

Um gênero em extinção
MARINA DE MELLO E SOUZA
Por meio da correspondência escrita podemos nos aproximar das mais diversas pessoas, épocas e assuntos, o que vem refletido nas páginas de "Prezado Senhor, Prezada Senhora", nas quais 40 autores abordam usos, características e potenciais da epistolografia sob grande variedade de perspectivas. As cartas sempre têm um destinatário preciso, sendo veículos de uma relação particular. No entanto à medida que as pessoas envolvidas assumem algum tipo de relevância, elas se tornam documentos importantes que ultrapassam os limites de suas intenções.
Quando portadoras de tons mais pessoais, permitem que entremos na intimidade alheia de maneira mais digna que a pura bisbilhotice, principalmente se referidas a uma relação amorosa, como a de dom Pedro 1º e a marquesa de Santos, nas quais se entrevêem não só o ardor e fenecer da paixão, como também a responsabilidade de um imperador diante do seu cargo. Assim, mesmo na correspondência entre aqueles que se amam, outros temas podem ser explorados, como dinâmicas do processo criativo que transparecem nas cartas trocadas por Oswald de Andrade e Fernando Pessoa com suas amadas, Antonieta Alkmin e Ofélia Queiroz.
Quando a relação amorosa não é declarada, a intensidade da correspondência trocada abre possibilidades de reconstrução de um cotidiano, minuciosamente descrito, ao se tentar dessa forma vencer a distância, sendo a troca de diários entre D. Pedro 2º e a condessa de Barral um belo exemplo disso.
Saindo da esfera mais pessoal, há o conjunto de cartas dos grandes pensadores, destacando-se entre eles Freud, que se correspondeu intensamente com vários de seus discípulos, registrando em cartas etapas do desenvolvimento de suas idéias e dessa forma enriquecendo as possibilidades de análise e compreensão não só do seu pensamento como também de sua personalidade.
Marx manteve correspondência assídua com Engels, mas esta não pode ser comparada em importância com a de Freud, não só pela sua quantidade e qualidade intrínseca, como pela maneira como foi tratada por aqueles que a divulgaram.
Enquanto a correspondência publicada de Freud foi mantida na íntegra, vencendo-se os medos iniciais de que as reputações das pessoas envolvidas pudessem ser arranhadas, as cartas de Marx foram utilizadas para ratificar suas teorias, não sendo considerada a possibilidade, nelas contida, de elucidar a maneira como estava inserido no tempo em que viveu. Já a de Hannah Arendt é uma porta para vislumbrarmos a complexidade não só da pensadora, mas também do ser humano, pois, ao mesmo tempo que criticou vivamente toda forma de totalitarismo, ligou-se emocionalmente a Heidegger, que aderiu ao nazismo; e tendo conquistado o universo masculino da carreira profissional, não descuidou das questões eminentemente femininas e domésticas.
Também para os historiadores as cartas são documentos preciosos. Como fontes de informações ausentes de documentos oficiais, há o caso da correspondência da família de dom Pedro Miguel de Almeida Portugal -conde de Assumar e marquês de Alorna-, pela qual vemos como vivia a aristocracia portuguesa do século 18; o pai ausente, ocupando cargos no vasto império, a mãe às voltas com a administração doméstica, as dívidas e as estratégias matrimoniais que consolidariam a posição e as finanças da casa, os filhos sonhando com um futuro de glória que não cabia nos limites estreitos do reino periférico.
Consideradas a partir do papel que tiveram para seus contemporâneos, estão as cartas contra Hermes da Fonseca atribuídas a Arthur Bernardes, cuja falsidade assumida não impediu que fortalecessem a insatisfação contra o domínio das oligarquias tradicionais da Primeira República, e a carta-testamento de Getúlio Vargas, que garantiu a permanência de sua presença para muito além da própria morte.
Formas de expressão literária e de registro de fatos históricos ou corriqueiros, como as de Madame de Sévigné; instrumentos de orientação aos mais jovens, como as de Mário de Andrade, cujo aspecto de "mestre" é ressaltado neste volume; usadas para desfazer mal-entendidos e conquistar favores, como as cartas e bilhetes cheios de segundas intenções de Proust; instrumentos pelos quais estrangeiros tentavam dar conta do mundo diferente com o qual se deparavam, como no livro epistolar de Ina von Binzer; matéria de colecionador, ponto de partida para densas reflexões ou espaço para o desenrolar de jogos entre amigos, o que o conjunto de artigos reunidos em "Prezado Senhor" parece nos mostrar, é a riqueza de possibilidades contidas nas cartas. Diante disso, não podemos deixar de lamentar o processo de extinção desse gênero, iniciado pelo telefone e agudizado pelo correio eletrônico, que, a despeito de retomar a palavra escrita, reduz o texto à sua mais elementar utilidade e o condena a uma vida breve.
Prezado Senhor, Prezada Senhora - Estudos sobre Cartas
Organização: Walnice Nogueira Galvão e Nádia Battela Gotlib Cia. das Letras (Tel. 0/xx/11/ 3846-0801) 414 págs., R$ 33,50
Marina de Mello e Souza é doutora em história da cultura pela Universidade Federal Fluminense.