

Textos mostram criação do Cinema Novo
Um militante do cinema
LÚCIA NAGIB
"Sonho" parece uma palavra adequada para caracterizar a obra e as atividades de Alex Viany. Boa parte de sua vasta produção como jornalista, historiador, cineasta e ardoroso militante do cinema brasileiro ficou marcada pela incompletude ou pela insatisfação do autor. A obra concreta sempre esteve aquém do sonho do grande cinema (ou do grande país) que a alimentou.
"O Processo do Cinema Novo" é exemplo disso. Iniciado em 1962 como uma ampla coletânea de materiais e entrevistas com os diretores do cinema novo e projetado como livro no começo dos anos 80, acabou não vendo a luz antes da morte do autor, em 1992. Segundo narra Avellar, a partir de conversas pessoais, Viany considerava o livro "um material bruto que ainda precisava de um bom montador".
É curioso observar que o sentimento de insatisfação não emanava apenas de um autor devidamente imbuído de modéstia, mas frequentemente também da crítica e do público. Após "Agulha no Palheiro", de 1952, seu primeiro filme como diretor, que obteve razoável sucesso, "Rua sem Sol" (1955), "Sol sobre a Lama" (1975-78) e mesmo "A Noiva da Cidade" (1978), baseado em roteiro de seu ídolo Humberto Mauro, foram retumbantes fracassos.
Até mesmo Paulo Emilio Salles Gomes, reverenciado por Viany e compartilhando com ele a paixão mauriana, escreveu artigos demolidores sobre o livro pioneiro "Introdução à História do Cinema Brasileiro", publicado por Viany em 1959. Ausência de rigor e de vocação para a pesquisa histórica são apenas algumas das acusações feitas por Salles Gomes, que conclui afirmando que "o texto de Alex Viany chama a nossa atenção, justamente, por tudo o que tem de mau" e que suas únicas esperanças eram "os recursos de autocrítica" do autor (1).
Feitas, portanto, as devidas ressalvas, tão ao gosto do próprio Viany, viremos a página e meditemos um pouco sobre a razão pela qual ele se tornou referência indispensável do cinema brasileiro. A explicação está contida, justamente, em "O Processo do Cinema Novo". Trata-se de obra de uma vida, cujo primeiro texto, "Brasileiros no Bom Caminho", foi escrito em 1958 (antes mesmo da "Introdução à História do Cinema Brasileiro"), e o último, em 1987. Por isso oferece em detalhes duas trajetórias emocionantes: o processo de formação do Cinema Novo, com seus jovens cineastas fervilhando de idéias e esperanças, que se manifestam em polêmicas acaloradas entre si e com o entrevistador; e o desenvolvimento da personalidade apaixonada, crente e torturada de Viany. Cada intervenção sua é um manifesto por um cinema brasileiro integral e autêntico, mas cuja força reside em sua improbabilidade.
Desde logo desencantado com seu talento de cineasta, Viany mergulhou de corpo e alma na criação de um novo cinema no Brasil, seguindo passo a passo, como insuflador e crítico sincero, os jovens diretores do cinema novo. Imbuído de um projeto nacionalista resultante da militância comunista e medindo a "brasilidade" das obras mediante critérios dos mais duvidosos -por exemplo, a influência do neo-realismo italiano era bem-vinda, enquanto a da "nouvelle vague" francesa era rechaçada-, Viany criava discussões que forçavam os cineastas a tomar consciência de seu próprio trabalho e afinarem suas idéias.
É de Leon Hirszman o testemunho emocionado de 1983: "Eu lia sempre você. Era como se fosse um guia pra mim. Depois de um certo momento, para acompanhar a evolução do cinema, a história do cinema brasileiro (...), era você, Alex, o único solitário, aqui, capaz de compreender o processo do cinema brasileiro de uma forma generosa e ampla e, ao mesmo tempo, ter uma atitude crítica sobre o cinema internacional (...), visto de uma perspectiva histórica, e não de uma perspectiva de mercado" (pág. 286). E vem de Nelson Pereira dos Santos a constatação de 1974: ""Agulha no Palheiro", que transamos juntos, foi uma porta. Você acha que eu poderia ter feito "Rio, 40 Graus" sem "Agulha no Palheiro'?" (pág. 196).
