

Ser africano na Bahia
ALBERTO DA COSTA E SILVA
Como viviam os africanos libertos na Bahia do século 19
Domingos Sodré, um sacerdote africano
João José Reis
Companhia das Letras,
434 p., R$ 58,00
Esse é um livro polifônico. Ao lê-lo, ouvimos numerosas vozes, cada qual com seu ritmo, linha melódica, textura e timbre, a contar histórias pessoais, que se encontram e desencontram para formar um grande enredo: a vida dos libertos na Bahia do século 19. Se estivéssemos diante de um pano da costa tradicional, feitos, nos teares estreitos do Iorubo, para os grandes chefes, acompanharíamos com o olhar o fio dourado que o percorre, a biografia de um sacerdote africano, Domingos Sodré, de quem ficamos sabendo menos do que desejaríamos - ignoramos até mesmo o nome ou os nomes que teve no outro lado do Atlântico -, mas o suficiente para que o vejamos em casa e na rua, no terreiro de culto e na prisão.
Em nenhum desses lugares ele está sozinho, nem à frente de um espaço vazio. Pois João José Reis, com a mestria a que nos acostumou em Rebelião escrava no Brasil (Companhia das Letras) e A morte é uma festa (Companhia das Letras), refaz e projeta na nossa imaginação, em tamanho natural, a Salvador do Oitocentos, e seus arredores, e as cidadezinhas e engenhos do Recôncavo, e lhes povoa a paisagem de amigos, desafetos e quem mais tenha atravessado o caminho de Domingos Sodré ou possa explicar o seu destino. Dá-nos o que recolheu nos arquivos - e esse livro se levanta sobre uma ampla, minuciosa e sábia investigação nos arquivos baianos, cariocas e britânicos - da fisionomia e do percurso de pessoas que entraram para a história oficial e de outras de quem ninguém, nem mesmo os seus descendentes, tinha memória.
Companheiros de sina
Vamos lendo o livro e, de súbito, dele nos acenam ou estendem a mão os companheiros de sina de Domingos, cujas histórias não mereciam ficar perdidas e que compõem e ajudam a explicar como viviam os africanos libertos - e muitos apenas conseguiam sobreviver - numa sociedade escravista. Eis Manoel Joaquim Ricardo, ex-escravo, senhor de escravos e traficante de escravos. Não distante dele, Cipriano José Pinto, que fazia grigris ou amuletos com versículos do Alcorão. E, a dobrar a esquina, lá vem Antão Pereira Teixeira, que emprestava dinheiro para que cativos comprassem a liberdade, mas exigia em contrapartida que estes lhe prestassem serviços até o pagamento da dívida, reproduzindo na Bahia o sistema de penhora humana existente na África Ocidental.
A muitos outros - não os contei, mas não devem andar longe dos 200 - devolve o caminhar João José Reis. Como a Elias Francisco de Seixas. Ou ao escravo Florêncio, a reclamar a liberdade. Ou aos devotos dos orixás, num livro que é também uma contribuição preciosa à história dos candomblés baianos - uma história que Reis nos está a dever. Enquanto ele não a escreve, alegremo-nos com esse livro cheio de movimento e bulício, de aventuras e imprevistos, e que, sendo um trabalho rigoroso e inovador de investigação histórica, se lê como um romance.
O percurso de Domingos Sodré começa em Eko, Onim ou Lagos. Talvez fosse um auori, a gente que povoou a ilha e fundou a cidade. Ou talvez sua família pertencesse a outro povo de língua iorubana e para lá se tivesse mudado, atraída pelas novas oportunidades de um grande empório. Reis propõe a hipótese de que Domingos tivesse sido feito cativo durante uma das guerras civis pelo trono de Lagos, mais especificamente a entre Osinlokun e Adele. Se foi vendido com a mãe e o pai, não seria de descartar-se uma escravização da família inteira, como era de norma, por delito de um de seus membros. E, se o foi sozinho, pode ter sido sequestrado e jogado no porão do tumbeiro.
Quando morei na Nigéria, contaram-me muitas e muitas histórias de meninos e rapazolas que foram embebedados e vendidos, em alguns casos por parentes, aos navios no porto. Não foi o que sucedeu com João Esan da Rocha, que, depois de ser escravo no Brasil, viria a ser um dos homens mais ricos de Lagos?
Ameaça de deportação
A maioria das famílias de amarôs ou agudás (nomes dados aos descendentes de ex-escravos que voltaram do Brasil para a África Ocidental) afirma que seus antepassados não foram aprisionados em guerra, mas, sim, sequestrados. O que só raramente ouvi, e sempre de muçulmanos, foi que seus bisavós tivessem sido expulsos do Brasil. Em duas famílias, encontrei quem me dissesse, sem esconder o desvanecimento, que seus maiores se haviam envolvido na revolta dos malês. Na memória das demais, os antepassados regressaram à África por iniciativa própria, do que muito se orgulham.
Reis nos mostra, porém, que sobre os africanos libertos pairava permanentemente a ameaça da deportação e narra alguns casos em que isso se deu. Que das reminiscências familiares, na África, se haja apagado o banimento, é fácil de explicar-se. Na costa africana, os retornados tiveram de construir uma nova identidade, com base numa experiência brasileira, que valorizavam, e no mérito pessoal, que os fizera passar de escravos a pessoas livres - pessoas livres, corajosas e empreendedoras, capazes de acumular os recursos que lhes permitiram regressar á África e nela prosperar. Uma condenação penal como o desterro tinha, já no desembarque, de ser esquecida.
Domingos faleceu um ano antes da Abolição. Sua mulher, Delfina, viveria quinze meses mais. Na indigência. Pois foi saqueada - diz-nos Reis - “por todo lado”. Era o que costumava ocorrer até meados do século passado, quando uma mulher perdia o marido. Excetuadas aquelas que tinham tino para negócios e umas poucas mais, as viúvas, mesmo as que herdavam um bom patrimônio, não tardavam em ser espoliadas por sócios do falecido, cunhados, genros, irmãos, compadres ou advogados. Quando se dizia “viúva”, pensava-se logo numa pessoa empobrecida, numa “nova pobre”.
Domingos viveu uns 90 anos. Talvez mais de 70 no Brasil. Homem de prestígio entre os seus - um baba, um pai espiritual, um adivinho, merecedor de respeito e homenagem, ele nos serve de guia, neste livro, não só para adentrar-nos na história do candomblé, como se antecipa no prefácio, mas também na vida da Bahia do século 19. Leva-nos aos espaços que nela tinham os forros e nos mostra, por exemplo, pelo comportamento de seu biografado, quão contraditórias eram as relações dos ex-escravos com a escravidão. Numa página, Domingos dirige uma junta de alforria, que possivelmente seguia o modelo do esusu iorubano, uma associação de crédito rotativo semelhante, como a sua congênere hauçá, a um consórcio atual para a compra de automóveis. Noutra, o mesmo Domingos adquire e vende escravos - e deles explora o trabalho.
Manhas da Bahia
Sem deixar de ser africano, Domingos absorveu os modos de vida, os valores e até as manhas da Bahia. Cumpriu de ponta a ponta o processo de ladinização (termo que Reis prefere, e dá boas razões para isso, a crioulização). Tornou-se um centauro cultural, como a Salvador onde morava, talvez a mais portuguesa das cidades brasileiras e certamente a mais africana.
A história de Domingos Sodré não se poderia, portanto, desenhar em branco e preto. Sabedor disso, João José Reis valorizou os cinzentos na sua água-forte. E essa pletora de tons é em grande parte responsável pela alta qualidade e beleza deste livro.