

Tímida tropicalidade carioca
Como os ingleses viam o Rio de Janeiro n o século 19
RONALD RAMINELLI
Os recentes estudos anglo-americanos sobre história natural, viagens e paisagens promoveram um grande avanço na historiografia. Na melhor tradição da interdisciplinaridade, eles atuam na interface entre ciência, arte e poder, ramos do conhecimento histórico tradicionalmente compartimentados. As pesquisas exploram as viagens de circunavegação em mares e paragens remotas, empreendimentos indispensáveis para a expansão colonial. Promovendo um extraordinário inventário do mundo, os viajantes coletaram espécies, traçaram rotas, descreveram e pintaram comunidades e paisagens, buscando comparar e classificar as experiências acumuladas durante as viagens.
Os povos e a natureza eram, portanto, concebidos como forma de fortalecer a nação, munindo-a de recursos naturais inexistentes nas plagas setentrionais. A coleta de espécies vegetais e a aclimatação tornaram-se um desafio científico. Para Lisbet Koerner, os naturalistas indicavam uma solução científica para um problema político, originado das balanças comerciais desfavoráveis. Os europeus acumulavam conhecimentos provenientes da natureza e contavam ainda com o saber dos nativos, dos povos visitados durante a viagem. As metrópoles atuavam como centros científicos, produzindo herbários, diários, pranchas, vistas e paisagens, conhecimento indispensável para os avanços colonialistas oitocentistas.
O mercado editorial brasileiro ainda não descobriu essas preciosidades historiográficas. No entanto o livro "O Rio de Janeiro dos Viajantes", de Luciana de Lima Martins, realizou um bom balanço dessas pesquisas, tendo como pretexto as paisagens do Rio de Janeiro, o olhar britânico sobre a cidade entre 1800 e 1850. Proveniente da geografia, a autora é discípula do renomado Denis Cosgrove e pesquisadora do Grupo de Geografia Social e Cultural de Royal Hollaway da Universidade de Londres. Recorrendo a "sketch-books", cartas náuticas, gravuras e textos impressos, ela pretendeu refletir sobre o processo de representação e descrição, ou melhor, sobre a capacidade de produzir imagens gráficas e textuais por meio da experiência.
"Ao observarmos com atenção a variada iconografia do Rio de Janeiro produzida por viajantes britânicos oitocentistas, começamos a vislumbrar a complexidade do processo de formação da geografia imaginativa britânica dos trópicos". O estudo possui enorme influência de Edward Said e do conceito de "geografias imaginativas". A "tropicalidade" seria igualmente uma construção cultural européia que, em princípio, tendeu a delimitar "zonas do mundo racial, geográfica e culturalmente unificada".
Ampla divulgação
Desde o capitão Cook, frequentemente os britânicos visitaram o Rio de Janeiro rumo às colônias do Pacífico e do Índico. Ao longo da jornada, suportavam as intempéries marítimas e as exigências próprias dos patrocinadores da expedição. Os recursos naturais, sobretudo a flora, deveriam ser coletados e transportados para herbários e gabinetes de história natural na Inglaterra. As remessas enfrentavam a diversidade climática e a alta salinidade ao longo da travessia marítima, inviabilizando, por vezes, o estudo e a reprodução das espécies.
A experiência dos viajantes era amplamente divulgada. Para além das publicações, o conhecimento se difundia em relatórios oficiais, revistas, jornais e palestras em sociedades científicas, missionárias ou filantrópicas. O público se interessava igualmente pelas ilustrações de plantas, animais, povos e paisagens exóticas. Ao serem publicados como gravuras, os desenhos produzidos no além-mar passavam também pelo crivo de editores que comumente modificavam suas feições iniciais para se adequar ao gosto e às expectativas dos consumidores.
As paisagens cariocas estão em centenas de desenhos e gravuras britânicos. De forma superficial, Luciana Martins menciona as alterações do desenho e aquarela produzidos por William Alexander ("The Aqueduct at Rio de Janeiro", 1792) e Augustus Earle ("Slave Market", s/d). As imagens produzidas "en route" originaram gravuras publicadas no livro de John Barrow e Maria Graham, respectivamente.
Para além do embelezamento, elas sofreram um processo de "metamorfose" que expressam, como enfatizou Ann Bermingham, o caráter ideológico da paisagem. Essa preciosa perspectiva metodológica encontra-se insuficientemente explorada. Luciana Martins não se indagou sobre os motivos que levaram os gravadores a substituir uma árvore por palmeiras, negros seminus por frades franciscanos, além de incluir na paisagem de Alexander uma área de livre circulação, própria de cidades, onde vários transeuntes, negros a maioria, circulam com carroça e liteira.
Assim como as paisagens, vistas e cartas marítimas também estavam atreladas ao sistema de patronagem. Indispensáveis à navegação, marcavam os acidentes geográficos e guiavam os marinheiros em mares remotos. Os perfis topográficos permitiam aos navegadores verificar a posição exata das embarcações. O porto, as montanhas e os complexos recortes da baía da Guanabara foram minuciosamente traçados pelos agentes do departamento hidrográfico da Real Marinha britânica.
Curiosamente, o relevo montanhoso da cidade do Rio de Janeiro, visto do alto-mar, era identificado pelos britânicos como um homem deitado de costas: a Pedra da Gávea era a cabeça, o Pão de Açúcar, os pés. A construção do conhecimento marítimo era o resultado "de uma constante negociação entre as convenções criadas nos espaços internos dos gabinetes da Marinha real e as representações de espaços externos por indivíduos que haviam de fato estado em terras longínquas".
Seguindo os ensinamentos de Humboldt, os naturalistas britânicos enfatizavam a fidelidade à natureza expressa nos desenhos. Ao contrário dos pintores de paisagem, eles não deveriam representar a natureza para expressar a sua arte. Adotavam um enfoque disciplinado, recorrendo à habilidade artística para transmitir conhecimento. As paisagens tropicais de William Havell, Augustus Earle e Conrad Martens atestam, porém, a constante interação entre paisagens remotas e paisagens mentais dos artistas, entre experiência "en situ" e convenção "en visu".
Os artistas ainda buscavam atender às exigências artísticas e científicas do público. Nesse processo de representação, por certo, interagiam três variáveis: a viagem, o artista e o público. Embora o método de estudo iconográfico esboçado por Luciana Martins seja apropriado e promissor, a visão britânica da "tropicalidade" prometida (ver pág. 27) permanece uma incógnita.
"O Rio de Janeiro dos Viajantes" reúne, enfim, reflexões inovadoras, sendo potencialmente capaz de promover um grande avanço nos estudos da paisagem carioca. No entanto a autora mostrou-se muito econômica nas análises e explorou pouco as narrativas e imagens produzidas pelos naturalistas e artistas britânicos. Muito preocupada em sintetizar as novas pesquisas, ela frequentemente abandona o objeto, passando rapidamente pelas representações da cidade, produzindo um estudo tímido sobre a tropicalidade carioca. No fim do livro, percebe-se o Rio de Janeiro mais como um pretexto e menos um tema de pesquisa.
Ronald Raminelli é professor de história na Universidade Federal Fluminense e autor de "Imagens da Colonização" (Edusp/Jorge Zahar Editor).
O Rio de Janeiro dos Viajantes
Luciana de Lima Martins
Jorge Zahar Editor (Tel. 0/xx/21/240-0226)
206 págs., R$ 32,00