, aquele que se estende do início dos anos 50 até 1958, quando nosso construtivismo tardio apostou num vernáculo universal para a arte, alimentado ainda pelas utopias das vanguardas russas e alemãs do início do século, e buscou a estetização do ambiente numa escala social e coletiva. Uma arte que, a partir de elementos estruturais de sua linguagem, transitasse acima das fronteiras culturais e diferenças locais, por meio de valores formais objetivos -uma espécie de esperanto visual. Tudo muito de acordo com o "desenvolvimentismo" do país otimista que passava de agrário a industrial, construía Brasília e iria ouvir a Bossa Nova.
Posteriormente, o momento da ruptura neoconcreta, em que o espaço a priori da intuição pura de Kant, fundado exclusivamente na geometria euclidiana, vai ser enriquecido pela intencionalidade da consciência de Husserl e, a partir das lições de Merleau-Ponty, por uma subjetividade que atua na percepção deste espaço e na constituição da obra. Essa torção nos postulados concretistas produzirá contribuições originais na investigação do espaço. 
Weissmann é indispensável à compreensão dos dois momentos exatamente porque é o artista que, ao longo de 50 anos de trabalho, conseguiu reunir, numa síntese inteligente e produtiva, as questões suscitadas por esses dois pólos do construtivismo no Brasil. Sua obra tanto veicula com clareza a universalidade do idioma geométrico a que aspira o concretismo quanto problematiza o espaço, não submetendo-o aos dogmas da objetividade, mas seguindo a intuição fenomenológica dos neoconcretos. Esse feliz e formidável encontro se evidencia na ação dos ângulos dos planos que se cruzam, inventando e reinventando o espaço e, até mesmo, na polêmica materialidade que adquirem quando pintados em cores fortes.
Alberto Tassinari, em seu texto "A Construção do Espaço", compreende um dos traços particulares da obra: "Se em Weissmann há certas regras a seguir e uma tipologia de elementos da qual partir, a obra acaba por ultrapassar as regras construtivistas. A regra é apenas uma trilha que a intuição segue para encontrar a sua síntese e a captura da situação em que o resultado não foi previsto, mas como que adivinhado pela obra". Depois de uma elucidativa reflexão comparada sobre os usos das regras construtivas nas esculturas de Amílcar de Castro e de Sérgio Camargo, acrescenta:
"A matéria, em Weissmann, é somente espessura do espaço. E o espaço é desdobramento de uma intuição que opera e cria além dos módulos e da regra construtiva dos quais parte. Se há também uma vontade nas esculturas de Weissmann, é por meio de uma vontade controlada, metódica, que suas formas ganham o mundo. Elas desenham um espaço governado por uma intuição que coordena o atual e o virtual, a regra e o imprevisto, o presente e o futuro, como na bela escultura preta do MAM de São Paulo, na qual uma espécie de porta faz o espaço passar sempre para além do lugar onde está".
Em "A Discreta Épica da Forma", Ronaldo Brito sublinha outro traço de Weissmann, que "abandona desde cedo o trato com a volumetria, dá as costas aos séculos de tradição da estatuária ocidental, para entregar-se à voracidade lógica de uma linguagem estritamente planar: sua sintaxe fluida resume passagens e ultrapassagens de planos que surpreendem exatamente porque, afinal, resultam em esculturas, isto é, presenças materiais, que pesam e se equilibram, em suma, permanecem".
O catálogo que acompanha a exposição de Weissmann é a mais completa publicação sobre o artista e é indispensável numa biblioteca de arte brasileira. Com projeto gráfico de Marcos Martins, além das inúmeras e bem-cuidadas reproduções de obras isoladas, traz dois estudos fotográficos: do ateliê de Weissmann, de Miguel Rio Branco, e das esculturas em espaços públicos, de Zeca Linhares. Além do texto do curador, que apresenta um estudo do desenvolvimento da obra, duas críticas, já citadas, foram escritas especialmente para a publicação. Foram ainda acrescentados sete textos de época, de autoria de João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Murilo Mendes, Frederico Morais, Mário Pedrosa, Ronaldo Brito e Wilson Coutinho. Uma extensa cronologia de vida e obra, ilustrada, e uma bibliografia selecionada complementam o catálogo.


A OBRA

Franz Weissmann - Uma Retrospectiva
Catálogo da Exposição (de 15/1 a 14/3 de 1999) Museu de Arte Moderna de São Paulo (Tel. 011/549-9688) 260 págs., R$ 60,00



Paulo Sérgio Duarte é crítico de arte.

Paulo Sergio Duarte é crítico, professor de história da arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados / Cesap da Universidade Candido Mendes.
Top