Logotipo do Jornal de Resenhas
Barbara Heliodora - 77 - Agosto de 2001
Um espelho de São Paulo
Foto do(a) autor(a) Barbara Heliodora

Um espelho de São Paulo

BÁRBARA HELIODORA

"O objetivo da arte de representar, tanto no princípio quanto agora, era e é o de apresentar um espelho à natureza", e o trabalho de Sábato Magaldi e Maria Thereza Vargas é prova disso. Segundo informam desde logo, o livro é o resultado do convite feito a Sábato pelo jornal "O Estado de São Paulo" por ocasião de seu centenário, celebrado em 1975. Esclarecem ainda que, mesmo só vindo a publicar o trabalho em um volume único um quarto de século mais tarde, preferiram deixar as coisas como estavam, pois 25 anos a mais, com a fartura de informações, exigiriam outro tanto de texto. Como seria inevitável, a falta de informações mais precisas acerca da quase totalidade dos espetáculos montados pelo menos na primeira metade do período em questão faz com que o resultado desta cobertura da vida teatral de São Paulo seja desigual.
Mesmo assim a mera constatação do que era feito configura um retrato percuciente do desenvolvimento da própria cidade, pois o século investigado vê São Paulo passar de uma provinciana cidadezinha de 30 mil habitantes à complexa megalópole de hoje, com a vida teatral refletindo as mudanças sofridas para que chegasse onde chegou. Como as primeiras informações colhidas datam ainda da época do Império do Brasil, o jornal que foi fonte principal da pesquisa ainda se chamava "A Província de São Paulo", e, como capital de Província, a cidade não tinha atividades próprias no teatro, dependendo de visitas de companhias que chegassem ou do Rio de Janeiro ou da Europa.
A respeito dessas visitas européias é curioso notar que, a par da alta frequência das companhias francesas e principalmente italianas, aparecem grupos espanhóis, principalmente de "zarzuela" e, o que é mais surpreendente, há um número considerável de companhias portuguesas, de prosa tanto quanto de revistas.
Para os que consideram ser o brasileiro, ainda hoje, culturalmente colonizado e priorizador da coisa estrangeira, uma olhada para o que acontecia no início do último quartel do século 19 será motivo de orgulho, dado o considerável lastro cultural de feição já especificamente nossa. Se o século 18 já produzira por aqui alguma poesia em centros então privilegiados como Vila Rica -e no 19 despontara também a prosa-, não podemos esquecer que o teatro é sempre forma tardia e que, apesar das visitas mais ou menos constantes, Portugal não nos legou clássicos, a não ser o notável Gil Vicente.
Os senões do livro são resultado direto de sua origem: a encomenda feita incluía um levantamento do muito distante, a respeito do qual há quase nenhum material crítico, e do mais recente, tão conhecido que não se pode apresentá-lo apenas como levantamento -e entre uma e outra coisa hesitam esses "Cem Anos de Teatro em São Paulo". Se, em sua cobertura das últimas décadas do século 19, o livro permanece estritamente no nível do levantamento (e não há dúvida de que com isso tem o mérito de abrir o caminho para pesquisas futuras), aparecem também alguns momentos, geralmente pitorescos, que mereceram mais atenção da imprensa da época, como a chegada de Ernesto Rossi, acompanhada por bandas de música e toda espécie de festejos, ou a de Sarah Bernhardt, que tinha "grande massa de povo a esperá-la", manifestações que ator nenhum, nacional ou estrangeiro, parece merecer hoje em dia.

