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Miriam Dolhnikoff - 60 - Março de 2000
TRÉPLICA 1 - Velha história
Resposta à réplica
Foto da capa do livro Diogo Antonio Feijó
Diogo Antonio Feijó
Autor: Jorge Caldeira (Org.)
Editora: Editora 34 - 360 páginas
Foto do(a) autor(a) Miriam Dolhnikoff

Minha resenha sobre o livro "Diogo Antônio Feijó" suscitou irada resposta do organizador do volume, Jorge Caldeira. Mas, lamentavelmente, este se esquivou de sustentar suas idéias e responder às críticas que fiz -não à sua pessoa, como afirma, mas à sua interpretação equivocada do papel político do padre Feijó.

Questionei a imagem construída por Caldeira, na qual Feijó -proprietário de terras e escravos- é apresentado como um "brasileiro comum", cuja eleição para regente atestaria os anseios por democracia e justiça social de todos os "brasileiros comuns". Perguntei sobre o sentido dessa expressão, dada sua total carência de valor conceitual. Afirmei ser absurda a procura por um anacrônico sentimento democrático no Brasil escravista do início do século 19.
Insisti ainda na impossibilidade de se considerar o resultado das eleições de 1835 uma manifestação da vontade da maioria da população, uma vez que o voto era censitário e as eleições notoriamente manipuladas por proprietários e políticos. Ressaltei que os próprios textos de Feijó desmentem a imagem de um heróico paladino em defesa da justiça social. Reproduzi alguns em que o padre explicita sua repulsa à democracia e seu compromisso com a escravidão. Por fim, observei que os documentos são tomados de maneira acrítica, considerando-se como verdade declarações retóricas feitas no calor do embate político.
Caldeira preferiu, contudo, esconder-se atrás de questões secundárias. Evoca os nomes dos membros do conselho editorial da coleção, vangloria-se de sua ida a vários arquivos, reclama que em meu texto faltam dados e informações sobre a obra -confundindo resenha com "press release". Além disso, baseado em Joaquim Nabuco, protesta que, ao contrário do que eu dissera, o segundo colocado nas eleições para regente em 1835, Holanda Cavalcanti, era um liberal de posições semelhantes a Feijó e, portanto, que as candidaturas de ambos não eram antagônicas. Esta seria a prova da minha "ignorância". Ora, muito já se fez na historiografia desde que Nabuco escreveu seu livro, há mais de cem anos. Caldeira ignora que, como deputado, Cavalcanti votou contra as reformas federalistas defendidas pelos liberais, aprovadas na Câmara entre 1832 e 1834, e que sua candidatura a regente foi articulada pelo célebre líder conservador Honório Hermeto Carneiro Leão, com o objetivo expresso de derrotar Feijó.
Caldeira alega também não ser verdadeira minha afirmação de que atas incluídas no livro não podem ser atribuídas a Feijó, pois este as assina apenas na qualidade de secretário do Conselho Geral da Província de São Paulo. Seu argumento é que as atas referem-se a projetos apresentados por Feijó. Isto é verdade para apenas duas delas. As demais relatam decisões do conselho, sem qualquer indicação de terem se originado em projetos do padre.
Realizar uma edição crítica de determinado autor não é tarefa fácil. Não basta coletar documentos dispersos. A pesquisa em arquivos, aliás, constitui o trabalho cotidiano do historiador que, por isso mesmo, não costuma fazer alarde a respeito. Mas esta é apenas uma etapa. É preciso conhecer o autor e o contexto histórico em que os documentos foram gerados para definir critérios de seleção, separando o joio do trigo. É necessário empreender pesquisa minuciosa e trabalhosa sobre o conteúdo desses documentos, de modo a oferecer ao leitor notas explicativas que enriqueçam sua compreensão, bem além das econômicas notas dessa edição. Os documentos, entretanto, não falam por si. Sua inteligibilidade depende de uma interpretação consistente e convincente que dê sentido à pesquisa documental.
O anacronismo e a inexatidão da abordagem de Caldeira servem ao propósito de provar que sempre existiu uma facção da elite brasileira empreendedora e democrática, representativa dos anseios populares, que tem sido sufocada pelo restante dessa mesma elite. Um bom exemplo de uma velha história, há muito superada, na qual os heróis do passado redimem a covardia do presente.


Miriam Dolhnikoff é doutoranda em história na USP, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e organizadora do livro "José Bonifácio de Andrada e Silva - Projetos para o Brasil" (Cia. das Letras).

Miriam Dolhnikoff é professora de história da USP.
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