

Uma cartografia poética do Brasil
AUGUSTO MASSI
Escrever cartas é uma arte. Exige um temperamento especial munido tanto da concentração para discorrer sobre assuntos de interesse geral quanto de uma distenção do espírito que favoreça a expansão da personalidade. Este é o caso de "Uma Arte", que reúne a correspondência de Elizabeth Bishop (1911-1979), uma das principais vozes da poesia norte-americana moderna. Publicada nos Estados Unidos em 1994, a edição brasileira vem acrescida de uma sexta parte, em que figuram cartas inéditas. Ao longo das quase 800 páginas, Bishop dá provas de que foi missivista com o mesmo empenho dedicado à poesia.
Vários livros convivem dentro de "Uma Arte". Antes de qualquer coisa, deve ser lido como a autobiografia da "pessoa mais solitária que jamais viveu", conforme disse ao seu melhor amigo, o poeta Robert Lowell. A perda inesperada dos pais lançou Bishop, aos cinco anos de idade, na busca permanente de um lar. O constante isolamento em que viveu, talvez explique a sua motivação e a sua voracidade epistolar. Consta que chegou a escrever 40 cartas num único dia.
"Uma Arte" também pode ser lido como um romance de formação. De um lado, fornece um minucioso panorama da cultura americana dos anos 30 até 50. Página a página há um registro crítico das leituras de poesia, das atividades da geração de poetas encabeçada por W.C. Williams, Wallace Stevens e Marianne Moore, da agenda cultural do Museu de Arte Moderna de Nova York, das grandes exposições da National Gallery de Washington, da consolidação de revistas como "Partisan", "New Yorker" e "Poetry", do percurso crítico de Edmund Wilson, Randall Jarrell e Alfred Kazin e da importância das bolsas e dos prêmios literários para a normalização da vida literária.
De outro lado, reflete sistematicamente sobre a formação intelectual de uma jovem poeta. Uma leitura atenta delineia os contornos do reservado universo poético de Bishop e corrobora a máxima de T.S. Eliot sobre tradição e talento individual: "Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte, tem seu pleno significado sozinho". Fica claro que Bishop bebeu na fonte de G.M. Hopkins, foi literalmente orientada e adotada por Marianne Moore, que reelaborou procedimentos de Wallace Stevens ("a maneira como ele exibe as idéias em funcionamento"), dialogou com Robert Lowell e influenciou novos poetas como Mark Strand.
Outra possibilidade de leitura é filiar "Uma Arte" aos livros de viagem. O movimento geral sinaliza para uma educação do olhar. Bishop encarna uma espécie de antropologia poética demonstrando profunda fidelidade ao trabalho de campo. À maneira dos antropólogos, disciplinou sua observação, dotando-a de uma força descritiva incomum. O demônio da curiosidade principia com o livro da natureza. Cataloga a flora e a fauna usando lentes de um viajante naturalista: pombos, camelos, gatos, focas, cegonhas, corujas, camaleões, salamandras, pôneis, tucanos, vagalumes etc. É sempre bom lembrar que, no Brasil, ela leu Darwin, Richard Burton e Charles Wagley.
As cartas atuam como cadernos de notas. Assim ficamos sabendo que "Alce", publicado em "Geografia 3" (1976), é a reconstituição extremada de um episódio passado na Nova Escócia. Absolutamente tudo é desentranhado da experiência concreta. Quem poderia imaginar que a senhora Bishop adorava pescar? A partir da correspondência ficamos sabendo que "O Peixe", escrito em 1940, retrabalhado e incluído em "Norte & Sul" (1946), não emergiu de pescarias metafóricas.
"Uma Arte" ainda é a história de uma paixão. Segundo palavras de Bishop, ela viveu ao lado de Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, ou simplesmente, Lota, "os 12 ou 13 anos mais felizes de minha vida". O relacionamento que começou em 1951, no Rio de Janeiro, terminou tragicamente com o suicídio de Lota, em Nova York, em 1967. A quem quiser conhecer maiores detalhes dessa história, recomendo o romance biográfico "Flores Raras e Banalíssimas", escrito por Carmen L. Oliveira. A autora colheu depoimentos de amigos que privaram do cotidiano do casal na fazenda Samambaia, em Petrópolis. Além disso, pela primeira vez, alguém teve acesso a correspondência de Lota.
