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Wolfgang Leo Maar - 115 - Dezembro de 0012
Uma razão quase anêmica
Foto do(a) autor(a) Wolfgang Leo Maar

WOLFGANG LEO MAAR

Uma razão quase anêmica

Passadas duas décadas Kurz já não entusiasma do mesmo modo

 

RAZÃO SANGRENTA

Robert Kurz

Tradução: Fernando de Moraes Barros

HEDRA

298 p., R$ 49,00

 

Kurz ficou conhecido em 1992 com o O Colapso da Modernização. Roberto Schwarz o apresentou com grande repercussão na Folha de São Paulo. Foi entusiasmante o vigor em desconsiderar a vitória do capitalismo com o fim do socialismo, e focar, ao contrário, o colapso da modernização capitalista.

Razão Sangrenta é seu terceiro livro no Brasil. É composto de quatro ensaios originários das revistas Krisis e Exit. Pensa o marxismo no plano da crítica da reificação e do fetichismo, distinguindo-o do marxismo da luta de classes. É difícil não considerar as distintas mediações da luta de classes na Alemanha e no Brasil. Aqui as mediações da luta de classes se apresentam muito mais no próprio conflito político institucional e partidário, como oposição entre público e privado, entre concentração e distribuição etc. Ali os “novos movimentos sociais” centralizam as atenções desde Habermas e não seria por acaso que Kurz se reporta tanto às políticas de gênero, por ex.. Ao vislumbrar nas políticas de reconhecimento nos moldes de Honneth a superação utópica da socialização pautada no valor, os ensaios dizem mais das circunstâncias de sua elaboração – defasadas, pois nunca o trabalho e sua organização foram tão decisivos – do que propriamente dos temas que pretendem explicitar.

A grande ausente é a relação marxismo-política, a apreensão das tendências de desenvolvimento do capitalismo, o acompanhamento do seu dinamismo predador e das relações de força – vigentes e possíveis – em que esta dinâmica tem seu curso.

O título do livro, retirado do primeiro ensaio, expressa um tema atualíssimo. Razão sangrenta da tecnociência na guerra, que não é patologia social, excepcionalidade do capitalismo, mas tendência do seu desenvolvimento. Razão sangrenta porque o povo grego deve pagar com sangue pela racionalidade da acumulação financeira brutal. A tendência do desenvolvimento do capitalismo se identifica como produção contínua da exclusão, da miséria, da violência, da destruição do meio ambiente.

 

Razão ilustrada

Mas não é este o modo de apreender a Razão Sangrenta de Kurz; seu foco é o nexo indissolúvel entre a razão ilustrada e a dominação da valorização capitalista. Este é assunto por excelência dos frankfurtianos: a crítica desenvolvida no âmbito da razão ilustrada tem a eficácia questionada por sua vinculação com o domínio da acumulação do capital. Como fundamentar racionalmente uma teoria da transição ao socialismo, se a própria estrutura da racionalidade esclarecida está bichada pelo objeto que se propõe apreender e transformar? Nas palavras de Horkheimer e Adorno, é impositivo desconfiar da consciência vigente.

Mas os autores da Dialética do Esclarecimento teriam permanecido “a meio caminho”, isto é, não radicalizaram “a crítica à metafísica do sujeito” em sua forma burguesa. Para Kurz a libertação precisa ser repensada e “livrar-se do Esclarecimento”. Este se toma como “um processo que se desenrola no interior da própria forma (burguesa) do sujeito”, o que impõe limites burgueses à reflexão pela “tendência à destruição e à dissolução do inteiro mundo sensível na abstração realista”. Já a Dialética do Esclarecimento “criticara o Esclarecimento pelo seu caráter lógico-identitário”, abandonando “o quadro sociológico de referência (‘baseado em classes’)” e substituindo a apreensão da história “como ‘a história da luta de classes’ por uma ‘história das relações de fetiche’”.

Os trabalhadores, convocados para realizar os objetivos hipoteticamente libertadores do sujeito em sua forma burguesa através “de sua generalização transcendente”, desperdiçaram esta possibilidade histórica. “Na verdade, o movimento dos trabalhadores realizou sua ocupação vocacional, limitada à socialização do valor, e, justamente por conta disso, terminou por se extinguir”. A história, antes vinculada ao progresso, agora seria uma história pessimista, da subordinação ao valor. No modo de apreender a história, positiva ou negativa, se revelaria para Kurz a rendição de Adorno e Horkheimer à lógica identitária do Esclarecimento que propunham criticar.

É difícil não enxergar a similitude com a leitura habermasiana da Dialética do Esclarecimento – por exemplo, no Discurso Filosófico da Modernidade – que insiste na redução frankfurtiana da teoria social à filosofia da história da Ilustração. Porém cabe lembrar a Habermas e agora Kurz que as categorias de Marx e da Teoria Crítica têm um núcleo temporal determinante e não vale primeiro convertê-las em generalizações abstratas e depois criticá-las por serem generalizações abstratas trans-históricas.

