

Um descontrucionista em ação
VIVIANA BOSI CONCAGH
A ÉTICA DA LEITURA - ENSAIOS 1979-1989
J. Hillis Miller Tradução: Eliane Fittipaldi e Kátia Orberg Imago, 248 págs. R$ 20,00
"Estar consciente é não estar no tempo
Mas apenas no tempo podem o momento no roseiral,
O momento no caramanchel onde a chuva batia,
O momento da igreja desabrigada ao entardecer
Ser lembrados, envolvidos em passado e futuro.
Apenas pelo tempo o tempo é conquistado."
(T.S. Eliot. "Four Quartets")
E m formato de coletânea de ensaios, o livro do renomado crítico norte-americano J. Hillis Miller reúne escritos diversos, já publicados anteriormente em revistas e antologias de teoria literária nos Estados Unidos. Os artigos selecionados para a tradução vêm agrupados por temas correlatos, todos enfeixados sob a égide dos desafios da leitura.
Uma direção e duas saídas entrelaçadas orientam este volume rico de questões. De um lado, o crítico atento e entusiasta, que faz "leituras microscópicas", a perseguir o cerne fugidio dos sentidos. De outro, o teórico que afirma princípios filosóficos um tanto simplistas, em nome da desconstrução, coisa que deveria ser impossível, quando se pensa em uma forma de pensamento que se autodefine como "configuração no deslocamento", recusando transformar-se em técnica de análise.
Há, em Hillis Miller, um certo gosto amaneirado pela simetria elegante, como se lhe faltasse a consciência plena dos resultados amedrontadores da desconstrução (diferentemente de Derrida e De Man). O autor usa, para caracterizá-la, a analogia com o hóspede sinistro, o vírus ou o parasita da metafísica ocidental, e reconhece que ela mesma não pode deixar de usar a linguagem de sua hospedeira, na medida em que uma engendra e depende da outra. No entanto, o tom sereno do jogo de palavras dá a impressão de uma brincadeira intelectual, espraiando questões-limite como quem aceita sem angústia a derrocada de toda certeza hermenêutica. A bem da verdade, o próprio Miller salpica em seus ensaios referências ligeiras a críticas que costumeiramente se fazem ao desconstrucionismo. Ironicamente, seu texto confirma esses problemas, tais como o encontrar em todos os textos a mesma inapreensibilidade.
Nesta linha, Miller arrisca-se na oscilação constante entre a afirmativa de que é impossível descrever princípios fixos para a desconstrução, visto ser ela uma promessa não realizável, e a relativização deste princípio o tempo todo pela necessidade de definir as suas linhas básicas. Remanescem certos traços do militante que, de uma só penada, situa o que ele chama de "metafísica ocidental", "in totum", como um sistema rígido de respostas unívocas (sic), em oposição à leitura desconstrutivista, paladina principal da dúvida consciente. Por outro lado, ele não deixa de apontar o fato de que "todo grande autor desconstrói a própria obra" e que, desde Platão, toda filosofia é desconstrutivista "avant la lettre". No entanto, há, nessa pretensão de humildade do "só sei que nada sei" uma tendência à paralisia pois, diferentemente de Sócrates, que busca o conceito pela interrogação sistemática, Hillis Miller acata a impossibilidade de chegar a qualquer construção determinada.
Profeta do último horizonte, cuja lucidez corrosiva aponta o fato inevitável de, também ele, Sócrates, usar recursos retóricos persuasivos para tentar desmascarar a sofística, como se esta contaminação inevitável do vírus no hospedeiro os tornasse necessariamente iguais. Se isto pode ser uma lufada saudável nas certezas, não pode tornar-se o último estádio absoluto da interpretação, sob risco de obstruir qualquer possibilidade de busca de sentido, ainda que sempre parcial, na medida do tempo e da conjuntura provisória. Por trás deste tipo de niilismo encontra-se, ao contrário do que à primeira vista se poderia supor, um anseio de ser sob a luz, plenamente, e a inquietude de ultrapassar as palavras parciais, como no poema "The Triumph of Life", de Shelley, que Miller comenta. Estas duas formas de escavar, encontrando o inferno ou a fonte, são dilema para o leitor. O nada e o tudo se igualam na origem mítica, ainda não desdobrados pela história.
