

O crítico canadense Northrop Frye mostra seu fascínio pelo mito
Um antropólogo literário
FÁBIO DE SOUZA ANDRADE
Quando o canadense Northrop Frye (1912-1991) surgiu para o ensaísmo, firmando-se como um dos nomes mais importantes da reflexão sistemática sobre a crítica literária na segunda metade do século 20, a teoria dos gêneros estava longe da associação imediata contemporânea com os estudos de uma "écriture" feminina, masculina ou homossexual, os tentaculares "gender studies". Pois foi para os gêneros no velho sentido aristotélico que Frye, professor na Universidade de Toronto, voltou seus olhos, insatisfeito com as limitações que o método do "close-reading" dos "new critics" propunha, leitura reveladora, mas excessiva e quase exclusivamente presa à estrutura do próprio texto, tímida em relacioná-lo a um contexto maior.
Para o jovem autor de um belo e erudito ensaio sobre a gramática dos símbolos na poesia visionária de William Blake, "Fearful Symmetry" (1947), tratava-se de encontrar respaldo numa teoria que lhe permitisse rejeitar a crítica meramente judicativa e de conferir caráter sistêmico e científico à atividade crítica, conquistando autonomia para um ramo do conhecimento que ainda oscilava entre a filosofia e a história. Tarefa ambiciosa, que encontrou seu caminho no fascínio moderno pelo mito, entendido por Frye, não fosse ele um discípulo remoto de Aristóteles, como uma forma de arte verbal, um mundo de histórias estruturadas em séries. Nessa "tentativa sistemática de ver a natureza em forma humana" estaria a matriz da literatura, que, em seu contínuo recurso aos arquétipos primordiais, se desenvolve a partir dos mesmos princípios estruturadores do mito (analogia e identidade).
Crítica prática
A teoria crítica desenvolvida por Frye, de dimensão enciclopédica, erudita, atenta à tradição literária, ganhou exposição sistemática em seu célebre "Anatomia da Crítica" (1957), livro que nasceu de uma incursão analítica ao poema de Spenser, "The Faerie Queene", e acabou como pura teoria. Seu complemento necessário seria um livro de crítica prática, definição que se aplica bem a "Fábulas de Identidade", reunião de 16 ensaios que constituem, ao lado das diversas monografias voltadas para poetas de pendor mítico (John Milton, T.S. Eliot, Blake, Shakespeare, entre outros), a contraparte analítica da "Anatomia". Dividido em três partes, o livro contempla a ampla gama de interesses de Frye, está centrado em autores da tradição anglo-saxã, mas também oferece àqueles que não conhecem seu corpo de escritos teóricos uma apresentação sumária de seus princípios críticos.
Na primeira seção, quatro ensaios discutem resumidamente as categorias centrais sobre as quais sua teoria está fundamentada. "Os Arquétipos da Literatura", por exemplo, originalmente publicado como programa intelectual intitulado "Meu Credo", antes da escrita da "Anatomia", traz uma formulação sintética da teoria dos modos da ficção cômico e trágico e de sua relação com mitos que acompanham os ciclos naturais -o das estações do ano, a alternância dia e noite, a sucessão vida e morte-, dando origem a modos específicos de ficção (primaveril, estival, outonal e invernal).
"Mito, Ficção e Deslocamento" esclarece a delimitação conceitual da noção de mito em Frye. Para além da nossa tendência em acompanhar toda narrativa como continuidade, sucessão de episódios no tempo, atentos ao ritmo que ordena os enredos, o "mythos" aponta para o momento de apreensão do todo, quando a forma se esclarece e oferece a sensação de uma unidade, um desenho global da narrativa que remonta a modelos arquetípicos, míticos, recebendo diversos tratamentos ao longo da história literária. Buscá-los não significa fugir da especificidade do autor examinado, mas desnudar o que nele dá caráter único e individual a preocupações humanas ao mesmo tempo persistentes e cambiantes no fluxo do tempo.
Frye chega a definir o crítico que busca como um "antropólogo literário". A busca da plausibilidade, da verossimilhança pode levar a uma maior ou menor convencionalidade nessa retomada: quanto maior a pressão naturalista, mais o mito sofre deformações inusitadas, se renova. Deixada livre, a fantasia desenfreada acaba caindo no extremo da convenção, simplificando as formas de heróis e vilões em tintas carregadas, como no conto popular.
