

Uma construção retórica
Guilherme Simões Gomes Júnior
Aleijadinho e o aeroplano: O paraíso barroco e a construção do herói colonial
Guiomar de Grammont
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
320 p., R$ 45,00
A questão Aleijadinho desdobra-se em quatro fases. A primeira, fundada em murmuração local, teve eco em relatos de viajantes que passaram por Minas Gerais no início do século 19, época de notícias recentes, pois o artífice faleceu em 1814. A segunda teve como peça chave a biografia do polígrafo mineiro Rodrigo José Ferreira Bretas, de 1858, texto que se articula à corrente de biografias de homens ilustres do passado e do presente, que foram fundamentais no projeto romântico de edificação nacional. A terceira teve em seu centro o modernismo de 1922, que promoveu uma espécie de “redescoberta” de Minas Gerais e influenciou a definição de uma política pública no Estado Novo, cujo principal agente foi o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e as matérias privilegiadas, o barroco e Aleijadinho. Por fim, a partir do segundo pós-guerra, outra onda de proposições derivou da institucionalização das universidades e da interferência de vários pesquisadores estrangeiros, que deram novos contornos ao problema.
Guiomar de Grammont revisa esse processo e pretende recolocar a questão em outras bases, para desmistificar a figura do herói, mestiço e disforme, precursor da nacionalidade. O esforço intelectual da autora concentra-se em três planos: (a) na demonstração de que a biografia de Bretas forjou a imagem de um homem, quando o que havia era uma legião, e a forja deu a ele uma dimensão ciclópica, em cujo resultado se descortina o mito; (b) na denúncia do caráter anacrônico da idéia de autoria artística na América portuguesa, até o início do século 19; (c) na afirmação de que, naquele lugar e período, a distinção de um artífice derivava da prática da emulação – que promove a diferença engenhosa – e não da vontade de ser original.
Grammont entende que em nenhuma das fases da questão abandonou-se o projeto biográfico e, mesmo quando a revisão das fontes desinflou o personagem, seus traços restaram nítidos, pois ficaram as idéias de genialidade, autoria e originalidade.
“Vidas de artistas”
Uma característica do livro é a não disposição de rever fontes, para não se colocar no âmbito daqueles que disputaram sobre a “verdade” do Aleijadinho. A autora afirma que não pretende trabalhar na zona diferencial entre o “Aleijadinho personagem” e o “Aleijadinho real”, zona em que operaram tanto os “detratores” de Bretas, como aqueles que lhe “deram crédito” parcial, pois quase todos estariam imbuídos da perspectiva ingênua que pressupõe uma “verdade histórica positiva”, calcada em “busca sôfrega nos arquivos”.
Mas a discussão avança – inclusive em direção às teses do livro – por meio das virtudes das pesquisas daqueles que foram aos arquivos. O principal momento em que a autora realiza por seus próprios meios o exame de uma fonte é quando trata da biografia de Bretas. No entanto, abdica de examinar o texto na série histórica das “vidas de artistas” (brasileiras, portuguesas e outras) e procede uma leitura calcada em analogias vagas com elementos achados meio ao acaso: a descrição de Dante feita por Boccaccio, anedotas sobre Zêuxis, episódios relacionados ao Juízo Final, dito de Rafael, os sapatinhos de Cinderela, o conto do rei vaidoso ou introduções dos casos clínicos de Freud. Tudo isso para mostrar os inúmeros disparates – alguns muito curiosos e até divertidos – daqueles que não se deram conta de que estavam diante de uma construção retórica.
No entanto, o problema é mais complexo e não basta encará-lo sob o prisma da denúncia de seus enganos, suas fraudes ou intencionalidades edificantes. Que “vidas de artistas” são retratos encomiásticos cheios de lugares-comuns retirados de tesouros antigos é hoje idéia corrente, mas o maior desafio está em entender sua produtividade. Foi com elas, em suas sucessivas ondas, que se forjou o sistema de idéias sobre o artista no Ocidente, idéias que não apenas povoaram a imaginação do leigo, mas mobilizaram os próprios artistas, por fornecerem modelos de conduta e contribuírem para a formação de um grupo social com alguma consciência de seus interesses.
Além disso, não é nada irrelevante seu papel como fonte de informação. Como foram escritos em regime de concorrência, os retratos foram constantemente revistos e afinados. É o que mostra Andre Chastel ao examinar as diferenças entre a primeira e a segunda edição das Vidas de Vasari; é o que podemos ver em Portugal cotejando as Vidas de Volkmar Machado (1823) e os escritos do conde Raczynski sobre os mesmos artistas (1846); ou no Brasil, alinhando as Vidas que Araújo Porto-Alegre esboçou para constituir uma imaginária “escola de pintura fluminense” (1841) e a certeira retomada do problema promovida por Hannah Levy em A pintura colonial no Rio de Janeiro (1942).
As “vidas” não produziram apenas ilusão, mas também ceticismo e a exigência de novas abordagens. Certamente não foi pouco o que a história social da arte ganhou tanto no exercício de desmontá-las, como na tarefa de entender, por meio delas, contextos e disposições.
O livro de Guiomar de Grammont faz parte de uma corrente que buscou realizar tarefa das mais necessárias. Nesse sentido, teve como objetivo completar um ciclo cuja virtude foi questionar a presença de três figuras exponenciais da América portuguesa na grande teia do imaginário nacional: Antonio Vieira, Gregório de Matos e Antonio Francisco Lisboa. Não por acaso, figuras que foram vítimas de “proliferação surpreendente de imagens”, no processo de trazê-los para o âmbito de artes e letras brasileiras, como gênios precursores. O que foi feito à custa de engano e contradição, mas também de engenho e arte, depois que o barroco deixou de ser escolho e a mestiçagem passou à condição de virtude.
Aleijadinho e o aeroplano vale por isso, porque a tarefa é ingrata, sobretudo depois de Antonio Francisco Lisboa, transfigurado, encontrar lugar tão cômodo no habitus nacional.