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Michael McDonald Hall - 63 - Junho de 2000
Tópicos de nossa história
Foto do(a) autor(a) Michael McDonald Hall

Tópicos de nossa história

 


A história do Brasil torna-se acessível a um público maior



Viagem Incompleta
Carlos Guilherme Motta (org.)
Editora Senac (tel. 0/xx/11/3884-8122)
Formação - Histórias (vol. 1)
384 págs., R$ 33,00
A Grande Transação (vol. 2)
504 págs., R$ 43,00

MICHAEL HALL

Um resultado positivo da comemoração dos 500 anos é a publicação de coletâneas como esta. Em dois volumes, com mais de 800 páginas, os 26 colaboradores cobrem uma ampla variedade de tópicos da história brasileira. Como seria de esperar numa obra desse tipo, o conjunto é bastante heterogêneo, mas com uma certa ênfase na história das idéias ou, como prefere o organizador, "história das mentalidades".
Em geral, quem acompanhou a produção historiográfica nos últimos anos não vai ter grandes surpresas nesses ensaios. A instrução para os colaboradores parece ter sido a de resumir o estado atual do conhecimento sobre seu tópico, tornando acessíveis para um público maior os resultados das mais recentes pesquisas. Em busca desse louvável e importante objetivo, alguns dos autores dão contribuições notáveis.
No melhor ensaio da coleção, João Reis analisa a resistência negra no século 19. Resumindo suas próprias pesquisas, assim como os resultados de outros estudos dos últimos anos, Reis demonstra a participação de escravos e de seus descendentes nas várias revoltas do período, e sua apropriação ambígua da ideologia liberal. Conclui que "os escravos participaram ativamente, e às vezes surpreendentemente, da desorganização e extinção do escravismo brasileiro". Afirma que é "possível entender os escravos como sujeitos históricos ativos".

Política própria
Segundo Reis, "ao contrário do que um dia escreveu Fernando Henrique Cardoso, sua "consciência de revolta" não se esgotou "na fabulação e nas crenças religiosas'". E acrescenta: "fizeram política sim, mas com uma linguagem própria" e também "fizeram da religião africana ou do catolicismo popular instrumentos de interpretação e transformação do mundo, mas não deixaram de assimilar com os mesmos objetivos muitos aspectos de ideologias seculares disponíveis nos diversos ambientes sociais em que circulavam".
Há várias outras contribuições extremamente informativas: Aziz Ab" Sáber descreve a geografia humana antes da chegada dos portugueses; Evaldo Cabral de Mello examina aspectos da vida cotidiana e da organização econômica e social da colônia, especialmente Pernambuco, baseado sobretudo em cronistas dos séculos 16 e 17; João Almino percorre, com entusiasmo e perspicácia, os ficcionistas do século 20. Há ensaios equilibrados e informativos sobre as relações do Brasil com a América Latina (Maria Helena Capelato) e com os EUA (Lígia Prado).
Alguns tópicos menos esperados recebem um tratamento esclarecedor. Karen Macknow Lisboa examina os relatos de vários viajantes estrangeiros -alguns pouco conhecidos- com referência às questões da monarquia e da escravidão. Os viajantes propiciam também um passeio curioso pela exuberante e sinistra selva do pensamento racista do século 19. São fontes notoriamente difíceis de avaliar, cujas contradições, confusões e extensas áreas de cegueira e preconceito, apontadas pela autora, talvez revelem mais sobre os visitantes e suas respectivas sociedades de origem do que propriamente sobre o país visitado.
Um conjunto de ensaios examina a emergência da própria idéia do Brasil. Stuart Schwartz reconhece as imensas dificuldades que os historiadores enfrentam em acompanhar o que pensava a "massa dos habitantes iletrados da colônia", cujas "mentalidades" deixaram poucos traços na documentação disponível. Entretanto, ao examinar a emergência das noções de "povo" e de "plebe", Schwartz não restringe sua atenção aos escritos de pequenos grupos de intelectuais, nem ignora as divisões sociais, culturais e regionais que prevaleciam na colônia. Demonstra claramente como a questão de raça exacerbou as distinções de classe e conclui enfatizando a importância do Iluminismo e da Revolução Francesa no aparecimento de um conceito mais elaborado de "povo" no Brasil.

