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Emir Sader - 45 - Dezembro de 1998
Uma nova sociedade do trabalho
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Uma nova sociedade do trabalho

EMIR SADER

Há quase 20 anos foi anunciada a "crise da categoria trabalho", isto é, a perda de sua centralidade como ponto articulador das contradições sociais e como critério de identidade social das camadas sociais anticapitalistas. Às contradições de classe se somariam contradições de gênero, de raça, entre outras. Desde então, o movimento operário não cessou de se debilitar como expressão organizativa e social dos trabalhadores, seja devido à incapacidade de sindicalização e negociação, seja, principalmente, às suas deficiências para integrar os desempregados em suas estruturas e lutas.
Depois de décadas de pleno emprego e de Estado de Bem-estar Social, a Europa ocidental passou por transformações profundas em suas relações sociais. Um saldo disso é a atual necessidade de conviver com cerca de 30 milhões de desempregados. Não há surpresa, portanto, na publicação de mais um livro tendo como subtítulo "O Movimento Operário Europeu em Crise". A novidade está na pretensão de um professor de filosofia francês, colaborador do "Le Monde Diplomatique", de analisar o tema e encerrar o livro com uma conclusão sobre a "atualidade do projeto comunista". "Maximalismo francês" -dirão alguns, do alto de sua sapiência acadêmica. "Utopia e "bavardage'" -reagirão outros, em suas bem consolidadas barricadas do realismo mercantil.
É contra esse clima que Bihr se insurge, falando logo de cara do "desinteresse educado, quando não uma hostilidade declarada" com que as questões do mundo do trabalho passaram a ser abordadas. É verdade que, nos congressos de ciências sociais, os temas ligados ao trabalho continuam tendo a maior participação, demonstrando que nem tudo tende a ser soterrado pelos modismos da mídia. Entretanto, mesmo aí, tenta-se passar a idéia de que tudo o que fala desse mundo pertence antes à arqueologia do que à compreensão das sociedades capitalistas realmente existentes em que vivemos.
Para Bihr, esse ambiente insere-se na "contra-revolução contida no bojo dos projetos neoliberais", que requerem a quebra da resistência de toda forma organizada de ação, mais particularmente do movimento operário, pelo lugar que o trabalho ocupa no processo de acumulação de capital, além de seu papel histórico de referência central na resistência à superexploração. Como resultado disso, no "plano estratégico, o movimento operário ocidental encontra-se, hoje, nu", diz Bihr. Tanto as estratégias revolucionárias clássicas, quanto as reformistas teriam se esgotado, esvaziando as apostas de longo prazo e condenando o movimento operário à defensiva, quando não à passividade e à impotência.
O livro de Bihr dedica-se, em sua primeira parte, a analisar esses modelos e propor razões para sua perda de atualidade. Na segunda, volta-se para os desafios que resultam da ruptura do compromisso fordista que fundou e solidificou o período histórico anterior. Destaca como heranças a fragmentação do proletariado, a internacionalização do capital, a crise ecológica, a crise de sociabilidade e uma espécie de crise cultural.
A partir daí, Bihr lança-se a um propósito mais ambicioso -a sugestão do que ele denomina "vias de renovação" para o movimento operário europeu, mas que, como referência histórica, política e ideológica, serviria também como proposta para países como o Brasil. A plataforma é conhecida: trabalho para todos, trabalhar menos, trabalhar de outra maneira; desenvolver uma sociabilidade alternativa. Trata-se, em última instância, de implementar as bases para um novo tipo de sociedade do trabalho.
Mas qual seria a estratégia apta, num contexto tão desfavorável, para pôr em prática esse projeto? Aqui tampouco Bihr inova, opta pelo caminho dos contrapoderes. Antes disso, como já é de praxe, descarta a estratégia da "grande noite", isto é, a visão insurrecional, revestida de um certo espírito redentor que, segundo ele, deriva da idéia judaico-cristã do fim do mundo, do milenarismo das grandes revoltas camponesas da Idade Média, bem como da influência e do fascínio das revoluções democrático-burguesas, em particular, da francesa. Bihr propõe o caminho gramsciano da construção de formas alternativas de poder, de sua socialização gradual, "desenvolvendo o "espaço' da sociedade civil com seus momentos de auto-instituição da vida social: contratualização de relações sociais, discussão pública, democracia política". 
A estratégia dos contrapoderes tem em vista a "reapropriação das condições materiais, institucionais e culturais da existência individual e coletiva". Sua prática é a da extensão permanente dos distintos processos de socialização. Um poder, por sua própria natureza, ambivalente, pois seria ao mesmo tempo, por um lado, alternativo e antagônico, por outro, complementar.
A retomada das raízes libertárias do marxismo aponta em direções conhecidas: o federalismo, a renovação do sindicalismo revolucionário, a autonomia dos movimentos sociais específicos e a assunção de direções políticas que não fossem "Estados maiores". Os riscos de uma versão renovada da social-democracia não são ignorados por Bihr que acredita, entretanto, no potencial anticapitalista de um movimento operário liberto das travas institucionais e economicistas tradicionais.
Trata-se de um caminho para que a emancipação de todos seja condição da emancipação de cada um? Seria um itinerário para a reapropriação pelos homens do seu próprio destino? Se o norte apontado por Bihr se orienta por uma variante libertária, resta ainda uma tarefa crucial, a análise das condições sociais realmente existentes no capitalismo contemporâneo, ponto imprescindível para que uma definição mais precisa das forças sociais anticapitalistas possa iluminar verdadeiramente o potencial de uma renovação da luta emancipatória dos homens em tempos de fetichismo financeiro globalizado.



A OBRA
Da Grande Noite à Alternativa - O Movimento Operário Europeu em Crise
Alain Bihr Tradução: Wanda Caldeira Brandt Boitempo (Tel. 011/3865-6947) 284 págs., R$ 24,00 



Emir Sader é professor de sociologia na USP e autor, entre outros livros, de "O Poder, Cadê o Poder?" (Boitempo).

Emir Sader é professor de sociologia da USP.
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