

Trajetória de um pioneiro
AZIZ NACIB AB'SABER
Não é fácil escrever sobre mestre Florestan Fernandes. Na verdade, apenas os seus companheiros de jornada universitária têm força para nos revelar as potencialidades do intelectual e a genialidade de sua obra de cientista social. Mas somente alguns de seus colegas mais chegados e científica e intelectualmente mais preparados podem nos esclarecer sobre seu comportamento em sociologia crítica, entremeada por uma permanente atuação de cidadão e socialista esclarecido. É fácil identificar os cientistas e intelectuais que poderiam (re)traçar o perfil exato de um cultor polivalente das ciências humanas. Para falar de Florestan, ninguém melhor melhor do que Antonio Candido, José de Souza Martins e Otávio Ianni ou, se estivessem entre nós, Roger Bastide e Hebert Baldus. Mas ainda falta alguém para recuperar o trabalho desenvolvido por Florestan Fernandes no Congresso Nacional.
O livro de José de Souza Martins recupera, em altíssimo nível, a história de vida e a trajetória cultural do mestre. A fidelidade do discípulo ao pioneiro das ciências sociais acadêmicas no Brasil transparece em todas as páginas e capítulos da obra recentemente vinda a lume. Um trabalho de resto escrito em uma linguagem a fazer inveja a qualquer intelectual brasileiro. Basta lê-lo para comprovar a assertiva e saber que não se trata de um repente laudatório.
Ficou claro no trabalho de Martins que é difícil e quase impossível falar de Florestan isolado de seus companheiros e discípulos, empenhados na criação de uma consciência social moldada na amplitude de uma sociologia metódica e participativa.
Florestan, refletindo sobre si próprio, disse que sua biografia vista em conjunto era atípica. O mesmo se poderia dizer de Martins. Ambos, protagonistas da vivência e da geografia humana sofrida de um mundo social urbano industrial agressivo e controvertido: a antítese dos poderosos paulistas quatrocentões. Ficamos devendo aos esclarecidos entrevistadores -Luiz Carlos Jackson e Alfredo Bosi- dois conjuntos de explanações autobiográficas que também revelam uma difícil história de vida e um extraordinário roteiro intelectual, científico e literário.
Meu conhecimento sobre o colega e grande mestre obriga-me a acrescentar episódios de nosso relacionamento, entre 1941 e 1960, pelo menos. Fomos contemporâneos (1941-1944), na época em que a Faculdade de Filosofia funcionava precariamente no terceiro andar da Escola Caetano de Campos, na praça da República. Assistíamos, compenetrados, às magníficas lições de Emílio Wilhems, na área de antropologia cultural: Florestan, aluno de ciências sociais; eu, aluno de história e geografia. Éramos companheiros de banco e de sintonia cultural. Mas Florestan, com seus 22 anos, estava a léguas de distância intelectual em relação a todos nós. Emílio Wilhems era um discípulo à distância de Franz Boas e nos ministrava lições de altíssimo nível, em torno sobretudo de contatos raciais e culturais de grande interesse para as nossas meditações e impasses sobre os indígenas brasileiros.
Nessa época, Florestan morava em um quarto de pensão numa casa da rua Belém, onde era muito bem tratado pelos proprietários e recebia eventuais visitas de parentes e colegas. Ali ficava também a sua biblioteca: um "embrião" seletivo de livraria, que iria crescer muito, daí por diante. Eu morava na rua Padre Adelino, na Quarta Parada/Tatuapé.
Saíamos da praça da República até a praça da Sé já conversando e trocando idéias. E, dali, em frente ao prédio da Caixa Econômica, partíamos para a curta zona leste, nos saudosos bondes elétricos da cidade de São Paulo. Era um privilégio para mim: eu falava pouco, ele ensinava muito. Gostava de contar episódios da vida cultural da "Paulicéia Desvairada" de Mário de Andrade. Descrevia os fatos que marcaram a Semana de Arte Moderna de 22. Destacava, porém, a obra e a figura de Monteiro Lobato, enfatizando a importância criativa de sua literatura infantil e de suas posturas modernizantes, bem ou malsucedidas. Falava da carta de Lobato a Getúlio. Abominava o Estado Novo. Odiava a vida social da burguesia pseudo-intelectualizada. Descrevia os seus projetos de pesquisa: as "Trocinhas" do Bom Retiro; sua preferência inicial pelo estudo da vida e trajetória de indivíduos atípicos. Suas preferências por estudos folclóricos: entre o pólo cultural do "folk" e o pólo dito da "civilização", dos antropólogos norte-americanos. Pensando que eu era um árabe total, devido ao nome que herdei de meus pais, ele me pedia para colaborar com um artigo, sobre a contribuição dos árabes à sociedade brasileira. Fiz o que pude, mas era muito pouco. Nós admirávamos a figura intelectual de Paulo Emilio Salles Gomes e, mais tarde, tivemos o privilégio de sermos amigos de Paulo Duarte. Quando fui para Porto Alegre, quase desterrado, o único colega que foi ao aeroporto para se despedir foi o Florestan, que logo depois se tornaria o chefe maior da Campanha pela Escola Pública.
