

Obra examina gênese e evolução do projeto positivista do filósofo Augusto Comte
A física social
MICHEL PATY
O livro de Lelita Oliveira Benoit representa a conclusão de uma pesquisa de muitos anos, rigorosa e documentada, sobre a gênese e a evolução da idéia central do projeto de Auguste Comte de constituir uma "ciência" social, a sociologia, e de assegurar solidamente seus fundamentos epistemológicos.
É uma obra original, que abre perspectivas novas sobre o pensamento do fundador do positivismo, sobre o qual se poderia crer -sobretudo no Brasil, onde suas idéias exerceram, como se sabe, muita influência (a ponto de inspirar a divisa da bandeira nacional, "Ordem e Progresso")- que tudo já teria sido dito. Uma obra com vocação a servir de referência, e não apenas no Brasil, pois essa terá certamente uma recepção internacional, servindo de marco aos estudos comteanos.
Os quatro paradigmas
Seu método de análise dos textos associa inteligentemente o trabalho sobre a significação dada pelo próprio texto à utilização da correspondência e de documentos de arquivos (os da Maison Auguste Comte, em Paris), que esclarecem as intenções e as influências, e situa o contexto intelectual e político, até mesmo certas circunstâncias individuais, permitindo relacionar essa significação interna da obra com outra mais global, dada pela época.
Concebido em quatro partes, que correspondem às etapas da elaboração da ciência social comteana, o livro diagnostica quatro modos sucessivos de caracterização do objeto e do método (ou "paradigmas"). Trata-se primeiramente do projeto de uma "economia política" (primeiro período), que logo será substituída pela tomada de consciência da importância da "dimensão histórica" (segundo período), subordinada, em seguida, à representação orgânica (e "natural") cujo modelo é a "biologia", ciência ascendente na época (terceiro período) e, finalmente (coroamento ou suprema transformação de uma ciência em ideologia?), sua submissão ao "espírito religioso" sob a égide de uma laica "religião da humanidade" (quarto período, o mais sucinto do livro).
O método de análise adotado por Lelita Benoit lhe permite em particular propor um ponto de vista inédito sobre a primeira gênese do pensamento de Comte, ao examinar os primeiros textos com o mesmo rigor com que analisou os da maturidade. Entre esses textos, figuram principalmente os artigos, geralmente negligenciados pelos comentadores, redigidos por Comte em 1817-1819.
O estudo desses textos e dos seguintes, até 1826, que ocupa os quatro primeiros capítulos, isto é, um bom terço do livro, mostra em particular os germes essenciais do pensamento comteano que se desenvolverão em seguida, com a afirmação, desde o princípio, da necessidade de uma "ciência" social munida de critérios de cientificidade da mesma maneira que as outras ciências reconhecidas. A questão, desde suas primeiras reflexões, era a de pensar um novo sistema social para este período pós-Revolução Francesa, "a era industrial", em que a política estaria em relação com uma moral (terrestre, e não mais inspirada pela religião cristã), na perspectiva de uma concepção positiva do conhecimento.
Comte via, nessa primeira fase "pré-positivista", a ciência social como uma ciência que deveria ser organizada em torno da "economia política". Ela exigia, para ser munida de uma base verdadeiramente científica e constituída em ciência positiva (Comte falava então de "física social"), a reorganização do conjunto dos conhecimentos segundo tal perspectiva, o que correspondia ao projeto de uma nova Enciclopédia como ciência dos conhecimentos e de suas aplicações. Essa nova Enciclopédia -de que, pode-se dizer, as obras monumentais ulteriores de Comte constituem a realização, por meio das modificações de percurso, sobretudo sob o ângulo da inspiração epistemológica- foi concebida em ruptura com a das Luzes, na qual, no entanto, deverá se inspirar, quando mais não fosse para desta fazer a crítica.
