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Renan S. de Freitas - 63 - Junho de 2000
Uma antropologia da ciência
Foto do(a) autor(a) Renan S. de Freitas

Uma antropologia da ciência

Ciência em Ação
Bruno Latour
Tradução: Ivone C. Benedetti
Editora Unesp (Tel. 0/xx/11/232-7171)
438 págs., R$ 39,00

RENAN S. DE FREITAS

Nos anos 70, o filósofo da ciência Paul Feyerabend ganhou notoriedade ao declarar, em seu controvertido livro "Contra o Método", que a ciência deve guiar-se por um único princípio: "vale tudo". O cientista, ele diz, deve sentir-se livre para violar qualquer prescrição metodológica, por mais fundamental e necessária que se afigure para a ciência. Há, entretanto, uma restrição: é importante ser persuasivo e, para tanto, é necessário saber o que a audiência está predisposta a aceitar como um bom argumento. De nada adianta estar com a razão se a audiência nos vira as costas. Conclusão: o cientista pode fazer o que quiser, desde que seja capaz de convencer os colegas e arregimentá-los para a sua causa.
Em "Ciência em Ação", Bruno Latour nos oferece uma reedição desse argumento. Ele está interessado em saber como os cientistas conseguem persuadir as pessoas e arregimentar aliados -um homem sozinho, ele diz, ainda que se chame Galileu, só constrói sonhos. Mas, dessa premissa trivialmente correta de que nem mesmo um Galileu pode ir muito longe, se ninguém lhe der ouvidos, ele saltou para a conclusão de que a única coisa que conta em ciência é forjar alianças e convencer. Daí, ele propôs que o que há de verdadeiramente importante para ser investigado a respeito da ciência é como os cientistas silenciam seus adversários. Eis a resposta de Latour: os cientistas silenciam seus oponentes elevando os custos da discordância.
E como se eleva o custo de uma discordância? Estabelecendo um vínculo entre o objeto da discordância e outros elementos, de tal forma que, se o discordante quiser manter seu ataque, terá que romper esse vínculo. Quanto mais numerosos forem os vínculos, mais trabalho o discordante terá para quebrá-los e, portanto, mais provável será sua desistência.
Para esclarecer esse ponto, vou tomar como exemplo o que eu próprio fiz até aqui. Para criticar Latour, eu estabeleci um vínculo entre o livro dele e o de Feyerabend. Ao estabelecer tal vínculo, diria Latour, eu dificultei a discordância de um leitor que jamais tenha lido Feyerabend. "Forjei" uma aliança com Feyerabend. Uma vez estabelecida tal aliança, a discordância tornou-se mais dispendiosa para o discordante: para me atacar, ele terá agora que ler, além de "Ciência em Ação", "Contra o Método". Se, além de citar Feyerabend, eu argumentasse que Latour não faz mais do que repetir algo que um determinado pensador tcheco, desconhecido no Brasil, já disse há mais de 50 anos, o discordante teria que estudar tcheco para continuar discordando! Isso poderia conduzi-lo à desistência. Mas há ainda uma saída: ele pode dizer que me escapou o fato de que, na verdade, Latour está aperfeiçoando o pensamento de um autor russo da maior importância. Isso me obrigaria a estudar tal pensamento. E assim por diante.
Uma vez que Latour quer saber como são encerrados os debates em ciências naturais, o que aparece em sua discussão não são meus hipotéticos pensadores tcheco e russo, mas fotografias, representações gráficas obtidas mediante aparelhos extremamente sofisticados, fórmulas matemáticas que poucas pessoas são capazes de compreender, a construção de novos laboratórios etc.
Eis a lição que Latour quer tirar de tudo isso: não é a natureza que dirime as controvérsias científicas, mas sim a habilidade dos cientistas em forjar alianças e silenciar seus pares. Latour acha esse ponto tão importante que chega a dizer que o livro como um todo está em perigo se isso não for verdade. Se é a natureza que dirime controvérsias, ele diz, então seu livro "só dá atenção a bagatelas e adendos". Não vou aqui discutir se é ou não a natureza que dirime controvérsias porque, sendo isso verdade ou mentira, toda a discussão de Latour assenta, a meu ver, em um erro colossal: o de supor que o que há de importante em relação às teorias científicas é o fato de haver pessoas convencidas de sua validade, que tudo o que há para fazer em relação a uma teoria é acreditar nela ou não.
A Latour escapou o fato de que, acreditando ou não em uma determinada teoria, estando ou não persuadido de sua validade, alguém pode tentar aprender algo a partir dela ou explorar suas implicações. Ao incorrer nesse erro de supor que o dilema fundamental que um cientista enfrenta é o de decidir em quem deve acreditar, Latour acabou por se prender a irrelevâncias. Ele se perguntou como controvérsias são dirimidas, mas não se perguntou qual é a importância, para o desenvolvimento da ciência, que controvérsias sejam dirimidas. Na biologia não há qualquer consenso sobre o que se deve entender por "espécie", um conceito absolutamente fundamental, e esta ciência, pelo que sei, não está parada por causa disso.
Não há mérito em (nem espaço para) multiplicar exemplos. Meu ponto é: não é importante que controvérsias sejam dirimidas. Controvérsias, se se pode assim dizer, não existem para serem dirimidas, mas para que se possa aprender algo importante a partir delas. Desse ponto de vista, examinar como uma controvérsia foi dirimida, sem dizer o que se aprendeu a partir dela, é torná-la uma mera curiosidade. Talvez Latour pudesse se defender afirmando que "o estado atual de coisas é, em parte, consequência da resolução de muitas controvérsias como a dos raios N!". Eu estaria bem mais satisfeito se Latour tivesse se limitado a mostrar como algum "estado de coisas" atual resultou de alguma controvérsia do passado. Tal exercício talvez pudesse levá-lo a ver que o exame de como controvérsias são dirimidas não é tão importante quanto ele supõe.
De qualquer forma, quero encerrar esta resenha citando o caso de um autor que realmente quis mostrar como um determinado "estado de coisas" atual resultou de uma controvérsia do passado. Refiro-me ao historiador da imunologia, Alfred Tauber, que examinou a controvérsia, ocorrida no início deste século, entre Metchnikoff e Haeckel, para saber o que foi possível aprender a partir dela. Isso o levou a perguntar como um determinado problema, impensável na época de Pasteur e de Koch, passou a ser crucial para a imunologia moderna: entender como o sistema imunológico "distingue" o que é próprio do que é estranho ao organismo. Se se trata de dizer algo importante sobre a ciência, penso que entender processos dessa natureza, isto é, entender como indagações que sequer poderiam ser entendidas pelos mais expressivos cientistas do passado passaram a ser de fundamental importância para as investigações atuais, é bem mais importante do que qualquer coisa que Latour possa ter a oferecer em seu livro.


Renan Springer de Freitas é professor de sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais.

Renan S. de Freitas é professor de sociologia da UFMG.
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