 

História no objeto

Na obra de Marx a crítica do progresso das forças produtivas se encontra justamente na apreensão do fetichismo da mercadoria e do capital; a apreensão da questão do progresso não pode ser feita exteriormente a esta perspectiva e vice-versa. A história está no objeto. O mesmo vale para a crítica às formas sociais burguesas do sujeito, produzidas na práxis presente de reprodução social e material da vida nas condições vigentes, como determinações objetivas e em sua objetividade histórica. Seria a partir da formação destes sujeitos efetivos, objetivados e historicamente objetivos, que se poderiam formar sujeitos como “classe”, sujeitos reais de uma transformação social material apta a superar a socialização valorativa vigente. Por esta via se articulam a crítica do capital e a crítica da reificação.

Mas como, numa sociedade reificada, ancorar a crítica do capital causador da reificação? A mediação teoria e prática não é uma questão teórica, mas atinente à práxis e à compreensão da práxis. Afirmar que a razão é sangrenta significa situá-la no plano do sangue, da atividade sensível e da dominação; aqui a crítica, na contemporaneidade, é luta de classes. A luta de classes, em suas mediações, é a forma hoje exigida da crítica quando esta se pretende efetiva, material.

Aufklärung não se esgota no Esclarecimento, mas significa justamente a razão em sentido não só gnoseológico, mas de sedimentação intelectual da práxis historicamente determinada de toda uma formação social capitalista. Este é o sentido marxista da realidade efetiva que é dialética, materialmente além do prisma hegeliano do “espírito de contradição organizado”. Donde as dificuldades na tradução do título da famosa obra de Adorno e Horkheimer. Kurz, aliás, o reconhece ao afirmar que o esclarecimento não resume a época do esclarecimento.

 

Fetiche e reificação

Marcuse formulou com mais precisão a questão primordial da teoria da transição, o rompimento da continuidade da história. N’A Ideologia da Sociedade Industrial alertou: “A maior debilidade da teoria crítica é sua inabilidade em demonstrar as tendências libertárias no âmbito da sociedade estabelecida.” O modo consolidado de equacionar a questão no âmbito marxista consiste em sua apreensão dinâmica, por contraposição à sua naturalização estática. O essencial não reside em que os homens são objetivamente determinados pela formação social, dominados pelas formas sociais do fetiche e da reificação; mas, para além disso, em responder à questão de “como entramos nessa situação: como os homens se alienam, se subordinam às formas sociais reificadas que se autonomizam progressivamente em relação a eles? Este é o nível em que os homens produzem socialmente a forma social da produção alienada – em que parecem produzir na sociedade – e das correspondentes formas do fetiche, da mercadoria e do capital. A história deste processo – história da sociedade, e não na sociedade – não tem como alvo uma rememoração do perdido, mas tornar presentes as condições materiais determinantes daquele processo, visando a sua retomada em outro registro. Ou seja, procurando na prática reformular o que seriam as relações do passado com a atualidade. Não basta o conhecimento da perda e das condições que poderiam evitá-la. Está em causa uma prática transformadora, nos termos em que ela forma a realidade efetiva da vida dos homens em suas relações entre si e com a natureza. Quando Marx insiste na célebre tese de que o decisivo não é interpretar, mas transformar a realidade, adverte justamente que o transformar não vale só daqui para a frente: a realidade efetiva já é transformada; cabe intervir nesta efetividade. A luta de classes pode até mesmo estar em suspenso, mas que ela existe, existe! O objeto do conhecer é prático; este é o motivo de o conhecimento ter um núcleo temporal. É o que distingue as categorias de Marx dos conceitos universais do Esclarecimento. Por isto a consciência só será emancipatória na medida em que encerra uma tomada de posição libertária, pela prática transformadora. A solução para uma teoria da transição é justamente a luta de classes.

Passadas duas décadas Kurz já não entusiasma do mesmo modo e nem poderia fazê-lo: o aprofundamento da acumulação capitalista financeira e a aceleração exponencial no plano tecnocientífico impuseram desafios às experiências políticas que matizaram as mediações entre teoria e prática para muito além do que pode resultar das discussões travadas em reuniões de militantes. Kurz, sem aproveitar sua independência, transitaria cada vez mais nos trilhos domesticados da “teoria” como distinção intelectual nos moldes acadêmicos, avesso ao que antes distinguia seus brilhantes ensaios radicais e incômodos, sangrentos. O que se ganha com seus questionamentos, arrisca-se perder com suas respostas, quando não escapa às proposições apressadas alheias a quaisquer problematizações investigativas, e contraria com formulações universais abstratas no próprio ato da realização teórica as premissas da crítica que se propunha efetivar.

Nós também temos culpa no cartório: adquirimos massa crítica intelectual e política; com qualidade igual e superior temos nossos próprios Antonios, Robertos, Franciscos, Paulos...

 

WOLFGANG LEO MAAR é professor da Universidade Federal de São Carlos

Wolfgang Leo Maar é professor do departamento de filosofia da UFScar.
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