

A herança dos santos
HILÁRIO FRANCO JR.
relatos como o que vemos abaixo podem parecer estranhos ao leitor moderno, mas são de grande interesse para historiadores, antropólogos, sociólogos, psicólogos e linguistas: "Um monge vivia preso de uma prolongada tentação de concupiscência carnal. E não conseguia alívio algum daquele tormentoso, túrbido impulso, embora penitenciando o corpo com jejuns, vigílias e preces. Deus reservava ao beato Antônio a cura completa daquele mal. O homem santo e compassivo, conduzindo o monge para um canto, retirou sua malha e a entregou ao paciente para que a vestisse. Mal a vestira, o ardor da libido começou a se extinguir, sob a pressão de uma pureza tão intensa, como se da malha se desprendesse uma força misteriosa, derivada do corpo e do coração castíssimo do Santo".
De fato, a literatura hagiográfica fornece dados preciosos para a compreensão dos indivíduos e das sociedades que têm nos santos e nos milagres elementos fundamentais de sua visão de mundo. Daí os estudos sobre ela continuarem atuais, como mostram por exemplo os recentes "Les Fonctions des Saints dans le Monde Occidental (III-XIII Siècle)", Roma, École Française de Rome, 1991, e "Sources et Méthodes de l'Hagiographie", de J. Dubois e J. L. Lemaitre, Paris, Cerf, 1993. Naturalmente, o ponto de partida para os estudos hagiográficos é a publicação dos relatos sobre os milhares de santos conhecidos pela tradição católica, eclesiástica e popular. Isso é feito desde há muito ("Acta Sanctorum", 50 volumes, 1643 ss.), e com frequência eles continuam a ser objeto de reimpressões e de novas edições críticas. Mas no Brasil tais publicações ainda são raras.
O gênero conheceu seu auge na Idade Média, sobretudo com os mendicantes, que se destacaram nessa produção devido a um forte orgulho pelas realizações de suas ordens, a uma notável capacidade intelectual e a uma acentuada atividade pregadora, para a qual as narrativas de milagres constituíam-se em importante material de trabalho. Se a grande síntese hagiográfica medieval foi obra de um dominicano (Jacopo de Varazze, "Legenda Aurea", meados do séc. 13, com traduções modernas em todas as línguas ocidentais, menos em português), os franciscanos talvez tenham-se dedicado ainda mais ao gênero. Dentre eles, na segunda metade do séc. 14, o francês Arnaldo de Serrano recolheu 66 milagres de um companheiro de hábito do século anterior, Antônio de Pádua (1195-1231). A esses relatos, Vergilio Gamboso, o moderno tradutor italiano (incorretamente apontado como autor pela edição brasileira), juntou outros 14 milagres retirados de diferentes fontes.
Essa edição é agora lançada no Brasil. Se ela apresenta utilidade limitada para os estudiosos -dupla tradução, do latim para o italiano, deste para o português; falta de um estudo introdutório sobre o hagiógrafo medieval; pobreza do aparato crítico-, é contudo bem-vinda para que o público em geral tenha contato com uma rica faceta da herança medieval, ainda presente na cultura brasileira neste fim do segundo milênio cristão.
Hilário Franco Júnior é professor do departamento de história da USP, autor de "A Eva Barbada - Ensaios de Mitologia Medieval" (Edusp).