Emergência da identidade
István Jancsó e João Paulo Pimenta contribuem com um capítulo à altura das complexidades e das sutilezas que permeiam a emergência da identidade nacional brasileira. Como os autores afirmam, "não se deve tomar a declaração da vontade de emancipação política como equivalente da constituição do Estado nacional brasileiro". Distinguindo com cuidado entre "Estado" e "nação", os autores concluem que "a identidade nacional brasileira emergiu para expressar a adesão a uma nação que deliberadamente rejeitava identificar-se com todo o corpo social do país, e dotou-se para tanto de um Estado para manter sob controle o inimigo interno". Kenneth Maxwell situa a independência do Brasil em um contexto comparativo atlântico.
O organizador da coletânea, Carlos Guilherme Mota, resume muitos anos de pesquisa num ensaio magistral, "Idéias do Brasil: Formação e Problemas, 1817-1850". Argumentando que "a consciência de nação somente se consolidaria plenamente quando se conseguiu elaborar uma história própria", apresenta -entre outras contribuições- uma erudita análise da historiografia do seu período.
A questão do pensamento racista permeia vários ensaios, mas a discussão avança relativamente pouco e a relação entre as idéias e as práticas mal aparece. (Aliás, faz falta nesta coletânea um bom capítulo tratando de relações raciais após a Abolição.) Roberto Ventura apresenta e sistematiza até certo ponto o pensamento dos suspeitos de sempre na questão racial: Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues e outros. Não é evidente que uma coleção de ensaios, que pretende registrar o estado da historiografia brasileira no começo do século 21, beneficie-se muito com afirmações do seguinte tipo (no caso, feitas por Alberto da Costa e Silva): "A mestiçagem foi e continua a ser o nosso processo de fazimento: é por meio dela que nos construímos, que vamos, a partir da matriz latina, ibérica e lusitana, formando com as diferenças dos povos uma nação".
Aliás, a curiosa recuperação de Gilberto Freyre, em curso nos últimos anos, mostra-se presente em vários dos ensaios de "Viagem Incompleta", embora, compreensivelmente, sem menção aos aspectos mais grotescos do seu pensamento (como, por exemplo, suas defesas da política salazarista na África) e sem muita consideração das implicações de suas apologias do paternalismo.
Os autores dos capítulos sobre a história do século 20 não são, em sua maioria, historiadores. Sempre me sinto, nessas situações, um pouco como o anti-semita que, antes de dizer alguma barbaridade, afirma que "alguns dos meus melhores amigos são judeus, mas...". No caso, alguns dos meus melhores amigos são sociólogos e cientistas políticos, mas a falta de preocupação com contextos históricos e a ausência de esforços para reler a dinâmica política do ponto de vista da sociedade reduzem bastante a utilidade de alguns dos capítulos sobre períodos mais recentes.

Da República a Vargas
Joseph Love traz uma quantidade impressionante de dados novos para interpretar o período entre 1889 e 1937, e aprofunda aspectos importantes da alta política desses anos. Entretanto, uma interpretação montada em termos de conflitos regionais, em que as classes aparecem pouco, encontra dificuldades consideráveis para dar conta das lutas intensas e das profundas mudanças sociais que tanto marcaram o período. Nos outros capítulos, o "estado varguista" e o "populismo", muitas vezes evocados, carecem de uma análise aprofundada.
Hélgio Trinidade apresenta um corpo considerável de estudos políticos para chegar a conclusões sombrias sobre as prováveis consequências da combinação entre uma lógica liberal e uma práxis autoritária. Amélia Cohn examina os obstáculos à consolidação de uma ordem democrática e argumenta que é necessário "transformar a questão social numa questão redistributiva de riqueza e poder".
É curioso, afinal, constatar o que não foi incluído nessa "Viagem Incompleta". A metade feminina da população brasileira, por exemplo, ficou fora. Até as menções às mulheres nos vários capítulos são esparsas, quando não inexistentes. Os imigrantes e os trabalhadores não se saíram muito melhor. O movimento operário aparece de vez em quando como um tipo de "deus ex machina" para explicar vicissitudes políticas difíceis de compreender de outra maneira. Afinal, a "Viagem" não precisava ser tão incompleta assim... Em compensação, os dois cadernos iconográficos são excelentes: originais, concernentes ao texto e muito bem apresentados.
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Michael Hall é professor no departamento de história da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Michael McDonald Hall professor de história na Unicamp.
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