Ao estudar assim (aproximadamente em 1822) o "Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano", obra póstuma do "último enciclopedista", Condorcet, inventor da idéia de uma "matemática social" e engajado na Revolução Francesa de 1789, Comte ali encontrou elementos que permitiam superar as insuficiências da economia política para fundar a ciência social e principalmente a dimensão da história, que domina a segunda fase de suas elaborações.
Os três estados
As análises que lhe são consagradas no livro de Lelita Benoit nos mostram como Comte retomou de Condorcet a idéia de lei natural do desenvolvimento da história da humanidade, isto é, de uma ciência positiva da política. O encontro de Condorcet foi de uma importância considerável para essa etapa do pensamento de Comte, a tal ponto que ele o proclamou seu pai espiritual (em particular no "Sistema de Política Positiva"). Mesmo adotando o método de Condorcet -que ele retomaria em seus tratados, e no qual encontrou a inspiração de sua "lei dos três estados" (religioso, metafísico e positivista), fundada na idéia de uma história das ciências, cuja necessidade e possibilidade são estabelecidas por ele-, deste se separaria, no entanto, de maneira fundamental ao rejeitar seus objetivos revolucionários.
Em seguida, desde 1828, a biologia passa a ter o papel de principal inspiradora do pensamento de Comte: se ele exprimiu logo a idéia de que a ciência social devia partir das faculdades do homem individual, tal idéia só se cristalizou quando tomou conhecimento das recentes descobertas da biologia e, principalmente, da fisiologia humana, que lera nos tratados de Broussais e sobretudo nos cursos de Blainville. Ele via, desde então, a física social como um ramo da fisiologia, e a história da civilização como a sequência necessária da história natural do homem.
Essa influência decisiva da biologia sobre o pensamento de Comte fora sublinhada por Canguilhem ao se referir à "filosofia biológica" deste autor; Lelita Benoit recoloca-a na sequência da evolução de suas idéias, mostrando, em particular, como Comte utiliza a teoria cerebral e a frenologia de seu tempo para fundar a realidade social sobre o determinismo dos atos humanos e para orientar o problema filosófico da educação.
Por aí, o social tornava-se natural e suas leis surgiam como tão necessárias quanto as da gravitação universal. Comte podia reafirmar, feito isto, o "relativismo como lei absoluta", afirmado desde seus primeiros textos, mas imprimindo-lhe uma conotação nova, a do caráter não absoluto das leis, já que a ciência social estaria fundada, como as outras ciências, na observação. E, curiosamente, a divisa "ordem e progresso" poderia se prevalecer de uma prioridade epistemológica, em matéria de ciência social, da "estática" sobre a "dinâmica", fundada em uma leitura não da física, mas da biologia. É o progresso (dinâmica) na ordem (estática), com a estática biológica sendo a organização, a especialização, dos organismos animais superiores.
A última fase do percurso foi, como se disse acima, a religião (da humanidade), reencontrada por Comte como a última justificação do seu sistema de fundação da sociologia coroado pela afirmação positivista; reencontro relacionado com sua experiência de educação popular, com uma reavaliação (somente a título paradigmático) da ordem social da Igreja Católica medieval, e com acontecimentos pessoais, sobre os quais Lelita Benoit não quis se estender, fiel, sem dúvida com razão, ao seu método de leitura hermenêutica dos textos na sua historicidade.
Pouco saberemos da influência afetiva e mística de Clothilde de Vaux sobre o último rumo epistemológico do mestre do positivismo. Mas teremos seguido um fio mais racional, legível, segundo as diversas temporalidades que, aos poucos o esclarecem e que nos terá permitido apreender toda a significação de um pensamento no curso mesmo de sua constituição, nos seus meandros e também na sua intenção e direção geral balizada desde o início da sua obra.
Sociologia Comteana - Gênese e Devir Lelita Oliveira Benoit Discurso Editorial/Fapesp (tel. 0/xx/11/814-5383) 428 págs., R$ 22,00
Michel Paty é professor da Universidade de Paris 7 (Denis Diderot) e autor de "A Matéria Roubada" (Edusp).