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Lúcia Nagib - 64 - Julho de 2000
Um militante do cinema
Foto do(a) autor(a) Lúcia Nagib

Textos mostram criação do Cinema Novo
Um militante do cinema

LÚCIA NAGIB 

"Sonho" parece uma palavra adequada para caracterizar a obra e as atividades de Alex Viany. Boa parte de sua vasta produção como jornalista, historiador, cineasta e ardoroso militante do cinema brasileiro ficou marcada pela incompletude ou pela insatisfação do autor. A obra concreta sempre esteve aquém do sonho do grande cinema (ou do grande país) que a alimentou.
"O Processo do Cinema Novo" é exemplo disso. Iniciado em 1962 como uma ampla coletânea de materiais e entrevistas com os diretores do cinema novo e projetado como livro no começo dos anos 80, acabou não vendo a luz antes da morte do autor, em 1992. Segundo narra Avellar, a partir de conversas pessoais, Viany considerava o livro "um material bruto que ainda precisava de um bom montador".
É curioso observar que o sentimento de insatisfação não emanava apenas de um autor devidamente imbuído de modéstia, mas frequentemente também da crítica e do público. Após "Agulha no Palheiro", de 1952, seu primeiro filme como diretor, que obteve razoável sucesso, "Rua sem Sol" (1955), "Sol sobre a Lama" (1975-78) e mesmo "A Noiva da Cidade" (1978), baseado em roteiro de seu ídolo Humberto Mauro, foram retumbantes fracassos.
Até mesmo Paulo Emilio Salles Gomes, reverenciado por Viany e compartilhando com ele a paixão mauriana, escreveu artigos demolidores sobre o livro pioneiro "Introdução à História do Cinema Brasileiro", publicado por Viany em 1959. Ausência de rigor e de vocação para a pesquisa histórica são apenas algumas das acusações feitas por Salles Gomes, que conclui afirmando que "o texto de Alex Viany chama a nossa atenção, justamente, por tudo o que tem de mau" e que suas únicas esperanças eram "os recursos de autocrítica" do autor (1).
Feitas, portanto, as devidas ressalvas, tão ao gosto do próprio Viany, viremos a página e meditemos um pouco sobre a razão pela qual ele se tornou referência indispensável do cinema brasileiro. A explicação está contida, justamente, em "O Processo do Cinema Novo". Trata-se de obra de uma vida, cujo primeiro texto, "Brasileiros no Bom Caminho", foi escrito em 1958 (antes mesmo da "Introdução à História do Cinema Brasileiro"), e o último, em 1987. Por isso oferece em detalhes duas trajetórias emocionantes: o processo de formação do Cinema Novo, com seus jovens cineastas fervilhando de idéias e esperanças, que se manifestam em polêmicas acaloradas entre si e com o entrevistador; e o desenvolvimento da personalidade apaixonada, crente e torturada de Viany. Cada intervenção sua é um manifesto por um cinema brasileiro integral e autêntico, mas cuja força reside em sua improbabilidade.
Desde logo desencantado com seu talento de cineasta, Viany mergulhou de corpo e alma na criação de um novo cinema no Brasil, seguindo passo a passo, como insuflador e crítico sincero, os jovens diretores do cinema novo. Imbuído de um projeto nacionalista resultante da militância comunista e medindo a "brasilidade" das obras mediante critérios dos mais duvidosos -por exemplo, a influência do neo-realismo italiano era bem-vinda, enquanto a da "nouvelle vague" francesa era rechaçada-, Viany criava discussões que forçavam os cineastas a tomar consciência de seu próprio trabalho e afinarem suas idéias.
É de Leon Hirszman o testemunho emocionado de 1983: "Eu lia sempre você. Era como se fosse um guia pra mim. Depois de um certo momento, para acompanhar a evolução do cinema, a história do cinema brasileiro (...), era você, Alex, o único solitário, aqui, capaz de compreender o processo do cinema brasileiro de uma forma generosa e ampla e, ao mesmo tempo, ter uma atitude crítica sobre o cinema internacional (...), visto de uma perspectiva histórica, e não de uma perspectiva de mercado" (pág. 286). E vem de Nelson Pereira dos Santos a constatação de 1974: ""Agulha no Palheiro", que transamos juntos, foi uma porta. Você acha que eu poderia ter feito "Rio, 40 Graus" sem "Agulha no Palheiro'?" (pág. 196).

