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Eduardo Escorel - 26 - Maio de 1997
TRÉPLICA 1 - Oportunidade perdida
Tréplica à réplica
Foto do(a) autor(a) Eduardo Escorel

Na resenha sobre "Joaquim Pedro de Andrade, a Revolução Intimista" (Jornal de Resenhas, 14/03/97) indiquei apenas alguns dos inúmeros erros factuais que pontuam o texto de Ivana Bentes. Poderia ter mencionado outros: nem Rodrigo Mello Franco de Andrade nem David Neves "trouxeram para o Brasil o cineasta sueco Arne Sücksdorf"; o som que recria "a ambientação do estádio, das partidas, do vestiário" em "Garrincha, Alegria do Povo", não foi gravado por Luiz Carlos Saldanha; as figurantes de "O Padre e a Moça" eram apenas moradoras pobres e doentes do distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras e não "prostitutas"; Joaquim Pedro foi produtor ou co-produtor da maioria dos seus filmes, desde "Couro de Gato", em 1961, e não apenas a partir de "Gordos e Magros", feito em 1976; não é verdade que "O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador" não foi considerado digno de um financiamento pela Embrafilme. Será preciso continuar?

Diante das evidências que apontei, o melhor a fazer teria sido providenciar uma nova edição revista e corrigida. Em vez disso, Ivana Bentes saiu espalhando brasa (Jornal de Resenhas, 11/04/97) na tentativa de desviar a atenção do que está em causa: o seu livro e nada mais.
A própria Ivana Bentes admite que se baseou em poucas fontes secundárias. Pelo visto, não se preocupou em conferir as informações que colheu.
Além dos enganos factuais, há também imprecisões de redação que induzem o leitor desavisado a erro. É o que ocorre, por exemplo, quando a autora relaciona o ano de 1961 ao "neo-realismo de Rosselini (sic) Bertolucci...". Ora, o neo-realismo de Rossellini (com dois "eles") surgiu em 1945, com "Roma, Cidade Aberta" e deixara de existir desde 1953, com "Viagem à Itália"; Bertolucci, por sua vez, só se tornou uma referência a partir de 1964, com "Antes da Revolução". "Che imbroglio!"
Não insistirei no descuido na grafia dos nomes próprios e nos erros de revisão. Registro apenas que a autora chega a confundir "câmera reflex", característica técnica de uma câmera, com Cameflex, uma marca francesa de câmera.
Ainda mais importante que tudo isso, porém, é o propósito, a meu ver sem fundamento, de situar "Macunaíma" como "uma mudança radical na obra do cineasta", e "O Homem do Pau Brasil" como "uma obra-síntese na carreira de Joaquim Pedro". Além de discordar pelas razões expostas em minha resenha, não encontro, no livro de Ivana Bentes, argumentos que justifiquem tais afirmações.
Desse modo, o que sobra é pouco. O perfil biográfico é falho e não há, propriamente, análise de filmes, mas apenas algumas descrições.
Resta lamentar o desperdício dessa oportunidade criada pela coleção "Perfis do Rio", enquanto continua inédita uma monografia da qualidade de "Guerra Conjugal - Uma Batalha de Joaquim Pedro de Andrade", escrita por Sergio Botelho.
Dito o quê, espero que Ivana Bentes "não guarde seu ódio na geladeira" e se sinta à vontade para me telefonar, como fez há pouco, num domingo à tarde, para pedir socorro de última hora no esclarecimento de dúvidas, antes de mandar os originais de um novo livro para o seu editor. 

Eduardo Escorel é cineasta.
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