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Luiz Mott - 42 - Setembro de 1998
Sonhos de um brigadeiro
Foto do(a) autor(a) Luiz Mott

Sonhos de um brigadeiro

LUIZ MOTT

Gente importante, personalidades históricas, heróis nacionais geralmente têm suas biografias despojadas de qualquer menção ou fato que pudessem embaçar o brilho de suas virtudes intelectuais ou patrióticas. Nossos luminares parecem anjos -sem sexo e sem vida sexual. Várias biografias de Santos Dumont, por exemplo, omitem seu suicídio e sua provável homossexualidade. A quase totalidade de nossos heróis são completamente assexuados ou considerados naturalmente heterossexuais. Poucos estudiosos quebraram o complô do silêncio, ousando registrar as preferências sexuais pouco convencionais de Olavo Bilac, do Conde d'Eu, as cartas comprometedoras da Imperatriz Leopoldina e a sífilis de D. Pedro 1º.
José Vieira Couto de Magalhães, destacado político, militar e escritor brasileiro do tempo do Império, foge à regra dominante, pois, malgrado ter ocupado importantes cargos na esfera pública e se tornar nome de serra em Roraima e titular de um município mineiro no alto Jequitinhonha, não quis esconder que foi pouco convencional em questões de moral sexual: solteirão convicto, reconheceu em seu testamento a paternidade de três filhos naturais; escreveu um romance picante, "As Fantasias Devassas do Dr.Calmiru"; em seu diário refere-se várias vezes à amante inglesa Lily Grey; era portador de doença venérea e, sobretudo, deixou registrado em seu diário diversos episódios e sonhos que revelam que nosso herói não era heterossexual exclusivo: como tantos outros mortais do mundo inteiro, tinha sonhos e desejos homoeróticos. 
Sua vida foi uma coleção de sucessos: nascido em Minas Gerais, em 1837, provinha de família intelectual. Estudou no Seminário do Caraça, doutorou-se em direito pela Faculdade do Largo São Francisco, bem jovem já era sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1859, publica seu primeiro livro, "Os Guaianás", sobre a fundação de São Paulo; no ano seguinte, lança "Um Episódio da História Pátria", consagrado à revolta de Felipe dos Santos em Vila Rica; em 1863, edita "Viagem ao Araguaia" e, depois, "Memória Sobre as Colônias Militares Nacionais e Indígenas" e "Dezoito Mil Milhas no Interior do Brasil". Sua obra mais consagrada data de 1876: "O Selvagem", encomendada por D. Pedro 2º para figurar na Biblioteca Americana da Exposição Universal do Centenário da Independência Americana, na Filadélfia, livro traduzido em várias línguas. 
Sua vida pública inicia-se em 1860, aos 23 anos, quando ocupa o cargo de secretário da província de Minas Gerais, contando para tanto com a proteção do Visconde de Ouro Preto. Dois anos depois, é nomeado presidente da província de Goiás, ocupando ainda a presidência das províncias do Pará, Mato Grosso e São Paulo. Foi brigadeiro honorário do Exército pelo seu vitorioso comando na tomada de Corumbá e, no fim da vida, presidente do Clube dos Oficiais Honorários do Exército.
Escritor fecundo, político influente, Couto Magalhães foi igualmente bem-sucedido homem de negócios, diretor de banco, fundador de empresas de transporte fluvial e ferroviário. Amigo, admirador e defensor dos "selvagens", fundou no vale do Araguaia o Colégio Princesa Isabel, para educação de crianças indígenas. Monarquista convicto, chefe do Partido Liberal de São Paulo, opôs-se aos ideais republicanos, tendo sua prisão decretada por ordem de Floriano Peixoto, por seu envolvimento na Revolta da Armada. Desde 1889, descobre-se portador de sífilis, sofrendo ataques nervosos e diversos sintomas desta enfermidade. Morre no Rio de Janeiro em l898.