A trajetória de vida de Florestan é razoavelmente bem conhecida. Em parte, porque ele nunca escondeu as agruras e necessidades que sua mãe e ele passaram ao longo dos anos 20 e 30, nessa complicada cidade de São Paulo.
Para completar sua educação fundamental, já em fase de segunda adolescência, enfrenta um curso de madureza e sai renovado para novos degraus de estudos. Juntando os fragmentos da crônica de vida de Florestan -menino e adolescente-, pode-se listar, mediante o livro de Martins e outras fontes, que ele foi engraxate, menino de serviços, balconista, cozinheiro e garçom. Entretanto, o momento decisivo da transição para o mundo da cultura aconteceu quando o educado garçom pôde tomar conhecimento das inovações acadêmicas que se processavam na capital do poderoso império do café. "Instigado por alguns intelectuais que frequentavam o Bar Bidu, na rua Líbero Badaró, em que era garçom, que o viam sempre lendo, decidiu fazer o curso de madureza (o nosso supletivo de hoje), quando tinha 17 anos".
A OBRA Florestan - Sociologia e Consciência Social no Brasil José de Souza Martins Edusp/Fapesp (Tel. 011/818-4149) 238 págs., R$ 20,00 |
Amadurecido pelo seu espírito reflexivo, completou sua formação secundária na Escola Riachuelo, enfrentando as provas finais na cidade de São João da Boa Vista, uma pérola urbana do interior paulista. Logo, sem titubear, inscreveu-se no vestibular da USP, na área de ciências sociais, ingressando em 1941, com mais cinco colegas, na tão sonhada universidade, cujo embrião tinha sido implantado no terceiro andar da Escola Caetano de Campos, na praça da República. Ali, com uma rapidez inusitada, acompanhou cursos e foi reconhecido na sua excepcionalidade pelos mestres da missão francesa e professores brasileiros mais bem dotados.
Na realidade, processou-se na época uma quase coexistência entre professores intelectualizados (Bastide, Gagê, Mauguê, Monbeig, "Bastidão", entre os franceses) e os talentosos mestres brasileiros da jovem Faculdade de Filosofia (Fernando Azevedo, Plínio Ayrosa, Emílio Wilhems, Antonio Candido, Lourival Gomes Machado, Egon Schaden, Eduardo de Oliveira França, Alice Piffer Canabrava, Odilon Nogueira de Matos, o grande Azis Simão, a encantadora educadora Noemy Silveira Radolfer e o infelizmente ausente Caio Prado Júnior). Mas, fora dos muros restritos da faculdade, davam respaldo cultural aos jovens talentos emergentes, os grandes intelectuais remanescentes de 22: Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Rubens Borba de Moraes, entre outros. Oswald de Andrade, briguento, polêmico e "antropofágico", reconheceu a importância da faculdade ao disputar a cátedra de literatura brasileira com Antonio Candido, Jamil Almansur Haddad, Mário de Souza Lima, Manoel Cerqueira Leite. Tal como o irrequieto jornalista e escritor Paulo Duarte, que mais tarde contribuiu para a criação do Instituto de Pré-História. Florestan, que possuía uma vocação eclética, conviveu com todo esse povo e essa plêiade de intelectuais da desvairada Paulicéia.
O que distinguiu Florestan em relação aos seus contemporâneos pré-sociólogos foi a facilidade com que ele transitava da pesquisa básica para uma práxis voltada sempre para o universo social do Brasil. Martins, após se referir a alguns estudos nitidamente de sociologia política, realizados pelo seu mestre ("Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento"; "A Revolução Burguesa no Brasil"; "A Integração do Negro na Sociedade de Classes"; e um curso paralelo brilhante sobre a "Formação e Desenvolvimento da Sociedade Brasileira"), escreve: "Deu-me a impressão, como em vários de seus escritos e depoimentos mais recentes, de que queria justificar-se pelo fato de que, em alguns livros mais significativos de sua carreira, a sua condição de militante possa não ficar transparente. Nem era necessário que ficasse, penso eu. Porque transparente foi desde o começo o seu inegável compromisso com o que se poderá chamar de sociologia crítica, que era também um compromisso radical com as lutas pela transformação da sociedade brasileira numa sociedade democrática, justa e desenvolvida".
