

Três olhares sobre FHC
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
A circunstância excepcional de que o Presidente da República seja um sociólogo -e sociólogo de competência reconhecida internacionalmente- tem produzido no país uma curiosa anomalia. De um lado, são muitos os intelectuais, sobretudo na universidade e na universidade de que ele é um dos mais brilhantes cientistas, que preferem criticar, no sociólogo, o político. De outro, os políticos e militantes dos movimentos de base que lhe fazem oposição preferem discutir nele não o político, mas o cientista. É da boca destes últimos que com mais frequência se ouve a suposta afirmação de Fernando Henrique Cardoso de que deveriam esquecer sua obra de sociólogo, não raro invocada por pessoas que nunca leram dele nem mesmo um artigo científico e, muitas vezes, nem sequer um artigo de jornal. O presidente, aliás, esclarece neste livro que jamais fez tal afirmação, segundo ele produzida na redação da Folha (págs.172-173) a partir de um comentário sobre o desencontro que pode haver entre o exercício de uma função pública e a interpretação sociológica em relação a fatos nela implicados.
São raríssimos os casos de cientistas sociais que chegaram ao poder em diferentes países: Eric Williams, historiador, em Trinidad-Tobago, onde foi primeiro-ministro; e Jomo Kenyata, antropólogo formado pela London School of Economics, que governou o Quênia. E FHC no Brasil.
Por isso, é mais do que benvinda esta longa e densa entrevista de Roberto Pompeu de Toledo com o presidente, que combina vários notáveis atributos. Em primeiro lugar, preserva no texto a qualidade de entrevista, o tom esclarecedor e paciente do entrevistado, o rigor do jornalista questionador, tudo aquilo que, enfim, pede um leitor crítico e inteligente. Mas é, também, um documento sobre a conjuntura histórica, interna e externa, as condições do fazer política neste fim de milênio, nesta época de globalização e de grandes e profundas transformações na sociedade, no Estado, nas mentalidades, na economia. Ao perguntador capaz antepõe-se o entrevistado inteligente e lúcido. Essa lucidez nos leva ao que para mim, sociólogo, é o aspecto mais importante do livro: a raridade de um cientista que vê ao mesmo tempo seu lugar e seu desempenho enquanto presidente como objeto de conhecimento; que consegue ver-se na dupla e bifronte condição de presidente e sociólogo.
Aqui, o presidente não só fala do sociólogo, mas sobretudo faz o sociólogo falar do presidente. Os quase ilimitados horizontes da ciência abrem uma ampla visão objetiva das historicamente limitadas condições do exercício do poder. Sem dúvida esse é o melhor resultado da habilidade do entrevistador, que percebeu com rica sensibilidade a dupla personificação histórica do homem que entrevista. Esse é um aspecto importante do conhecimento sociológico que vem da tradição clássica: todos, de diferentes modos, personificam circunstâncias e possibilidades históricas. Na sociologia, ao contrário da ideologia e seus equívocos e limitações, não há lugar para voluntarismos. Uma das funções do sociólogo -seja ele marxista, weberiano ou durkheimiano, ou um eclético- é, justamente, compreender como pessoas, grupos, categorias e classes sociais se desempenham diante do que a sociedade lhes propõe em determinado momento histórico. O desencontro entre o homem de carne e osso, o chamado homem comum, e as circunstâncias sociais de sua ação, é justamente o tema privilegiado da sociologia.
A OBRA O Presidente Segundo o Sociólogo Entrevista de FHC a Roberto Pompeu de Toledo Companhia das Letras (Tel. 011/866-0801) 368 págs., R$ 26,00 |
Foi, justamente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso quem mais trabalhou em nossa sociologia um campo fundamental de pesquisa e interpretação: estendeu o estudo da falsa consciência, da dificuldade de uma consciência adequada diante das possibilidades históricas de um grupo num momento determinado, a outros grupos e categorias sociais que não apenas a classe operária. Se a consciência do operário é falsa, se o operário é alienado, o que dizer da burguesia e do empresariado? (E dos intelectuais, dos políticos?) A preocupação com as possibilidades históricas da sociedade brasileira e com o tipo e grau de consciência dessas possibilidades históricas foi marca da "escola sociológica de São Paulo", que tem em Florestan Fernandes e Antonio Candido figuras luminares e fundadoras. Mas, que tem também figuras criadoras como o próprio Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Marialice Mencarini Foracchi e Maria Sylvia de Carvalho Franco, dentre outros.
Agora o sociólogo que se tornou presidente da República se vê diante das graves limitações à ação transformadora representada pelo Estado de tradição e estrutura oligárquica e populista. Mais do que ninguém, é ele que tem as melhores condições para conhecer e revelar esse Estado deformado, distante da modernidade, as dificuldades enormes para transformá-lo e colocá-lo de fato a serviço da sociedade e do povo.
É isso que em grande parte ele faz neste livro, com paciência, pondo sua alteridade circunstancial e excepcional a serviço da compreensão das dificuldades históricas e estruturais para atualizar o Estado. Mas, ao mesmo tempo, mais do que ninguém, ele tem condições, e as usa, de definir o roteiro dessa verdadeira proposta de engenharia política que é o desmonte do Estado oligárquico e populista, seus protecionismos anti-sociais gestados em nome do interesse de todos, mas de fato em benefício de alguns, os mais ricos e os mais poderosos. Enfim, o Estado de compromisso criado pela Revolução de 1930, revigorado pelo golpe de 1964 e sacramentado pela aliança política de 1985/86.
É aí que o cientista social descobre as finas debilidades do sistema e se propõe a utilizá-las para concretizar, no limite das possibilidades históricas, as grandes mudanças de que a sociedade necessita e que não teve condições de levar a efeito porque não teve condições de fazer a revolução prometida e esperada.
Não há poucas surpresas neste livro. Em especial, o leitor crítico certamente ficará instigado com a proposta de uma "teoria dos curto-circuitos" para explicar nas sociedades informacionais, como a nossa, as mudanças históricas, não mais como consequência direta da luta de classes.
José de Souza Martins é professor de sociologia na USP, "fellow" de Trinity Hall e professor titular da Cátedra Simón Bolivar da Universidade de Cambridge, Inglaterra (1993/94). Dentre outros livros,autor de "Fronteira - A Degradação do Outro nos Confins do Humano" (Hucitec).