A OBRA
Diário Íntimo
José Vieira Couto de Magalhães
Organização de Maria Helena P. T. Machado
Companhia das Letras
(tel. 011/866-0801)
248 págs. R$ 18,00



"Diário Intimo" é um livro intrigante: um leitor ávido de encontrar relatos de intimidades eróticas ficará frustrado, pois contam-se nos dedos tais inconfidências -aliás, escritas em tupi (com tradução em notas de rodapé), língua dominada por Couto Magalhães, autor de "Curso de Gramática Tupi" (l874). Enfadados ficarão outros leitores com as páginas e páginas nas quais registra a melhor maneira de segurar a caneta de pena, a relação de endereços de seus correspondentes e a frequente descrição de como dormira bem ou mal na última noite. Considerando-se porém a raridade deste tipo de escritos na tradição literária luso-brasileira e a espontaneidade e liberdade como Couto Magalhães narra metodicamente seu dia a dia, não há como negar a importância desta publicação para diversos ramos das humanidades. Este diário oferece material de primeira grandeza para estudos de caso da história médica, para interpretações psicanalíticas das fantasias eróticas de um solteirão potencialmente bissexual, sem falar na possibilidade da reconstrução da história do quotidiano de um empresário brasileiro na Londres da época da Rainha Vitória. A introdução de Maria Helena P.T. Machado é um primor pelo cuidado com que dirime as dúvidas do texto original, pela pesquisa ilustrativa das fontes e referências citadas pelo autor do diário, pelas conexões ilustradas que faz com assuntos paralelos sugeridos pela obra. 
Para a história da sexualidade, o livro é uma contribuição substantiva, pois demonstra como um másculo cidadão e valoroso militar acima de qualquer suspeita, tal qual o vemos de corpo inteiro retratado por Almeida Júnior em quadro conservado no Museu Paulista, mantinha curiosidade, sensibilidade e devaneios que revelam insistente ligação com a homossexualidade.
Aos 3 de outubro de 1880 revela seu desgosto com suas principais experiências heterossexuais: "Tenho ultimamente discutido comigo mesmo se há ou não vantagem em ter a companhia de uma mulher. Há dois anos que eu conservo tal companhia (Lily) e realmente não tenho juízo formado. No Araguaia eu tinha essa companhia e uma vez só me não vieram saudades disso. A que tive no Pará igualmente me não deixa saudades; a que tive em Londres a mesma coisa. Para o meu gênio independente e pontual é um pesadelo, escravidão disfarçada que me tira grande parte do meu tempo e que me dá uma compensação pouco satisfatória".
Embora vivendo numa época em que a homossexualidade era tratada como crime hediondo, na mesma Londres onde Oscar Wilde foi condenado à prisão com trabalhos forçados, Couto Magalhães não resiste à tentação de deixar escrito o que era nefando, isto é, proibido de se falar. Sensível ao tema, registra em seu diário, a 27 de setembro do mesmo, que "47 indivíduos que estavam num baile de máscara em Manchester, sendo que 22 estavam vestidos de mulher, foram presos porque dançavam o cancan...". Apesar do risco do homoerotismo, Couto de Magalhães revela sua atração unissexual: "Vi na ponte (próxima a Paddington Station) um jovem melancólico encostado a um poste de lampião que me excitou curiosidades...". Mais explícito se torna no relato de uma dezena de sonhos com forte presença do falo, referido em tupi-nheengatu como sakanga ou rakanga e traduzido como galho, onde diz textualmente: "Eu quero fazer sexo com um mestiço, com um preto... eu quero fazer sexo com Timóteo, meu galho preto endurecido quer estar escondido no (seu) ânus (...). (Eu) dava com meu galho na barriga de Herman da Silva, depois para fazer sexo em sua perna... dei a cabeça de meu galho preto, (êle) chupa bem... O Capitolino pegava dentro o galho preto e endurecido enquanto eu também pegava seu galho dentro e estava muito alegre. Então falei para êle: quero que amarres minha mão, ao que êle respondeu: está bem...". 
Se passou da intenção à ação homoerótica, não podemos saber. Seus escritos e sonhos identificam-no como homossexual latente. Se até Oscar Wilde, apesar de toda evidência, negou praticar o amor que não ousava dizer o nome, seria demais esperar de um brigadeiro honorário do Exército Imperial assumir a prática de um amor criminoso. Para bons entendidos, contudo, bastam seus sonhos. 

 


Luiz Mott é professor da Universidade Federal da Bahia.

Luiz Mott é professor da Universidade Federal da Bahia.
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