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Eneida Maria de Souza - 69 - Dezembro de 2000
Um Brasil de aquarela
Crônicas revelam escrita boêmia e moderna
Foto do(a) autor(a) Eneida Maria de Souza

Um Brasil de aquarela



Crônicas revelam escrita boêmia e moderna 
ENEIDA MARIA DE SOUZA

"Aconteceu hoje uma coisa extraordinária". Com essa frase, repetida de maneira enfática por Di Cavalcanti, a crônica carioca encontra uma expressão que a sintetiza. Qualquer acontecimento, por banal que fosse, recebia do pintor um tratamento artístico que o superava, pela força da imaginação e o dom de valorizar mais o narrado que o vivido. Cria-se a mitologia da representação, graças ao cultivo de uma estética da vida, que usa os mecanismos próprios à arte do artifício e da crônica mundana. Estilo modernista de interpretar a simbiose entre a rua e a experiência estética, estilo que Mário de Andrade, nos anos 20, já ensinava aos então jovens poetas mineiros, como Carlos Drummond.
Se as lições de poesia encontram na crônica um lugar mais do que propício para se ancorar, será por meio do perfil do artista, traçado por Paulo Mendes Campos em "Di Cavalcanti, Painel do Brasil", que a rua se metaforiza na grande personagem da obra do pintor, assim como da crônica deste mineiro que se instala no Rio em 1945. A crônica se afasta do espaço fechado da casa e de seu ambiente romanesco e se aproxima da rua, com seu fascinante teor de folhetim.
Os temas explorados nas crônicas de Paulo Mendes Campos, que vão das reminiscências da infância às experiências adultas, percorrem o solo de uma escrita boêmia, urbana, poética e, principalmente, moderna. Por se tratar de textos escritos em épocas distintas, torna-se evidente a mudança de tom e de dicção do cronista, que sofistica a narrativa cotidiana, representando-a de modo a reforçar o imaginário criado em torno de suas personagens. Os fatos narrados se transformam em atos imaginativos e ficcionais, graças ao sentido de plenitude a eles conferido.
As cenas bem-humoradas vividas pelos amigos na hora da morte, como as de Ary Barroso ou Stanislaw Ponte Preta, bem como a função desconstrutora atribuída às gírias, mesmo aquelas ligadas à dor existencial, como a fossa, recebem do cronista tratamento próximo à sua ficcionalização. Se, muitas vezes, o efeito de realidade e de simplicidade é um traço da crônica, pela escolha de temas voltados para as experiências cotidianas ou pela linguagem aparentemente simples do cronista, resta lembrar que escrever é um ato que requer um exercício lento de fabulação e o uso de uma dicção impostada.
A pose se evidencia, por exemplo, mediante a construção da figura de Vinicius de Moraes, um dos mitos que alimentavam a intelectualidade boêmia da zona sul do Rio de Janeiro, pela construção de frases feitas a ele atribuídas, definições de sua personalidade por terceiros, anedotas inventadas sobre os mais divertidos assuntos, o que permite caracterizar a crônica jornalística como um dos mais eficazes meios de criação da mitologia urbana da época retratada. Éramos um país jovem, criativo, boêmio, entediado, alegre, brincalhão, progressista e que ainda acreditava no futuro. A intelectualidade se reunia nos bares e nas residências de escritores como Aníbal Machado, onde se mesclavam a "joie de vivre" com o "esquecimento" das diferenças sociais. A configuração geográfica da cidade permitia interpretações sociologizantes por parte do cronista, que a distinguia de São Paulo pela função anárquica da praia, com seu "comunismo" provocando a indistinção de classes e a ausência de preconceitos.
Mesmo a academia não havia ainda ocupado o lugar antes reservado à boemia intelectual, com seus textos recheados de aforismos, seguindo os princípios de uma estética do fragmentário e do inacabado. É por volta dos anos 70 que a distância entre a mídia e a universidade iria se aguçar, em virtude da mudança de lugar do intelectual, que passa a atuar mais no interior das instituições. Com a reedição das crônicas de Paulo Mendes registra-se, de forma perfeita, o retrato de um Brasil provinciano que, nas asas de Kubitschek, começa a se impor como país de vanguarda, quando desloca a capital do país para o Planalto Central. O espaço político de Brasília vai aos poucos apagando a imagem de uma geração de políticos e boêmios que, na pacata e doméstica Ipanema dos anos 40, reunia, num só jogo de futebol, Augusto Frederico Schmidt, Di Cavalcanti, Vinicius de Moraes, Aníbal Machado e Rubem Braga. A saga de Ipanema iria atingir o auge com a patota do Pasquim, legitimadora desse discurso iniciado com os cronistas pelo reforço da mitologia do paraíso tropical e da ideologia de um humor machista.

