


Em réplica à minha resenha "O Cartão de Visita Fotográfico" (Jornal de Resenhas, 13/1/01), Cândido Grangeiro solicita a este resenhista que "da próxima vez elabore uma crítica mais apurada" sobre seu trabalho e que seja "um pouco mais humilde". Afirma que "a história da fotografia no Brasil tem um pretenso dono: Boris Kossoy" e, ainda, que "só é possível entender o teor da resenha de Kossoy conhecendo as diferenças que separam o meu (dele) trabalho do seu".
Quanto à última colocação estou de pleno acordo; quanto às demais, puro delírio. É lamentável que Grangeiro, no espaço de sua réplica, não tenha esclarecido os múltiplos erros de seu livro, que é a essência da mencionada resenha. Isso é o mínimo que se espera de quem pretende contribuir para a disseminação do conhecimento científico. Em vez disso, elaborou tortuoso estratagema: tratou de inverter os papéis, utilizando-se do espaço para construir um enfadonho discurso que visa a explicar a obra do resenhista (que, deixando a modéstia de lado, já mereceu melhores intérpretes); digo isso com toda a humildade e sem pretender ser o dono do tema ou "do negócio".
Cômico seria se não fosse trágico, espelho do que ocorre pontualmente no mundo acadêmico. A nova empreitada a que se dispôs Grangeiro é, no mínimo, cínica, "conhecendo as diferenças que separam" os nossos trabalhos, como ele diz. Afora os comentários iniciais, as afirmações que faz sobre minhas interpretações dos fatos, em particular ao funcionamento das oficinas fotográficas, ao papel social do retrato, à sua produção "como resultado de uma linha de montagem" (sic), a "periodização da história da fotografia estabelecida em conformidade com o desenvolvimento da técnica" etc., denotam que o mesmo nada conhece (ou nada compreendeu) de minhas investigações.
Mas afinal não é a obra do resenhista que está em debate. É o livro de Grangeiro, que não se sustenta, se não for objeto das necessárias correções apontadas na resenha, e que não se trata de "concepções históricas distintas que se confrontam", como quer o autor, senão de uma sucessão de erros factuais. Diante de tais equívocos não são de surpreender os problemas de ordem teórica e metodológica que povoam seu trabalho. A questão, pois, não está centrada no fato de sermos mais ou menos "humildes", e sim de nos guiarmos pelo necessário rigor científico. Essa é a postura que conta.
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Boris Kossoy é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor, entre outros, de "Realidades e Ficções na Trama Fotográfica" (Ateliê Editorial).