Prova de visão
É tocante ver como Viany fareja um grande talento na primeira obra de um jovem mal entrado na casa dos 20, chamado Glauber Rocha. Trata-se de "Barravento", cujo protagonista Firmino é desde logo elevado por ele a "uma das figuras mais complexas e fascinantes em toda a história do cinema brasileiro". Após tal prova de visão, tornam-se quase perdoáveis escorregões como a crítica (de caráter populista) à dificuldade de comunicação do filme com uma platéia mais ampla. O texto seguinte, um debate com Glauber Rocha, Walter Lima Jr., David Neves e Leon Hirszman a respeito de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (já publicado em livro anteriormente, mas essencial nesse conjunto de textos), contraria tal objeção, pois é prova cabal do esforço de Glauber em compreender o povo brasileiro no lugar onde a opressão e o conflito de classes se tornam mais evidentes, ou seja, no sertão seco do Nordeste.
Não obstante Viany não abandona sua crítica à dificuldade de comunicação, tornando-se mesmo implacável, conforme os cineastas se tornam mais fragmentários e auto-reflexivos (portanto, difíceis) a partir de 1970. Disso, porém, resultam algumas das discussões mais interessantes do livro.
Um debate com Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Sergio Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade, realizado em 1974, lhe dá a oportunidade não apenas de enumerar suas restrições a filmes como "Quem É Beta?" (Pereira dos Santos), "Os Inconfidentes" (Joaquim Pedro), "Toda Nudez Será Castigada" (Arnaldo Jabor), "Joana Francesa" (Diegues), entre outros, mas de os cineastas se defenderem sem papas na língua. A visão da cultura francesa como antagônica à brasileira se cristaliza: "De repente, começo a notar que o cinema brasileiro virou francês!" é a acusação indignada de Viany (pág. 211).
Ao que os cineastas reagem com veemência. Carlos Diegues desconfia de seus critérios "nacionais": "As imagens, os signos palpáveis, tangíveis da cultura brasileira (...) não são eternos. (...) O filme de Nelson ("Quem É Beta?') não é nacional por quê? Por que não tem (...) os signos que nós estamos acostumados a conhecer como da cultura nacional? Quer dizer, por que não tem o chapéu de cangaceiro e a conta dos beatos?" (pág. 221). E Joaquim Pedro aponta o caráter retrógrado das restrições de Viany: "No momento em que pinta a gente para combater os caras com o mínimo das armas que eles têm, com o mínimo da tecnologia, você diz assim: "Não, brasileiro tem que ser com arco e flecha!". Quer dizer, no Brasil a gente teria de fazer sempre "Vidas Secas'" (pág. 220).
Viany se desespera, argumenta, se confunde, se perde... Tudo isso está registrado com todas as idas e vindas, repetições e elipses do discurso oral, para que o leitor tenha uma visão imparcial dos fatos e tome o partido que lhe convier. O bonito em "O Processo do Cinema Novo" é, justamente, registrar por inteiro o embate de peito aberto entre adversários que se amam, ou melhor, entre os membros da família do barulho que construiu (e constrói) o cinema brasileiro.



O Processo do Cinema Novo - Alex Viany
José Carlos Avellar (org.)
Aeroplano (Tel. 0/xx/21/259-6974)
524 págs., R$ 29,50



Nota:
1. Cf. Paulo Emilio Salles Gomes, "Decepção e Esperança", in "Crítica de Cinema no Suplemento Literário", (Embrafilme/ Paz e Terra), vol. 2, págs. 150-155.

Lúcia Nagib é professora de cinema na Pontifícia Universidade Católica (SP) e na Universidade Estadual de Campinas. É autora, entre outros livros, de "Nascido das Cinzas: Autor e Sujeito nos Filmes de Oshima"(Edusp). 

Lúcia Nagib professora de cinema da PUC-SP
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