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Heloisa Pontes - 63 - Junho de 2000
Uma experiência atual
Foto do(a) autor(a) Heloisa Pontes

Uma experiência atual

 


Antropóloga constata mudanças na imagem tradicional do envelhecimento



A Reinvenção da Velhice: Socialização e Processos de Reprivatização do Envelhecimento
Guita Grin Debert
Edusp (Tel. 0/xx/11/818-4149)
226 págs., R$ 21,00

HELOISA PONTES

Envelhecimento? Eles e elas estão deixando isso para depois. Ou melhor, estão tentando. Já vai longe o tempo em que as mulheres -jovens para os padrões de hoje- se comportavam e eram vistas como irremediavelmente passadas antes mesmo de entrar na casa dos 30. Delas, Gilberto Freyre deixou um retrato delicioso: "Aos 18 atingiam a completa maturidade. Depois dos 20, decadência. Ficavam gordas, moles. Criavam papadas. Tornavam-se pálidas. Ou então murchavam". Largadas, passavam grande parte do dia em casa. De lá só se deixavam tirar "como geléia de uma colher". Mulheres brancas e de elite, da casa-grande e não da senzala, evidentemente, que matronavam rápido e a olhos vistos.
Completamente diversa é a experiência contemporânea do envelhecimento para mulheres e homens -e não só os de elite e das classes altas-, marcada, segundo Guita Debert, pela "reinvenção da velhice". A autora mostra que a velhice e o envelhecimento vêm passando por um processo inédito de socialização e, paradoxalmente, de reprivatização. Expresso, por um lado, pela desmontagem da poderosa imagem da velhice como um momento particularmente doído de perdas de todos os tipos, vivido no registro da "conspiração do silêncio". Por outro, pela criação de um conjunto amplo e diversificado de práticas, de instituições e de novos campos de conhecimento que obrigam a uma revisão dos estereótipos e dos preconceitos associados à velhice. No lugar do abandono, da dependência e da solidão, a idéia de que o envelhecimento pode ser uma experiência inovadora, simbolicamente rica, repleta de descobertas e desafios, um momento particularmente gratificante de autoconhecimento.
Se essa vertente contribuiu para transformar a velhice em uma questão pública -a exigir outros espaços de atuação e discussão que não aqueles restritos à esfera privada e familiar-, não podemos minimizar, no entanto, seus efeitos perversos e inesperados. O mais grave deles talvez seja a idéia, socialmente sancionada, de que as pessoas de mais idade são as principais responsáveis pela condução, em bons termos, do próprio envelhecimento. Bastando, para tanto, a adoção de uma parafernália de medidas, como exercícios físicos regulares, alimentação balanceada, controle das emoções "negativas", entre várias outras. Segundo rezam os manuais de auto-ajuda, em franca proliferação, no limite só é velho quem quer.
A representação, largamente difundida, de que a velhice, desde que acompanhada da adoção de estilos de vida e de consumo apropriados, pode ser uma experiência bem-sucedida ao alcance de todos, gera, como contrapartida, a culpabilização daqueles que não seguem o riscado. Velhos, abandonados e dependentes são, no limite, todos aqueles que, por uma espécie de negligência auto-infligida, não adotaram os estilos de vida e de consumo sancionados pelos especialistas -gerontólogos e geriatras, especialmente. Prescritos por eles, difundidos e diluídos pela mídia, atualizados pelos programas destinados à "terceira idade", esse conjunto de práticas e representações tornou-se um elemento ativo na reprivatização do envelhecimento.

Antropologia e geriatria
O pressuposto antropológico de que a velhice, como outras etapas da vida, não escapa aos imperativos simbólicos e culturais (podendo ser vivida de maneiras distintas em sociedades diversas) vem sendo apropriado pelos geriatras, junto com a idéia de que, se há limites para a modelagem e o investimento tecnológico sobre o corpo, eles parecem cada vez mais transponíveis. Esse encontro inusitado entre o discurso antropológico e o dos gerontólogos e geriatras, ao arrombar portas abertas, pede novas visadas analíticas que não aquelas fornecidas pela literatura médica, pela mídia, pelos manuais de auto-ajuda e estudos empenhados em denunciar as condições precárias a que está exposta a maioria dos velhos em nosso país.
Na contramão desse senso comum "erudito", afirma-se a acuidade analítica do trabalho de Guita Debert: no tempo de maturação da pesquisa; no leque de objetos contemplados; na mobilização de uma vasta literatura internacional; na maneira como entrelaça a perspectiva e o conhecimento antropológico com a pesquisa dos principais atores empenhados em promover um envelhecimento bem-sucedido -os gerontólogos, as pessoas de mais idade e a mídia.
De início, a autora arma o quadro conceitual e metodológico que orientou a construção dos seus objetos de pesquisa ao longo de mais de dez anos de trabalho. Voltada para a apreensão e descrição de como os idosos representam sua experiência de envelhecimento, Guita analisa programas para terceira idade, um asilo e associações de aposentados. Na sequência, com o propósito de mostrar como a velhice ganhou visibilidade na mídia e constituiu uma área de saber especializado, examina o campo dos gerontólogos. Procedimento essencial para se entender que a ressignificação do envelhecimento se deve, sobretudo, à competição entre instituições, forças e campos situados fora dos grupos de idosos pesquisados. Por disporem "de aparatos extremamente eficazes na divulgação de imagens, estilos de vida e formas de consumo, (eles) impregnam a reflexão de cada idoso sobre o que é a velhice e a sua experiência pessoal".
A parte mais pungente do trabalho se encontra na descrição e análise do asilo de classe média alta pesquisado pela autora. Nela são apreendidos múltiplas dimensões da experiência dos velhos asilados: dilemas, angústias, alegrias e projetos; medos, motivações e razões que os levaram a decidir pela moradia no asilo; exercícios ininterruptos de controle e autocontrole; desencontros com os profissionais envolvidos com a instituição. No melhor estilo das pesquisas antropológicas, Guita Debert revela aspectos surpreendentes dessa experiência, mas deixa de mencionar um dado central: a etnia desses velhos asilados. Embora a correlação entre envelhecimento, classe social e etnia seja extensamente tratada, nesse e em outros capítulos, a autora achou por bem omitir a identidade étnica dos entrevistados. Razões éticas podem estar na base dessa opção e são plenamente sustentáveis nesse plano, mas não sociológica e antropologicamente. Afinal, se pertencer a uma etnia e não a outra é uma experiência decisiva para os seus membros, mais ainda deve ser para o antropólogo que se disponha a analisá-la. Num trabalho tão sofisticado como este, tal ausência chama a atenção, sobretudo porque, ao término da leitura, o que sentimos, a partir da imersão emocionante e emocionada na experiência daqueles velhos asilados, é a urgência de novas pesquisas nessa direção. Ou seja, de trabalhos que, tomando o asilo como campo de investigação, sejam capazes de comparar não só asilos de distintas filiações étnicas, mas também de diferentes origens sociais.
Ponto a mais para o livro de Guita, que, lidando com questões e desafios analíticos espinhosos, mostra a força da pesquisa antropológica, dá uma contribuição valiosa ao debate sobre a velhice, inaugura uma maneira original de pensar sobre uma experiência que, se não é ainda a nossa, virá a ser um dia. Tais são algumas das qualidades deste livro desafiador, premiado este ano com um Jabuti na área de ciências humanas.

 


Heloísa Pontes é professora de antropologia da Universidade Estadual de Campinas e autora de "Destinos Mistos (Companhia das Letras).

Heloisa Pontes é professora de antropologia da Unicamp.
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