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Cândido Domingues Granjeiro - 73 - Abril de 2001
TRÉPLICA 2 - Ver e ser visto
Resposta à tréplica 'Erros factuais", de Boris Kossoy (14/04/2001)
Foto da capa do livro As artes de um negócio
As artes de um negócio
Autor: Candido Domingues Grangeiro
Editora: Mercado de Letras - 152 páginas
Foto do(a) autor(a) Cândido Domingues Granjeiro

Para obter um retrato fotográfico no século 19 era necessário um longo ritual nas oficinas fotográficas, as casas comerciais especialmente montadas para esse fim. Nelas, os clientes podiam encontrar os mais variados objetos -roupas, sapatos e cartolas- e cenários para viabilizar a construção da imagem que melhor os representasse diante de amigos, parentes e conhecidos.

Adquirido em dúzias, o retrato fotográfico era mais do que um objeto para ser guardado ou exposto nas paredes: servia para transmitir afeto, carinho, facilitar abordagens amorosas. Por isso, era planejado para atender ao gosto e ego do cliente, evidenciando valores sociais e culturais expressos em sua auto-imagem.
Militão Augusto de Azevedo, um dos principais fotógrafos do século 19 em São Paulo, conhecia os meandros de sua profissão e sabia da importância de ver e ser visto. Meticuloso, anotava comentários nos retratos produzidos, como pequenas reflexões sobre seu trabalho e o gosto do cliente. Em um deles, recusado pelo retratado, escreveu desolado: "nota-se que não gostou". Veterano ator de teatro, sabia que o segredo do sucesso, na arte ou no negócio, dependia da aceitação do público.
Hoje, podemos construir várias interpretações sobre esses retratos. O ponto de vista adotado em meu livro é apenas uma delas e procura recuperar os sujeitos envolvidos na produção, consumo e circulação das imagens fotográficas. Lógico, todo olhar/interpretar está relacionado a quadros de referência mais amplos. Boris Kossoy, em 1978, e eu, mais recentemente, utilizamos em nossos mestrados o mesmo acervo fotográfico, produzido por Militão. Boris Kossoy privilegiou a análise das imagens da cidade de São Paulo e, dentre suas preocupações, se destacam a utilização da técnica fotográfica e a reflexão sobre o espaço urbano. Ao contrário, preferi buscar significados nas cenas produzidas em estúdio, mais de 11 mil imagens que retratam cerca de um terço da população paulistana do período.
Tais escolhas resultam de preocupações distintas, olhares opostos. Excelente: diferenças assim costumam estimular a reflexão. Historiadores sabem que os resultados de suas pesquisas são invariavelmente datados e, portanto, provisórios. Ser questionado é parte da profissão e não costuma provocar mal-estar ou ofensa. A desqualificação, entretanto, não está incluída no arsenal legítimo de combate entre diferenças intelectuais. Nada acrescenta aos leitores, e não sai bem na foto.


Cândido Grangeiro é autor de "As Artes de um Negócio: A Febre Fotográfica em São Paulo, 1862-1886" (Mercado das Letras).

Cândido Domingues Granjeiro artista plástico.
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