Riqueza de montagem
Por outro lado, quando testemunhamos, desde os últimos anos do século 20 e neste alvorecer do 21, o mar de monólogos e de peças de dois ou no máximo três atores, não deixa de causar inveja o que se fazia no final do século 19 em questão de riqueza de montagem. No Rio, havia as burletas com 15 ou 20 cenários e em São Paulo somos informados de que "O Corsário Negro" tinha no 3º ato "um jardim de Macau, enfeitado com estátuas", e, no 4º, a "fragata Isabel 2ª e o Brigue Voador", enquanto em uma revista do ano o quadro "Água em Seis Dias" apresentava "catadupas de água verdadeira". Como e por que teriam as companhias teatrais de então condições de montar tudo isso, com populações tão menores? Esse seria outro bom veio para a pesquisa.
Se a abolição da escravatura e a proclamação da República passam apenas de leve pelos palcos paulistas, nada é tão significativo para o retrato que o teatro faz da evolução da cidade e da fisionomia cultural de São Paulo quanto o aparecimento dos "filodrammatici", que expressavam tanto a preocupação da numerosa população italiana em preservar suas tradições culturais, como também -o que é mais importante- as preocupações de um povo que, com maior ou menor nível de escolaridade que tivesse, tinha atrás de si dois milênios de cultura e um nível de politização ainda desconhecido por aqui.
Ao longo de todo o percurso das primeiras décadas do século passado, o que o livro de Sábato e Maria Thereza mais salienta é uma espécie de contínua constatação de que a opereta, a burleta, o café-concerto, a revista, a comédia fácil parecem ter sempre a preferência do público, ficando um repertório mais exigente restrito a uma pequena elite intelectual. Porém as mudanças que vão tendo inexorável lugar mostram que, se Ibsen foi incompreendido e abominado em 1899, com "Casa de Bonecas", em 1915 ele já é aplaudido com "Espectros", e que, em 1916, "Flores de Sombra", de Cláudio de Souza, um texto de considerável requinte, é recebido como a obra-prima do teatro brasileiro.
Os "Cem Anos de Teatro em São Paulo" atestam ainda uma vez a pouca importância do teatro no Brasil em geral (e em São Paulo, em particular) para a intelectualidade de 22: se a Semana de Arte Moderna foi organizada para contestar o academismo, o teatro não chegava sequer a ter um academismo a ser contestado -e é soberanamente ignorado.
As décadas de 20 e 30 são caracterizadas pela afirmação de atores nacionais (Froes e Procópio, Dulcina, Jayme Costa) e pelo primeiro encontro de São Paulo com Pirandello, que tem na população italiana um apoio natural. E já começam a ser sentidos os primórdios das inquietações que irão conduzir ao moderno teatro brasileiro, ao que viria se juntar o jejum de visitas européias imposto a partir de 1939 pela Segunda Guerra Mundial. O panorama apresentado a partir desses momentos é muito mais detalhado; e, se o livro continua informativo, a partir daqui ele passa a ter uma postura crítica, avaliadora, que altera a natureza do texto e fica por vezes arbitrária, pois a necessidade da compressão privilegia alguns espetáculos e autores e passa voando por cima de outros.
Fica muito bem colocada a mudança radical do panorama teatral de São Paulo a partir da fundação do Teatro Brasileiro de Comédia em 1948, que ainda uma vez retrata a mudança da própria importância de São Paulo como cidade, seja como crescimento populacional, seja como força econômica, seja como crescente reduto cultural. O teatro paulista reflete, a partir daí, com o Arena, com o Oficina, a tomada de consciência de si mesmo e, a seguir, das dores de crescimento às terríveis dores da censura. Todo livro panorâmico tem limitações, mas este ao menos situa os acontecimentos em sua perspectiva correta e com isso presta um imenso serviço.
A riqueza iconográfica deste "Cem Anos" é uma de suas mais atraentes qualidades, pois permite um acompanhamento mais vivo do caminho percorrido.


Bárbara Heliodora é crítica de teatro, tradutora e autora de "Falando de Shakespeare" (Perspectiva), entre outros.

Cem Anos de Teatro em São Paulo (1875-1974)
Sábato Magaldi e Maria Thereza
Vargas
Senac (Tel. 0/ xx/11/ 284-4322)
454 págs., R$ 45,00

Barbara Heliodora é crítica de teatro e tradutora.
Top