

Triunfos e fracassos
VALENTIM FACIOLI
A Aventura Surrealista
Sérgio Lima Unicamp/ Unesp/ Vozes, 527 págs.
R$ 72,00
Vanguardas Latino-Americanas: Polêmicas, Manifestos e Textos Críticos
Jorge Schwartz Edusp/Iluminuras, 639 págs.
R$ 49,00
O discurso vanguardista militante tende, hoje em dia, a aparecer bichado de véspera e carcomido sobre a mesa dos debates, como fruto apodrecido de uma renúncia hipócrita. As linguagens, obras e atitudes das vanguardas são oferecidas em embalagens luxuosas, travestidas de história, de grande investimento e de geral conformismo para as boas e más consciências. Consumo conspícuo, turismo aprendiz, cultura de bolso, espanto basbaque com os gênios e variadíssima sorte de anúncios assinam agora o atestado de prestígio sobrevivente de obras que já foram de vanguarda e amargam um eterno exibicionismo novidadeiro.
A resposta ambivalente das vanguardas ao fenômeno da mercantilização geral (e degradada) do mundo, nos termos de Eduardo Sanguineti, foi marcada por dois momentos constitutivos, o cínico e o heróico-patético, quer dizer, ela foi a de um "astuto artifício concorrencial" para vencer no mercado como valor novo e, portanto, mais alto, e ao mesmo tempo "a desdenhosa repulsa da própria mercantilização". Essa resposta ambivalente continua a se oferecer nos museus, nas academias, nas universidades, nas teses, nos olhos, mãos e computadores dos intelectuais-artistas de hoje e também nas lojas de leilões, nas garras dos colecionadores ricos -milionários-, como o tributo de seu triunfo, que muitos querem apenas domesticado, embora não sem nostalgias, angústias, resgates, mal-entendidos. No interior dessa enorme diferença de interesses, posturas e intenções as obras das vanguardas continuam a cumprir, apesar de tudo, funções e disfunções enquanto arte e mercadoria, fatalidade de sua natureza de centauro incurado e incurável.
Isso parece significar que a autonomia da arte na sociedade burguesa, nos últimos 50 anos, ganhou proporções jamais vistas ou imaginadas, descarrilhando as obras de arte decisivamente da práxis vital, aprofundando a diferenciação social da esfera artística como saber especial, reservando-lhe a condição de subsistema autoconsciente e auto-reflexivo, capaz de questionar a si mesmo e a outros subsistemas ideológicos e simbólicos, mas impotente para alcançar eficácia sobre os lugares de verdadeira decisão social: a economia e a política.
Ademais, a rápida implementação de novas tecnologias e a revolução permanente que o capitalismo opera sobre si mesmo -sem, aliás, alterar sua essência- como que incorporam algumas das lutas e reivindicações das próprias artes de vanguarda, como o desmantelamento da categoria de obra de arte, a criação contínua da novidade como sucedâneo do novo, o acaso criado, provocado e mediado pela previsão dos materiais e das técnicas, enquanto programa, como contrafação da verdadeira descoberta do acaso artístico. A multiplicação de técnicas e procedimentos desloca irremediavelmente a arte moderna para a condição de obsolescência, ainda que se reconheça, aqui e ali, o papel que ela desempenhou para a própria renovação das técnicas, dos procedimentos e dos materiais.
Para os mais confiantes e crédulos resta sem dúvida o patrimônio cultural, a contribuição propriamente estética, enquanto expressão, conhecimento e prazer, a dialética da negatividade, que de algum modo a grande obra de arte carrega, as contradições que ela encena de seu modo próprio para revelá-las aos homens e guardá-las como memória de sua experiência de produção e origem, de si e da sociedade, da paixão de seu autor e do contributo ético que também possa oferecer. Pensando nisso, vê-se que não é pouca coisa, pois que o fracasso das vanguardas só é visível assim hoje porque somos o futuro delas (provavelmente, de novo, sua retaguarda) e queiramos ou não, participamos de suas experiências e é nosso dever tirar consequências desse fracasso. "A lei da reflexão crescente é implacável. Quem tenta esquivar-se dela termina no cesto de liquidação da indústria da consciência", diz Enzensberger.