Prova de visão
É tocante ver como Viany fareja um grande talento na primeira obra de um jovem mal entrado na casa dos 20, chamado Glauber Rocha. Trata-se de "Barravento", cujo protagonista Firmino é desde logo elevado por ele a "uma das figuras mais complexas e fascinantes em toda a história do cinema brasileiro". Após tal prova de visão, tornam-se quase perdoáveis escorregões como a crítica (de caráter populista) à dificuldade de comunicação do filme com uma platéia mais ampla. O texto seguinte, um debate com Glauber Rocha, Walter Lima Jr., David Neves e Leon Hirszman a respeito de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (já publicado em livro anteriormente, mas essencial nesse conjunto de textos), contraria tal objeção, pois é prova cabal do esforço de Glauber em compreender o povo brasileiro no lugar onde a opressão e o conflito de classes se tornam mais evidentes, ou seja, no sertão seco do Nordeste.
Não obstante Viany não abandona sua crítica à dificuldade de comunicação, tornando-se mesmo implacável, conforme os cineastas se tornam mais fragmentários e auto-reflexivos (portanto, difíceis) a partir de 1970. Disso, porém, resultam algumas das discussões mais interessantes do livro.
Um debate com Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Sergio Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade, realizado em 1974, lhe dá a oportunidade não apenas de enumerar suas restrições a filmes como "Quem É Beta?" (Pereira dos Santos), "Os Inconfidentes" (Joaquim Pedro), "Toda Nudez Será Castigada" (Arnaldo Jabor), "Joana Francesa" (Diegues), entre outros, mas de os cineastas se defenderem sem papas na língua. A visão da cultura francesa como antagônica à brasileira se cristaliza: "De repente, começo a notar que o cinema brasileiro virou francês!" é a acusação indignada de Viany (pág. 211).
Ao que os cineastas reagem com veemência. Carlos Diegues desconfia de seus critérios "nacionais": "As imagens, os signos palpáveis, tangíveis da cultura brasileira (...) não são eternos. (...) O filme de Nelson ("Quem É Beta?') não é nacional por quê? Por que não tem (...) os signos que nós estamos acostumados a conhecer como da cultura nacional? Quer dizer, por que não tem o chapéu de cangaceiro e a conta dos beatos?" (pág. 221). E Joaquim Pedro aponta o caráter retrógrado das restrições de Viany: "No momento em que pinta a gente para combater os caras com o mínimo das armas que eles têm, com o mínimo da tecnologia, você diz assim: "Não, brasileiro tem que ser com arco e flecha!". Quer dizer, no Brasil a gente teria de fazer sempre "Vidas Secas'" (pág. 220).
Viany se desespera, argumenta, se confunde, se perde... Tudo isso está registrado com todas as idas e vindas, repetições e elipses do discurso oral, para que o leitor tenha uma visão imparcial dos fatos e tome o partido que lhe convier. O bonito em "O Processo do Cinema Novo" é, justamente, registrar por inteiro o embate de peito aberto entre adversários que se amam, ou melhor, entre os membros da família do barulho que construiu (e constrói) o cinema brasileiro.
O Processo do Cinema Novo - Alex Viany
José Carlos Avellar (org.)
Aeroplano (Tel. 0/xx/21/259-6974)
524 págs., R$ 29,50
Nota:
1. Cf. Paulo Emilio Salles Gomes, "Decepção e Esperança", in "Crítica de Cinema no Suplemento Literário", (Embrafilme/ Paz e Terra), vol. 2, págs. 150-155.
Lúcia Nagib é professora de cinema na Pontifícia Universidade Católica (SP) e na Universidade Estadual de Campinas. É autora, entre outros livros, de "Nascido das Cinzas: Autor e Sujeito nos Filmes de Oshima"(Edusp).