O "absurdismo metacrítico" expresso pelo postulado da impossibilidade da leitura, não o impede de ler e interpretar, mesmo que seja para experimentar em todo texto a estranheza de suas margens inarticuladas. Hillis Miller faz uma bela leitura de Freud, ressaltando a tortuosidade da sua investigação, ao tentar descrever o processo analítico de escavar, desenterrar, penetrar na psique. Aqui, como também em outros ensaios, o autor alcança o lado mais produtivo da desconstrução, que é renunciar a um método predeterminado e debruçar-se sobre o objeto, procurando, de um lado, ecoar o "close reading" da Nova Crítica e, de outro, incluir preocupações éticas na leitura, voltado ao compromisso penoso de encontrar, ou configurar, significados.
Embora censure a Nova Crítica por seu alheamento programático a tudo o que é contexto e história, os contornos de sua proposta de leitura não lhe permitem adentrar com vigor nas relações delicadas e problemáticas entre os motivos de um autor e seu universo cultural. Assim, suas críticas parecem mais uma capa "politicamente correta" do que um real enfrentamento das escolhas éticas que se entremeiam na arte. Como exemplo, cita a teologia de Milton, que os leitores costumam relativizar para apreciar somente a poesia. Isto nos remete a um problema antigo, que é a relação entre ideologia e arte, debatida com radicalidade por Croce, que pretendia separar na "Divina Comédia" o que era teologia (para ele, "cimento ideológico") e poesia "verdadeira" (instantes de transfiguração do sentimento em som e figura).
Essa discussão, retomada sempre com fervor, no caso da lírica moderna, encontra em Adorno um ponto de delicado equilíbrio que Miller não menciona. Dessa forma, a ética da leitura por ele proposta pode resumir-se a ler com empenho minucioso o que julgam afirmar os autores, com o intuito de revelar contradições autodesmanteladoras em suas supostas crenças, que todo grande texto teria embutidas. Assim faz ele com George Eliot e Thomas Carlyle. Se, como afirma, na esteira de Paul de Man, toda linguagem é figurada, e a leitura, uma alegoria da ilegibilidade fundamental, tais análises podem tornar-se uma acusação às restrições ideológicas de todo texto, sob a ótica contemporânea, também ela fadada a ser desconstruída pelo futuro.
Ao mesmo tempo, considera a linguagem como fenômeno absolutamente anterior ao eu, a engendrar as crenças e ações dos homens. Ela está na origem como um totem, e não há alternativa a não ser submeter-se à servidão inapelável de dizer o que não desejávamos, cegos em relação ao nosso próprio enunciado. As formas narrativas e as figuras de linguagem por ele estudadas evidenciariam a personificação a que a linguagem submete o real, atribuindo-lhe um sentido analógico e ilusório. Não seria este um momento, que pode ser dialetizado pelas oscilações da consciência possível? Lendo sob a ótica de Miller, tem-se a impressão de prisão implacável, só contrabalançada pelo exterminador final da desconstrução, o mais avançado grau da percepção, próximo do ofuscamento causado pelo excesso de luz. Ainda nesta direção, Miller sutiliza as definições esquemáticas de uma certa linguística bipolar, progredindo em direção à idéia de série aberta, em oposição ao conceito menos flexível de estrutura.
O livro dá saltos e mostra a que veio principalmente nos dois esplêndidos ensaios finais, um sobre "O Coração das Trevas", de Conrad, e outro sobre o último poema de Wallace Stevens, de título estranhíssimo, "Um Primitivo Como Um Orbe". Revela-se então o leitor maduro, que põe em ação uma poética, sem exibir os andaimes e ferramentas teóricos que a edificaram, vivificada e absorvida a teoria na textura complexa da interpretação em movimento. Enquanto em Conrad a impenetrabilidade do sentido é representada pela escuridão da selva bárbara, em Stevens o sol inatingível é a metáfora do "poema essencial no centro das coisas", o que não pode ser designado, embora a linguagem tente figurá-lo prolificamente, "poiésis" entre a criação e a descoberta.