Como, entretanto, o caminho da arte moderna não é de fato reversível, não compete agora nostalgia, nem meio-termo administrativo, mas distinguir para compreender e compreender para tirar algumas consequências. Nesse caso, parece-me que se houve um movimento que implementou uma aventura radical na modernidade, esse foi o surrealismo. André Breton, "um dos homens realmente importantes de nosso tempo", no dizer de Mário Pedrosa, ou "herói intelectual do Ocidente", como o chamou Jean Paulhan, escrevia que "desejo que ele (o surrealismo) passe por não ter tentado nada melhor do que lançar um fio condutor entre os mundos dissociados da vigília e do sono, da realidade exterior e interior, da razão e da loucura, da calma e do conhecimento e do amor, da vida pela vida e da revolução". Não por acaso, numa imagem muito feliz, Mário Pedrosa compara o surrealismo com a guerrilha, "cuja função não é tanto vencer e empolgar como persistir para perturbar, durar para incandescer", pois o surrealismo "quis sempre ser a poesia, (o amor) e a revolta em estado permanente", para modificar o homem por dentro enquanto a revolução o modificaria por fora. A ação surrealista não tinha apenas um sentido exterior, mas também um sentido interior, pois o homem deve viver uma completude de aventura humana, fundada na experiência exterior e interior sem limites, sem repressão, a fim de que nenhum erro na interpretação do homem acarrete erro na compreensão e seja obstáculo à transformação do mundo.
Se não me engano, parece-me ser a reconstituição dessa vasta ambição surrealista o impulso e a notável energia que presidem o movimento compositivo e estudioso do livro de Sérgio Lima, "A Aventura Surrealista". Em tamanho grande, é um objeto artístico como livro, num projeto gráfico e de capa do próprio Sérgio Lima (que é também poeta e artista plástico de larga obra publicada), -mas cujo crédito está faltando-, com vinhetas e quase cem páginas de ilustrações. A capa reproduz um maravilhoso (em sentido surrealista) artesanato popular brasileiro, "Asas de Borboleta" e na contracapa uma escultura de Maria Martins, de 1949, quando a artista trabalhava sob forte influxo do surrealismo e de Breton.
O livro de Sérgio Lima é o primeiro tomo de uma abrangente pesquisa a sair em mais três tomos, de publicação futura, incluindo estudos, cronologia e bibliografia sobre o surrealismo no Brasil e nas Américas, uma antologia e também o que o autor chama de "infortúnio crítico", todos eles com ilustrações. No volume, agora lançado, está exposto o percurso dessa pesquisa realizada sob os auspícios da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ele está organizado em duas partes, uma "Iniciação ao Surrealismo" (surrealismo ontem e hoje), com discussão breve de algumas questões e tentativa de periodização do movimento, em seus diferentes momentos ou etapas. E uma segunda parte, "Os Fundamentos do Surrealismo", vasto estudo que se debruça a expor, analisar e interpretar os grandes temas, combates e técnicas surrealistas: o amor, a arte, o automatismo e a escritura automática, a beleza, a colagem, o erotismo, a imagem.
Salvo engano, o princípio compositivo do livro parece ser o da colagem, pois o autor funciona como um guia que toma a palavra quase sempre brevemente, abre o assunto e em seguida deixa que falem muitos autores, com abundantes transcrições, diferentes ângulos de abordagem, explorando os temas por uma intersecção diacrônico-sincrônica, quer dizer, de sua história e do estado atual de seu saber, fazendo convergir as discussões e diferenças para a iluminação surrealista de seu tratamento.
Assim, o livro é uma súmula extraordinária dos fundamentos do surrealismo e ao mesmo tempo de algo mais, pois é até possível em diferentes momentos fazer leitura diferente da que faz Sérgio Lima. Aí tanto vemos a vantagem de uma abertura, democrática, que viabiliza contrapontos, quanto o entusiasmo militante do autor que revela sentidos inesperados e inusitados, carreando águas para o seu moinho. Mas o livro, tratando da aventura surrealista é em si mesmo uma aventura para o leitor, exigindo energias e investimentos para deslindá-lo, impondo um desafio, oferecendo entretanto compensações extraordinárias, especialmente no sentido de que a dialética dessa aventura da modernidade que é o surrealismo constitui uma experiência que o homem atual, se culto e democrático, não pode descartar.