Poetas idiossincráticos
A seção central do livro traz ensaios diversos: dois ocupam-se de Shakespeare (um sobre a falácia biográfica na leitura dos sonetos, um sobre a estrutura cômica em "The Winter's Tale"), autor a quem Frye sempre voltou; um deles discute a periodização na história literária, mais especificamente como qualificar os autores que precederam imediatamente o período romântico na tradição inglesa; outro ensaio desmonta a noção socialmente produzida de loucura, aplicada ao imaginário de poetas idiossincráticos, criadores de mitologias pessoais e excêntricas, de resistência a normatização oficial. Justamente quando aplicada a esses poetas, a leitura de Frye é mais reveladora.
Excelente é seu balanço sumário de Blake e sua recepção, nos 200 anos de sua morte, discutindo a metáfora enquanto princípio formal da poesia e sua expressão pessoal de traços comuns à tradição protestante inglesa: a leitura individual e direta das Escrituras bíblicas, o impulso revolucionário de resistência à idéia de deixar-se governar. Igualmente forte é sua análise do "Lycidas", de Milton, em que resiste à leitura corrente de reduzir o poema a uma peça de ocasião, em resposta à morte por afogamento de um jovem chamado Edward King, para mostrar seu vínculo a um motivo arquetípico, presente em Virgílio, em Teócrito e tantos outros, do "deus que morre", desfazendo a confusão entre sinceridade pessoal e sinceridade literária. O ensaio sobre Byron liga-se a este e também ao dedicado aos sonetos shakespearianos, discutindo a construção do mito do poeta e a relação entre experiência e formalização literária em sua obra.
Emily Dickinson, Wallace Stevens, W.B. Yeats e James Joyce fecham o grupo de autores abordados no volume. Muitas vezes concebidos com introduções a antologias desses autores, preocupam-se em traçar seus percursos poéticos de maneira abrangente. As questões recorrentes da crítica mítica conduzem, contudo, a aproximação. Nos casos da poeta americana e dos dois irlandeses, trata-se do exame da maneira particular como todos os três converteram estruturas mitológicas preexistentes em arcabouços para o desenvolvimento de mitologias próprias. Assim, da mesma forma que as leituras cristãs de Dickinson cedem espaço a um sistema literário de imagens, o caminho místico de Madame Blavatsky propicia a Yeats um material primeiro a partir do qual trabalhar simbolicamente sua própria concepção de história, cíclica e tributária de Vico, como a de Joyce. Na estrutura épica do "Finnegan's Wake", de Joyce, Frye encontra ecos de "The Four Zoas", de Blake, o mito de Albion, a Inglaterra, correspondendo ao mito de Finnegan, encarnando a nação irlandesa. A poesia altamente cerebral de Wallace Stevens oferece ao crítico a oportunidade de examinar uma concepção de poesia que, como a sua, desvencilha a literatura de uma suposta obrigação reprodutiva, coloca a metáfora no centro da atividade poética e assume que a poesia lida com idéias mediadas pela forma poética: "O poema é o assunto do poema".
Contra os críticos de Frye, que atacam seu pendor classificatório, por demais apoiado na erudição e acusam-no de, partindo de um impulso legítimo (a desconfiança da entronização da leitura estrutural), diluir o texto em uma fórmula genérica (o sistema de arquétipos), é preciso lembrar que a história também tem lugar em sua leitura mítica, ainda que ele não defenda o cotejo direto entre forma literária e estruturas sociais. Veja-se "The Great Code", livro seminal em que faz uma abordagem estritamente literária da Bíblia, uma das grandes matrizes literárias ocidentais, atenta a sua organização simbólica e unidade narrativa, em que Frye estabelece uma clara relação de associação entre processos históricos centrais (a ascensão da razão iluminista, por exemplo) e as oscilações de prestígio social da linguagem mitopoética.
Sua escrita e suas categorias nunca deixam de ser inspiradoras e deixam-se combinar com aquilo que dele cobram como ausência, a sensibilidade para as pressões do tempo na obra literária, talvez já mais determinantes em sua obra do que se avalia habitualmente, em forma transfigurada e internalizada ao exame da série literária. O leitor tem como tirar a prova, graças a esse oportuno lançamento brasileiro de "Fábulas de Identidade".
Fábio de Souza Andrade é professor de literatura na Universidade Estadual de Campinas e autor de "O Engenheiro Noturno - A Lírica Final de Jorge de Lima" (Edusp).