Sedução verde-amarela
A reunião das crônicas de Paulo Mendes Campos, por meio da seleção desigual realizada pelo organizador, cumpre o papel de fornecer ao leitor contemporâneo a imagem glamourosa de um tempo que marcou a vida do gênero e que se espelha nas cores alegres e modernas das reproduções contidas nas capas dos livros. A sedução verde-amarela produzida pelo jogo de cores aí estampado conta com a ajuda dos títulos, evocadores de um lirismo bem-comportado, seja pela exploração de temas existenciais, pela referência a personalidades do período, como Vinicius de Moraes, seja pela citação de um dos versos mais comentados de Ary Barroso, "Brasil Brasileiro", que dá nome a um dos volumes.
Diante desse aparato sedutor, a leitura das crônicas exige atitude crítica e boa dose de distanciamento. Com os três volumes já publicados, percebe-se também a desigual qualidade das crônicas, com menor dose de originalidade as que compõem "O Amor Acaba", registros existenciais que beiram às vezes a pieguice e o lugar-comum. No final de cada volume, foram selecionadas algumas frases do autor, atitude que reitera o perigo de transformar Paulo Mendes Campos em construtor, nem tão original, de frases de efeito, comportamento muito ao gosto de seus colegas de geração.
Na escolha das crônicas, realizada segundo critérios temáticos, não houve a intenção de seguir a ordem cronológica em que foram originalmente editados os textos. Mas a seleção deixa um pouco a desejar, pois algumas não poderiam ter sido esquecidas, como a que se refere à publicação de "Grande Sertão: Veredas", momento importante e polêmico nas letras brasileiras, causado pela força inusitada de um texto a contrapelo dos parâmetros estéticos vigentes. Ou ainda a sua belíssima "Autobiografia", contida no livro "Hora do Recreio", de 1967, ou do texto que narra a experiência do cronista com o LSD, se inscrevendo como um rico depoimento sobre a relação entre a criação artística e o uso de alucinógenos, traço marcante de uma época. Que essas e outras crônicas sejam contempladas nos volumes a serem editados, com previsão de se publicarem outros oito títulos.
Na organização dos volumes, pretendeu-se ainda descontextualizar as crônicas, ao se descartarem referências à data em que foram publicadas. Entende-se talvez a pretensão do organizador em reforçar este traço por acreditar que as crônicas, ao serem reunidas em livro, perdem o seu caráter contingente e transcendem o momento a que se referem. No entanto se torna cada vez mais necessário informar o leitor sobre a origem e a data dos textos, bem como sobre a sua produção literária como um todo, considerando que as reedições entre nós nem sempre cumprem os rituais básicos de uma publicação cuidadosa. Precauções dessa natureza prestariam um bom serviço para a preservação da obra do autor, dispersa em edições esgotadas ou de duvidosa qualidade editorial.

Jogos poéticos
"Mogi das Cruzes, Saudades, Baía da Traição, Cruz das Almas, Soledades, Luz, Farol da Solidão, São Paulo, Campos, Mineiros, Brejo Grande, Barracão, Barra dos Mendes, Barreiros, Mendes, Campos do Jordão". A página branca reservada à crônica jornalística comporta-se de modo generoso aos jogos poéticos e aos artifícios do autor, que deixa a sua assinatura nos intervalos de uma despretensiosa lista de nomes de lugares, na crônica que fecha "Brasil Brasileiro", volume que convida o leitor a revisitar o nosso apagado sentimento patriótico. Paulo Mendes Campos se insere sorrateiro no texto, mediante a associação livre de topônimos e da sensibilidade no trato com palavras dicionarizadas, revertidas em canto e poesia. Esse é o fascínio despertado pela crônica, gênero híbrido, a meio caminho entre a ficção e o jornalismo, capaz de abrigar na mesma superfície de linguagem a ilusão referencial e o vôo da poesia.
Cronistas desse porte se encontram em declínio nos dias atuais, pela ausência de representação na vida pública ou na formação da opinião dos leitores. É verdade que o cotidiano se narra hoje por outras vias, que substituem, com imagens e poder sensacionalista, o encanto e o humor de um texto escrito para ser lido na tranquilidade da casa ou no burburinho dos cafés. A crônica da cidade abandonou o antigo lirismo para se tornar o registro policial de crimes e da violência do espaço urbano.
Nos últimos 20 anos, a crônica carioca perdeu muitos de seus protagonistas, como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, responsáveis, dentre outros, pela invenção de uma mitologia do cotidiano, no que ele pode oferecer de mágico e anárquico, assim como da imagem do Rio de Janeiro como pólo referencial da cultura brasileira. Sem resquício algum de nostalgia de um passado mitificado pela memória, a leitura contemporânea desses textos permite aferir tanto o prazer de uma escrita que acaba se libertando do tempo quanto o grau de idealização atingido por estas saborosas crônicas, reveladoras, contudo, de um Brasil de aquarela.

O Amor Acaba - Crônicas Líricas e Existenciais
Paulo Mendes Campos
269 págs., R$ 25,00
Murais de Vinícius e Outros Perfis
126 págs., R$ 18,00
Brasil Brasileiro - Crônicas do País, das Cidades e do Povo
190 págs., R$ 23,00
Organização e apresentação: Flávio Pinheiro
Civilização Brasileira. (Tel. 0/xx/21/ 263-2082)


Eneida Maria de Souza é professora de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais, autora de "A Pedra Mágica do Discurso" (Ed. UFMG) e "O Século de Borges" (Autêntica), entre outros.

Eneida Maria de Souza é professora de literatura da UFMG.
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