No caso brasileiro, o livro é verdadeiramente pedagógico, estando, contudo, longe de ser didático, pois o surrealismo por aqui é, mesmo para gentes ilustradas, um simples caso de aberração, ginástica mental incompatível com nossas necessidades vitais etc., apesar de sermos um país surrealista... O livro de Sérgio Lima também nos pergunta que horas são e faz como o surrealismo com que o homem e a sociedade atual se ponham face a face consigo mesmos.
Outra não é a direção do livro também recém-saído de Jorge Schwartz, "Vanguardas Latino-Americanas - Polêmicas, Manifestos e Textos Críticos", embora seja muito diferente do de Sérgio Lima, quanto ao tom, à construção e ao modo de produção de sentido. Volume de concepção gráfica sofisticada e realização editorial complexa, reúne, como o outro, a dupla peculiaridade de ter sido produzido no interior da universidade pública paulista e por ela ter sido co-editado.
O livro de Jorge Schwartz, originariamente tese de livre-docência, está organizado em dois blocos, sendo o primeiro constituído de textos programáticos das vanguardas latino-americanas dos anos 20/30, englobando contribuições do Chile, Argentina, Brasil, México, Peru, Porto Rico, Venezuela, Nicarágua, Cuba, Uruguai, Equador. O segundo bloco é uma ordenação temática de textos, que contempla em parte esses mesmos países, em parte outros e se abre para a discussão dos "ismos", das tensões ideológicas, das preocupações e debates das identidades nacionais etc. É certo que num livro como esse alguém poderia cobrar a ausência de alguma coisa ou a inclusão de outras, mas o fato é que Jorge Schwartz incluiu praticamente tudo o que houve de relevante no período histórico, com a ênfase que lhe permitiu a pesquisa e sua interpretação.
Mas penso que, nesta altura da nossa hora nacional, das ainda precárias relações culturais das gentes do Brasil com nossos irmãos latino-americanos de fala castelhana, esse livro preenche não uma lacuna, mas um abismo, tornando acessíveis ao leitor brasileiro os textos e os debates originais, como se deram. Mas também as paixões artísticas, sociais e nacionais, as discussões dos grandes problemas, impasses e contradições vividos pelas frações cultas modernizantes da Latino-América ressoam dali, com seus horizontes e limites. E o volume está ainda enriquecido com o ensaio inicial de Alfredo Bosi, analisando e interpretando as vanguardas latino-americanas, com notável e sensível perspectiva atual, e mais a introdução do autor e uma quantidade inacreditável de notas informativas, de esclarecimentos de contextos e referências, publicações, autores etc.
Não é difícil crer que, a médio prazo, esses livros fecundarão um intercâmbio de pesquisas de fôlego semelhante imprescindíveis para o avanço no conhecimento da modernização artística e cultural destas Américas, com desdobramentos em literatura comparada e, principalmente, com a respectiva desprovincianização e mudanças na direção dos olhares. Tivemos nossas próprias preocupações e proposições vanguardistas, realizamos notáveis obras de arte e nossos problemas, impasses e contradições, sendo regionais e nacionais são também constitutivos internacionais do desigual e combinado que presidem a expansão capitalista em seu processo permanente e inacabado de modernização.
O leitor brasileiro tem agora ao alcance dois livros, os quais, aliás, se completam com o terceiro volume de "América Latina: Palavra, Literatura e Cultura - Vanguarda e Modernidade", organizado por Ana Pizarro (Memorial da América Latina/ Ed. Unicamp, 1995) que, sendo histórias peculiares e a seu modo da arte moderna, põem e repõem em cena o repertório necessário para a continuação do debate bem-informado sobre a significação desse legado da grande aventura da modernização artística e cultural deste século. Inclusive porque as vanguardas pesquisadas e publicadas institucionalmente exigem, ainda uma vez, que sua discussão suponha certa reabertura de seus momentos cínico e heróico-patético. Não como relíquia ou curiosidade, ou história morta que mãos pretensamente limpas escrevem, mas para que a reflexão atual, incorporando triunfos e fracassos, faça viva a experiência histórica da luta contra a mercantilização crescente, que está acirrada e ameaça cada vez mais a sobrevivência da própria memória das opressões. Talvez as vanguardas ainda possam ser um fio indicador de que muito se perdeu pelos descaminhos do século 20 e funcionem, mesmo com luz frágil sobrevivente no comércio, como sinal vermelho para o homem danificado de hoje.