

Um herói oportunista
PEDRO PUNTONI
Oportunamente, a biografia de João Fernandes Vieira (1610-1681), herói da restauração pernambucana, sai reimpressa pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, em parceria com o Centro de Estudos de História do Atlântico, da Ilha da Madeira. Mais uma vez, temos de lá, da outra margem do Atlântico, exemplos de competência e bem-fazer. A explicação mais prosaica fica pelo fato de que o restaurador era natural dessa ilha, filho de um português com "uma mulata rameira a quem chamam a Bem-feitinha" -pelo menos segundo um testemunho da época. O livro é uma beleza.
Aos dez anos, João Fernandes Vieira imigrou para Pernambuco. Humilde, trabalhou no comércio em Olinda, tendo ajudado na resistência à invasão holandesa em 1630. Alguns anos depois, no entanto, se associou a um holandês, colaborando e enriquecendo com as oportunidades criadas pela Companhia das Índias Ocidentais. Sua vida daria ainda outra guinada, pois seria um dos principais líderes da rebelião contra os holandeses que se iniciou em 1645, após a partida de Nassau. Teve então de abandonar as propriedades e engenhos que granjeou neste período. Feito governador da "Guerra da Liberdade Divina", esteve à frente de importantes episódios.
Depois de 1654, recuperou seus bens e foi nomeado governador da Paraíba (1655-57) e de Angola (1658-61), entre outros cargos. Sua ascensão social é resultado de uma bem-sucedida estratégia, na qual juntou ao prestígio econômico o apoio da "nobreza da terra" pernambucana, casando-se com dona Maria César, neta de Jerônimo de Albuquerque (cunhado de Duarte Coelho, primeiro donatário de Pernambuco).
Desconfiando do juízo da história, Vieira encomendou, ainda em vida, que lhe fosse feita a biografia ou, ao menos, a crônica de sua participação nas guerras holandesas. Tais são os livros de frei Manuel Calado, Diogo Lopes de Santiago e de frei Rafael de Jesus. Calculo que importava também para a demanda das mercês régias. Afinal, era da graça do soberano que dependia, em última instância, a posição que alcançara.
José Antônio Gonsalves de Mello não apenas reuniu tais documentos ao muito que já se havia escrito sobre esse nosso herói um pouco "oportunista": fez um estudo precioso e completo das várias fontes históricas que lhe dizem respeito. Com relação à série dos papéis avulsos do fundo do Conselho Ultramarino, no Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa, vale destacar que este é o primeiro (e por muito tempo o único) trabalho de nossa historiografia que se utilizou dessas fontes de forma dedicada. No prefácio ao seu livro sobre o "Tempo dos Flamengos" (José Olympio, 1947), Gonsalves de Mello define-se, sem falsa humildade, como "simples pesquisador -pesquisador cheio de interesse pelo social e pelo humano e olhando com olhos de míope para o que seja meramente político ou administrativo ou de puro aspecto cronológico". A paixão pelo documento levou-o a realizar missões em arquivos da Europa, em busca de informações e cópias de papéis pertinentes à história do Nordeste.
Sua missão de 1951-52, em Portugal, nos arquivos da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional de Lisboa, da Ajuda, de Évora e do Porto, havia sido patrocinada pelo reitor Joaquim Amazonas, da então Universidade do Recife. O objetivo era municiá-lo para a redação de uma série biográfica dos restauradores de Pernambuco. Com efeito, por ocasião das comemorações do tricentenário da restauração, em 1954, Gonsalves de Mello publicou as biografias de Francisco de Figueroa, Antônio Dias Cardoso, Henrique Dias, dom Antônio Felipe Camarão, Felipe Bandeira de Melo e frei Manoel Calado do Salvador (todas pela Universidade do Recife, 1954). Dois anos depois, publicaria a biografia de João Fernandes Vieira, em dois volumes. As de Francisco Barreto de Menezes, André Vidal de Negreiros e de Martim Soares Moreno, igualmente previstas, não foram concluídas.
A biografia de João Fernandes Vieira difere não só por ser mais completa e extensa que as demais, mas por tratar -com nova e abundante documentação de arquivos do Brasil e Europa- de diversos episódios da presença holandesa no Brasil e da história de Pernambuco no século 17, entre eles, por exemplo, uma importante discussão das causas da eclosão do movimento restaurador em 1645. Todavia, como já foi notado, o estudo peca pela pouca importância dada aos episódios da recolonização luso-brasileira em Angola. Em verdade, a "escola pernambucana", atenta às glórias do episódio da restauração, não tem dado a devida atenção ao desenrolar dos episódios na outra margem do Atlântico. Assim, a biografia de Gonsalves de Mello não se preocupa muito com o tempo em que Vieira fora governador de Angola, entre os anos 1658 e 1661, título que obtivera como remuneração pelos serviços prestados na guerra contra os holandeses. Das cerca de 480 páginas de sua biografia, apenas 26 são dedicadas ao período. O recente livro de Luiz Felipe de Alencastro mostra que nesses anos se revelaria parte da trama que unira Angola ao Brasil e constituíra um grupo de luso-brasileiros diretamente interessados no controle dos negócios africanos, notadamente do tráfico de escravos.
Nada, contudo, pode nublar tamanho esforço. O livro não apenas é magnífico, como sua escrita agrada a nosso espírito moderno. Em poucas palavras: uma obra-prima. A série sobre os restauradores de Pernambuco ("um dicionário biográfico de um episódio", nas palavras de J. H. Rodrigues) não encontra paralelo na historiografia brasileira, pela sua extensão e importância. Escapando do interesse personalista ou do retrato político das biografias que pipocaram na primeira metade deste nosso século, Gonsalves de Mello faz, ao contrário, por meio de enfoque individual, uma verdadeira história social do episódio da restauração. Condensando dois volumes em um só, esta edição ainda supera a "princeps", não apenas pela beleza da composição, como pelo fato de nos oferecer as notas no rodapé, cortesia que nossos modernos editores já não têm prestado ao leitor. Que, por sua vez, parece cada vez mais desinteressado em valorar essas pequenas coisas. Que desgosto!
João Fernandes Vieira - Mestre-de-Campo do Terço de Infantaria de Pernambuco
José Antônio Gonsalves de Mello CNCDP/CEHA (Portugal, tel. 0/xx/ 351/21/881-0900) 488 págs., 3.780 escudos
Pedro Puntoni é professor de história do Brasil na USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).