

A história vista de baixo
JAIME RODRIGUEZ
A história do capitalismo em formação é também a da resistência ao processo de exclusão e submissão ao trabalho
A hidra de muitas cabeças: marinheiros, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário
Peter Linebaugh e Marcus Rediker
Tradução: Berilo Vargas
COMPANHIA DAS LETRAS
440 p., R$ 58,00
Publicado originalmente em 2000, A hidra de muitas cabeças (The Many-Headed Hydra) brinda o leitor brasileiro com o melhor da tradição da história social inglesa. Linebaugh e Rediker são sucessores geracionais de E. P. Thompson (1924-1993), historiador cuja obra e postura política exerceram profunda influência sobre intelectuais de muitos países. No Brasil, essa influência pode ser observada desde meados dos anos 1980 em estudos sobre o mundo do trabalho. Autores como Thompson, Eric Hobsbawm e Christopher Hill legaram-nos a noção de que os agentes históricos constroem suas trajetórias no embate contra seus oponentes e a partir de suas experiências, mesmo quando as estruturas parecem dominar todas as instâncias da vida.
Linebaugh já havia feito a cabeça de historiadores no Brasil desde que foi publicada, em 1983, a tradução de seu polêmico artigo “Todas as montanhas atlânticas estremeceram”. Igualmente impactante fora a publicação de Albion's Fatal Tree: Crime and Society in Eighteenth-Century England (Londres, 1975), editado por Linebaugh, Thompson e Doug Hay. Rediker é menos conhecido do leitor brasileiro. Seu trabalho mais citado, até a publicação da Hidra, era Between the Devil and the Deep Blue Sea: Merchant Seamen, Pirates, and the Anglo-American Maritime World, 1700-1750 (Nova York, 1989), com tradução prevista para breve.
Trabalho de Hércules
O trabalho agora traduzido representa o encontro da historiografia sobre duas partes do mundo que demandam maior diálogo. O conhecimento de Linebaugh sobre a história inglesa e o de Rediker sobre a América do Norte e o mundo marítimo na Idade Moderna têm seu ponto de união no Atlântico – oceano que, como os autores frisam, banha também a África.
As lutas pela construção da liberdade como ideal e realidade social formaram a base comum para a empreitada a quatro mãos. Tais lutas podem ser notadas em campos como a pirataria, as armadas inglesa e norte-americana e o tráfico de africanos entre o século 17 e os primeiros anos do 19. A história vista “de baixo” é o que mobiliza os autores para uma densa pesquisa empírica e um apaixonado debate historiográfico – como já disse, na melhor tradição da história social inglesa.
As alusões à hidra de Lerna e ao trabalho de Hércules em destruí-la não são casuais. Tratava-se, no século 17, de uma metáfora política fartamente utilizada pelos governantes europeus ao se referirem à dificuldade em administrar trabalhadores em três continentes e em um oceano, transportando-os e obrigando-os a produzir compulsoriamente riquezas para Coroas, governos e burgueses. Cada cabeça da Hidra era uma forma cambiante de resistência por parte de “plebeus esbulhados, delinqüentes deportados, serviçais contratados, extremistas religiosos, piratas, operários urbanos, soldados, marinheiros e escravos africanos”.
Já na década radical de 1790, os trabalhadores que começavam a se organizar traçavam uma analogia entre a Hidra e os governantes tiranos e entre os próprios trabalhadores e o Hércules mitológico. Símbolos, portanto, são sempre passíveis de ressignificações. O combate ao radicalismo nessa década teria resultado na criação do racismo biológico e da classe como categoria definida apenas no interior de fronteiras nacionais.
Para os autores, a história do capitalismo em formação não é apenas a história da concentração da riqueza em uma classe social, mas também da resistência ao processo de exclusão e submissão ao trabalho compulsório levado a cabo por grupos sociais não-conformistas.
Em nome da cautela, usei a expressão “grupos sociais”. Os autores, destemidos, os chamam de proletários, sem receio de incorrer em anacronismo. Fazem o mesmo com a palavra “escravidão”, entendida como sinônimo de trabalho compulsório. Proletários, no rigor marxista, são os trabalhadores explorados no sistema de fábricas. Mas as analogias operadas por Linebaugh e Rediker nesta e em obras anteriores os deixam à vontade para usar os termos “proletários” e “proletariado” e estendê-los a todos os trabalhadores espoliados desde o início dos tempos modernos, inclusive os escravos. O isolamento, a hierarquia, a coordenação dos movimentos e o lidar com a tecnologia aproximavam os trabalhadores marítimos dos fabris, permitindo a comparação de suas experiências.
Nove capítulos e uma conclusão com estatura de capítulo compõem a obra. Ao longo do texto, vemos surgir tentativas, com maior ou menor êxito, de disciplinar os proletários. Essas tentativas se deram em um processo que, a princípio, não tinha vencedores. Assim como governos e proprietários do capital tentavam impor a ordem, os proletários de diferentes cores e lugares resistiam. Também a resistência é apresentada como um processo historicamente construído por sujeitos sociais obscurecidos.
Os capítulos permitem (re) ver temas importantes da Era Moderna como produtos de relações, não de coincidências. Entre muitos outros, a produção da figura do “vadio” a partir da legislação; a repressão à feitiçaria; o cercamento das terras anterior à implantação das primeiras fábricas; a expropriação das áreas de uso comum na Europa, na América e na África; o início do tráfico de africanos; o sentido da colonização da América do Norte articulado à expropriação, à repressão à vadiagem na Europa e à escravização de africanos; as utopias e perspectivas de liberdade elaboradas por europeus e africanos levados a cruzar o oceano à força.
Os processos são esmiuçados no livro por meio de uma narrativa que explica um processo histórico no qual era preciso justificar as várias formas de expropriação. Ao mesmo tempo, essas iniciativas encontraram barreiras, sob os véus da cooperação e da auto-organização dos expropriados, realimentando o medo das classes dominantes e a invenção de novos métodos de expropriação e de novas formas de se contrapor a eles. Assim, o jogo nunca termina.
Ideais radicais
A Revolução Inglesa, que marcou o século 17, nos é apresentada sob forte influência da obra de Hill. Embora os ideais radicais ali expressos tenham sido sufocados pela ação de Cromwell, eles não se perderam por completo. Foram retomados nos territórios banhados pelo Atlântico, em tempos próximos e em ressonâncias tão ulteriores como no pan-africanismo de meados do século 20, no inventário das diferentes formas de mobilização pela liberdade na história mundial. A Revolução poderia ter tido um desfecho diferente, e observá-la “de baixo” requer considerar dinâmicas de raça, classe e gênero para entender a derrota dos expropriados. Caso contrário, corremos o risco de limitar nossa compreensão ao cansado âmbito das biografias de personalidades e das histórias dos ilustres condutores dos povos – reis, ministros, presidentes, generais e coisas que os valham.
Aos leitores brasileiros, fica o convite para a leitura de uma obra que une rigor de pensamento, pesquisa alentada e narrativa prazerosa. É de leituras inspiradoras como essa que emergem idéias e estímulos a novos e necessários estudos sobre o trabalho e os trabalhadores em tempos e espaços variados.