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Cibele Saliba Rizek - 28 - Julho de 1997
Um novo começo
Foto do(a) autor(a) Cibele Saliba Rizek

Um novo começo

 

CIBELE SALIBA REZEK

Alguns autores se notabilizam pela percepção de temas que, por sua oportunidade, colocam em discussão o tempo presente, expondo algumas de suas fraturas. É o caso de G. Arbix, que se propôs a refletir sobre a câmara setorial da indústria automobilística, investigar seus significados e dimensões, "esmiuçar as razões" de cada um dos atores, bem como dos processos que permitiram e dificultaram os horizontes de negociação.
Este livro pretende caracterizar as relações entre capital, trabalho e Estado no Brasil, nos momentos críticos dos anos 90. O caráter de "aposta no futuro", a "possibilidade de um novo começo", dentro do marco destas relações, sinaliza uma promessa, como quer o título, nos anos difíceis subsequentes à "década perdida".
Entre 1980 e 1990, configurou-se uma transição política que Arbix qualifica como "tímida e conservadora". Do enfrentamento passou-se à negociação tripartite: os atores vislumbraram uma arena onde a interlocução foi possível, algo quase impensável no período anterior. O que está em questão é o fato de esta cena se desenrolar em meio a uma crise decisiva, num país onde as matrizes excludentes estavam consolidadas, em pleno período de declínio mundial do emprego. Entre seus resultados, o nível de emprego na cadeia automotiva chega até mesmo a aumentar. Apesar da crise, a participação do setor no PIB alcança seus melhores resultados entre 1993 e 1994, permitindo uma reestruturação produtiva negociada. "Mas o que teria aproximado velhos oponentes, depois de uma longa e dissonante história, como se num instante de lucidez tivessem descoberto que a verdade de cada um habitava seu inimigo?" -eis a pergunta central de Arbix. Ela vai sendo respondida pela demonstração de que os episódios descritos e analisados marcam uma inflexão na história de cada um dos atores, constituindo uma esfera institucional inequivocamente democratizante.
A novidade radical das câmaras setoriais reside na presença do terceiro ator -as representações sindicais dos trabalhadores- nas mesas de negociação que instituíram uma bem-sucedida política industrial para o setor. Esta novidade se transforma num caso de "mesocorporatismo", uma forma inédita de sua qualificação no contexto brasileiro. Arbix tem consciência das virtudes e limitações de alcance dos operadores teóricos escolhidos. Falta a eles "uma visão geral do Estado na sociedade capitalista" e esta carência parece remeter à forma de caracterização e compreensão das transformações do lugar e do papel do Estado, de seus vínculos com os interesses privados, da coexistência de estruturas diversificadas e submetidas a comandos conflitantes. Como resultante, Arbix acaba por desenhar uma saída pela escolha entre posições diferentes, marcadas pelo contraponto entre "capitalismo organizado" e "corporatismo moderno", a partir da noção de "reorganização estrutural".
O ineditismo da câmara da indústria automobilística colocou um campo de debates novo, de difícil interpretação, se confrontado com a história das relações capital/trabalho no Brasil. As dificuldades de compreensão residem especialmente na fusão e entrelaçamento das formas de consentimento e confronto, consenso e dissenso, bem como na sua explicitação. Arbix dá conta deste conjunto de processos com uma pesquisa bem-delineada, que apresenta os dados e as ambiguidades a partir do material coletado, traçando os dilemas com que se defrontam os atores, entre eles a questão da arrecadação de impostos. A demonstração de que, a partir da superação das metas de produtividade, a arrecadação de impostos cresceu contrapõe-se ao fato de que parte significativa dos delegados ao 5º Congresso da CUT avaliava "que a população em geral sai perdendo com as câmaras", mesmo que elas tornassem melhor a vida dos trabalhadores do setor.
Há ainda uma outra questão que se anuncia com clareza: o ineditismo de um mecanismo institucional, a partir do qual o movimento sindical pôde sair do lugar em que historicamente foi colocado, e, desta forma, falar para o conjunto da sociedade. Assim, a inclusão das câmaras, não sem problemas, no programa de governo do candidato Luís Inácio Lula da Silva, não foi fortuita. Tampouco a dissolução de seu horizonte de ação a partir do plano Real, bem como ao longo do governo FHC.
É ainda no quadro deste tipo de análise que foi possível qualificar a interlocução desenvolvida com sucesso, nos anos 1993/1994, como "quase pública". "Quase", porque corporatista, mais precisamente "mesocorporatista". O "quase público" se refere ao hibridismo das relações entre Estado e sociedade, marcado por um movimento pendular entre pluralismo e corporatismo? Como se identificam ou se diferenciam "público", "quase público" e "Estado"? Pode-se caracterizar como pública pela metade a conquista do poder de fala e da possibilidade de ser ouvido na elaboração de uma política industrial setorial? O que falta para sua inteira publicização?
Se, de um lado, o reconhecimento desta "metonímia social", promovido pelas instâncias neocorporatistas, enriquece e precisa os ângulos de abordagem, por outro, colocam-se dilemas que Arbix aponta de modo claro, crítico e, em certa medida, melancólico, diante do esvaziamento da câmara do setor automotivo. A combinação de processos de confronto e de consenso, bem como os conflitos anteriores, permitindo a presença dos trabalhadores como interlocutores qualificados na câmara setorial, pode ser enunciada como possibilidade de constituição de uma esfera inteiramente pública de legitimidade e visibilidade, de negociação e democratização.
Deste ângulo, as câmaras são "também" neocorporatistas e mesocorporatistas, porque, ao explicitar interesses -conferindo-lhes medida, explicitando negociações-, demonstraram que, como formula Arbix, "a democracia é capaz de estimular positivamente a economia". 

Cibele Saliba Rizek é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
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