Por último, a obra pode ser lida como uma análise da vida cultural e política brasileira. Diria que "Uma Arte" mimetiza em vários momentos a prosa memorialística de "Minha Vida de Menina" (1942), de Alice Caldeira Brandt, livro que Bishop tomou como tarefa pessoal traduzir para o inglês. Este fato, talvez, esclareça um dos aspectos mais curiosos de sua poesia: a paisagem espacial sempre adota a configuração da memória. A geografia muitas vezes se confunde com a história. Uma história na qual os grandes acontecimentos da política brasileira são narrados segundo uma ótica interessada na nossa singularidade, mas sem cair no conto terceiro-mundista.
As observações de Bishop são agudas, já em 1954, era capaz de afirmar: "Como país, acho que o Brasil não tem saída -não é trágico como o México, mas apenas letárgico, egoísta, meio autocomplacente, meio maluco. Os Estados Unidos estão vivendo uma crise moral terrível no momento, mas acho que se tornaram uma grande nação (...) por causa do imenso ímpeto moral que havia desde o início. Que eu saiba, isto é coisa que nunca houve por estes lados -também nunca houve uma revolução, coisa de que, a meu ver, todo país precisa-, bem sucedida ou fracassada". Ou ainda: "Para mim é muito estranho viver num país onde a classe dominante e a classe intelectual são tão pequenas e todo mundo se conhece e normalmente um é parente do outro. Sem dúvida alguma, isto também é ruim para as artes".
A sua sensibilidade era capaz de abraçar tanto o mito da cordialidade -"O Brasil é de longe o lugar mais democrático que já conheci"- quanto olhar de frente a miséria brasileira em "The Burglar of Babylon". Esta dialética está presente na sua compreensão das chamadas artes menores ou populares, como o circo (no Brasil assistiu ao Circo García), dos pintores primitivos, dos sambas, das marchinhas (comprou uma tuba da bandinha de Ouro Preto), como também no ato de ler sofisticados ensaios de teoria literária como os de William Empson, obras como "Erasmus" e "Homo Ludens" de Huizinga, na sua admiração por Picasso e Calder.
Recentemente, surgiram ensaios e livros sobre a presença de Elizabeth Bishop no Brasil. Entre os que se destacam, mais uma vez, está o nome de Flora Sussekind responsável por dois ótimos textos, "Poesia e Paisagem: o Brasil de Elizabeth Bishop" (1990) e "A Geléia & O Engenho: em torno de uma carta-poema de Elizabeth Bishop a Manuel Bandeira" (1993) (1).
No entanto, muita coisa permanece esquecida, como o excelente artigo de Lucia Miguel Pereira a respeito de "Poems" (1955), no qual afirmava: "O que percebo basta, porém, para confirmar-me a impressão de que o Brasil hospeda hoje -e oxalá o faça por muito tempo- um dos grandes poetas modernos de língua inglesa" (2). Ou ainda "O Realismo Alegórico de Elizabeth Bishop" (3), de Oswaldino Marques, que empreende a difícil tarefa de traduzir "The Man-moth" e "A Miracle for Breakfast", com sugestões e esclarecimentos da própria autora.
A publicação de "Uma Arte", em tradução impecável de Paulo Henriques Britto, é um passo importante no sentido de mapear a presença de Elizabeth Bishop no Brasil. Mas ainda falta o principal, a tradução completa de sua pequena obra poética.
O ato de escrever cartas é sempre uma tentativa de encurtar distâncias, dar notícias, informar sobre nosso destino. As cartas de Bishop são autênticos mapas, além de descreverem o relevo de sua alma acidentada, exibem as camadas geológicas de sua formação poética, entranhada definitivamente na história do Brasil. "Uma Arte" é um retrato notável da vida dessa senhora que sabia que sua história não era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
NOTAS
1. O primeiro ensaio foi publicado na revista "Letterature d'America", nº 41-42, outono 1990. O segundo figura em "Papéis Colados" (Editora UFRJ, 1993).
2. Publicado originalmente no "Suplemento Literário" do "Estado de S. Paulo", em 6/10/1956. Figura no volume "Escritos da Maturidade" (Editora Graphia), reunião dos textos de Lucia Miguel Pereira dispersos na imprensa entre 1944 e 1959.
3. "Ensaios Escolhidos", de Oswaldino Marques (Civilização Brasileira, 1968).