


O sumiço deste livro, publicado pela primeira vez em 1957, a que se deve? À exigência do autor que jamais terminava as contínuas revisões? Ou ao escândalo que causou? "Fiquei traumatizado, pois desabou sobre mim uma saraivada de insultos e incompreensão", afirmou Otto em entrevista a Edla van Steen (Viver e escrever,L&PM, 1982).
A temática, sete histórias de crianças na primeira adolescência (de 11 e 14 anos), é complexa, seu tom, pungente, longe da imagem edulcorada com que se costuma vestir a infância, apesar das teorizações. Otto mais de uma vez afirmou estar consciente da "tristeza misteriosa da infância", de seus desesperos. Tais sentimentos não aparecem no livro como inerentes ao ser humano, ou mecanicamente derivados de circunstâncias, que nem por isso deixam de ser sublinhadas: pobreza, abandono, situação familiar ou indiferença dos adultos animam temperamentos, estabelecendo a crise. A esse drama não faltam traços poéticos, percebidos na mão leve com que é descrita a natureza, ou no seu avesso, a crueza de imagens desalentadas. "O padrinho era enorme, tinha costas caladas, hostis como uma parede", pensa o órfão agarrando-se na garupa de um homem que em breve o espancará e transformará em escravo ("O moinho").
Segredos infantis
Se esse quadro lúgubre da vida numa cidade interiorana pode ser tocado por leves tons dickensianos, por outro lado imediatamente encontramos nele nossos conterrâneos históricos: filhos de criação explorados à exaustão, o filho do padre, objeto de chacota dos companheiros, abuso sexual principalmente de meninas, iniciando-se dentro da família, que por sua vez instaura seus mecanismos próprios de privilégio e exclusão. No horizonte de tudo isso, a religião, incompreendida muitas vezes pelas crianças. Com um pequeno sorriso divertido, o narrador comenta que elas se sentiam culpadas porque "o sol atrapalhava o arrependimento perfeito".
Os meninos tentam se proteger, seja pelo silêncio, os famosos segredos infantis, seja obedecendo ao "atávico instinto do antro escuro". Assim, é sob uma laje pouco acessível junto a um cemitério abandonado, que Trindade, o filho do padre, se esconde. Segundo o vulgo, era a "escura e secreta Boca do Inferno", habitada por aranhas e cobras. Nesse ventre de terra, como morto, Trindade está a salvo da zombaria dos outros, das obrigações religiosas impostas pelo padre e das contínuas surras de vara de marmelo. Ali ele repousa e talvez sonhe de olhos abertos com o crime que irá cometer, enquanto "a lua cheia acendia no musgo da pedra oscilações de um lago /.../".
Este conto, "Filho de padre", que abre o livro, articula-se perfeitamente com "O moinho", o último, fechando os restantes em seu compasso. O tom do autor é baixo e alusivo, apostando na interpretação do leitor, que deve afiar o olhar em pormenores, chaves do sentido. A modulação quase imperceptível provoca momentos de afastamento crítico, quando então nos lembramos que, apesar dos crimes, essas personagens são apenas crianças. É esse descompasso que funda a tensão dos textos, atiçando o leitor a entender o fundamento da tragédia: social, familiar ou apenas derivada da idade, o que pode dar um colorido bem-humorado a certas aflições. É o que acontece em "Namorado morto", situado exatamente no centro do livro, como sua balança. Doquinha, de 11 anos, não cabe no velho nome da avó Eudóxia, como também não cabe na paixão despertada por um colega de classe, indiferente e mimado pela família "chique". Repentinamente morre, está "bem morto dentro do caixão". Ela tem raiva dele. Se era burra por não ter sabido se declarar, ele era mais burro ainda. Além disso, "morto, burro, não valia nada". E se chovesse? "...deve ser horrível um defunto molhado".
Através dessa lente deslocadora, observamos Doquinha fechada no quarto com sua fantasia e sua dor, "imóvel como um bicho que interrompe a respiração", à semelhança de Trindade sob a laje. Ela imagina as conversas no velório, repensa a paixão, quer morrer. A mãe não acredita, porém "Doquinha queria mesmo morrer". Devemos confiar nesse narrador dissimulado, que diz tantas coisas pela metade?
Talvez possamos afirmar que A boca do inferno conta a mesma história, à contraluz e com variações, como faziam os trovadores. Podemos aproximá-lo, com as devidas diferenças, de outro volume de contos com temática única, isto é, Velórios, de Rodrigo M.F. de Andrade, de 1936. Por motivos diferentes, os autores renegaram seus contos, que podem ser considerados como pertencendo à mesma família nessa ficção que "quanto mais distanciada, mais fiel à realidade", como escreveu Clara de A. Alvim a respeito de Velórios, na edição especial do livro em 2012, pela Confraria dos Bibliófilos do Brasil.
Quanto a A boca do inferno, nada mais contemporâneo. Deveria ser lido também por aqueles que defendem a absurda redução da idade penal em nosso país.