A convergência de influências que incidiram sobre Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro, em função de estímulos recebidos de mestres da Faculdade de Filosofia, merece um comentário especial. Darcy seguiu as pegadas de Lévi-Strauss, Herbert Baldus; Florestan, influenciado por Baldus e Ayrosa, enveredou-se pela recuperação e interpretação dos escritos dos viajantes ocasionais e, sobretudo, dos relatos dos jesuítas e cronistas dos primeiros tempos da colonização (século 16). O primeiro fez militância no delicado campo do indigenismo. O segundo, grande leitor e hábil rastreador de fatos contidos nas entrelinhas dos relatos clássicos, aprofundou-se na culturologia e (pré) história terminal dos povos tupi-guaranis. Darcy, quase ao fim de sua longa, ativa e atribulada existência, sempre matreiro, atirou farpas em Florestan, dizendo que, enquanto ele (Darcy) trabalhava no campo, o colega (Florestan) exercia pesquisas de gabinete. Podem-se interpretar tais duelos inconsequentes como irônicos e jocosos confrontos entre grandes.
Tudo isso para comentar o mais denso e famoso estudo de Florestan Fernandes, "A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá", que precedeu suas meditações sobre o "método de interpretação funcionalista em sociologia", conforme bem anotou José de Souza Martins. A abordagem sobre a função da belicosidade tem um valor permanente, porque nos possibilita entender o processo-motor daquilo que temos reconhecido simbolicamente como a "diáspora" dos grupos tupi-guaranis.
O extraordinário caminhamento das tribos tupis pelo vasto território brasileiro é, talvez, o mais vigoroso produtor de topônimos vinculados a uma só e mesma língua, primária e autóctone, de toda a pré-história continental.
O que encanta na obra de Florestan, Antonio Candido e José de Souza Martins é a sua durabilidade. Passam os tempos e elas são dignas de releitura. Trata-se de uma de nossas melhores tradições literárias que remonta aos ensaios de Nelson Werneck Sodré, Mário de Andrade, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Duarte e Alfredo Bosi. Não se trata apenas de trabalhos insuperáveis, mas de trabalhos que conservam alguma coisa de naturalidade e permanência. Característica rara que marcou as contribuições de Marcel Maus, Jean-Paul Sartre, Lévi-Strauss e Roger Bastide.
O estudo sobre o papel da guerra entre os tupinambás, além de tais características, abriu janela para novas constatações e interpretações. No caso, a "guerra" ocorreu sempre por uma espécie de necessidade vital de conquista de novos espaços ecológicos, reconhecidos como mais bem dotados em recursos naturais, relacionados à caça, à coleta, à pesca e à presença de água potável. Essa complementação introduzida recentemente por antropólogos norte-americanos, em vez de diminuir a força dos estudos pioneiros de Florestan, constituem a prova de que o mestre estava no caminho certo, tendo descoberto um filão temático de grande fertilidade cultural. Pensar que a ideologia social de Florestan Fernandes pudesse estar associada ao primarismo e ao radicalismo das ignóbeis ações stalinistas era um atestado de suprema ignorância e falta de leitura e cultura dos beleguins da ditadura militar.
As aberrações inquisitoriais ocorridas durante o inquérito policial-militar na USP têm que ser registradas historicamente, para que a juventude do fim do século e do milênio possa conhecer o que foi a resistência intelectual aos déspotas ocasionais de uma época. Pensar era proibido. E a universidade trabalhava e pensava. Escrever e registrar meditações era crime cívico. Propugnar por reforma agrária e estratégias para implantá-la era um delito inafiançável.
Por uma questão de responsabilidade intelectual e cidadã somos obrigados a comentar uma agressão pérfida sofrida pelo grande humanista e cidadão que existia em Florestan Fernandes. Martins descreve em seu novo livro o roteiro da perversidade que a ditadura realizou, entre 1964 e 1969, contra os intelectuais mais progressistas e destacados da Faculdade de Filosofia da USP. Porque protestara em 64 contra o inquérito policial-militar instaurado na faculdade, sob a alegação de atividades "subversivas", Florestan foi preso e humilhado. Foi instado por um tenente-coronel a descrever nossa bandeira e desafiado a cantar o hino nacional perante os idiotas que o inquiriam. Para os amigos mais chegados ele narrou o acontecimento, as respostas que deu e as ponderações que fez. Se não fosse trágico, o episódio poderia ser tratado como hilariante. Mas é indispensável guardar a memória de tais acontecimentos, porque eles se repetiram por muitas vezes no Brasil (1964-1969), com numerosos professores, escritores e jornalistas, sob o olhar complacente e traiçoeiro de civis conservadores, prenhes de inveja e ódio político.
Foi sob esse clima que houve o advento do AI-5, para dar uma aparência de legalidade, multiplicando cassações e afastamento de cidadãos probos e inteligentes, eliminando por anos a fio o retorno de uma verdadeira e honrosa democracia. E, assim, ao longo de 20 anos de contradições, ameaças permanentes, agressões e torturas, o país socialmente mais justo imaginado por Florestan mergulhou na noite do discricionarismo, acolitado pela alienação e indiferença dos conservadores.
Uma anistia planejada para anistiar, por igual, homens da esquerda e criminosos da direita torturadora não foi aceita por Florestan e seus companheiros de idéias. Uma atitude que muito honra a universidade e a dignidade da inteligência brasileira.
Salienta-se na vida de Florestan sua notável luta em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade. Foi uma campanha nacional, iniciada em fins dos anos 50 e que se prolongou por anos seguidos. Nessa luta, baseada em argumentos irretorquíveis, Florestan galvanizou multidões de estudantes universitários e secundaristas, atraindo porém a ira dos que transformaram o ensino em uma "mercadoria" do capitalismo selvagem. Marcello Rolemberg ("Jornal da USP", nº 323, 1995), por ocasião do falecimento do mestre, escreveu que Martins lhe revelara que "certa ocasião, quando Florestan foi até Mogi das Cruzes defender o ensino público e gratuito, uma de suas maiores bandeiras, durante sua palestra em uma escola os padres da região fizeram uma procissão em volta da escola que durou todo o tempo do encontro. Naquela época, a Igreja brasileira defendia com fervor canônico o ensino pago e particular".
Até parece o que aconteceu com Sartre, quando a convite de um seu ex-aluno, foi fazer uma palestra em Araraquara, tendo recebido todos os desacatos inimagináveis de um cônego enfurecido. Contrariando todas as tradições de generosidade do povo brasileiro, o raivoso descendente dos inquisidores reuniu uma massa de paroquianos simplórios numa igreja da cidade para exorcizar os visitantes (Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir), tidos como mensageiros do diabo. Felizmente, para corrigir tais distorções mentais e culturais, tivemos católicos esclarecidos que trabalharam por uma igreja mais revisiva e progressista, como os irmãos Boff e Frei Beto. Convém lembrar, também, a maneira desastrosa com a qual um grupelho de jovens radicais apuparam Darcy Ribeiro -em fase terminal de saúde- numa reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, realizada na histórica cidade de São Luiz do Maranhão (1996). Para não deixar de lembrar o feroz tratamento recebido, no Dops de São Paulo, pelo sempre admirado professor Eduardo de Oliveira França, nos idos tempos da ditadura. O professor, que era então diretor da Faculdade de Filosofia, foi forçado a deixar o cargo por pressão de Erasmo Dias, depois transformado em deputado estadual, em pleno regime democrático, flexível e desmemoriado. Também, para não relembrar os trágicos afastamentos de professores universitários de Rio Preto, por iniciativa de um desembargador idiotizado que assumiu toda a ditadura em si próprio, inclusive se autonomeando diretor do Instituto de Biociências e Ciências Exatas da Unesp, naquela bela cidade.
Estamos chegando ao fim do século. Vai terminando o milênio e o tempo é oportuno para se (re) pensar a história intelectual do Brasil. Pelo menos desde Euclides da Cunha e Capistrano de Abreu até Antonio Candido e Florestan Fernandes. Seria interessante e talvez indispensável que os organizadores da Conferência Universal de Hannover fizessem uma sala de leitura aconchegante que incluísse o melhor da produção intelectual brasileira, desde "Os Sertões" a "Casa Grande e Senzala" e os "Parceiros do Rio Bonito", reaviventando a obra e a memória de nossos poetas, romancistas e ensaístas. E que nessa iniciativa a produção sociológica de Florestan Fernandes tenha o seu devido e merecido lugar.
Aziz Nacib Ab'Saber é professor de geografia da USP e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados-USP.