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Alexandre Braga Massella - 116 - Dezembro de 2014
Uma sociologia para a ciência
Foto da capa do livro Ensaios de sociologia da ciência
Ensaios de sociologia da ciência
Autor: Robert K. Merton
Tradução: Sylvia Gemignani Garcia e Pablo Rubén Mariconda
Editora: Editora 34 - 304 páginas
Foto do(a) autor(a) Alexandre Braga Massella

Na obra do sociólogo norte-americano Robert Merton, os estudos dedicados à ciência marcam não só o início de sua carreira, com a tese de doutorado sobre a ciência e a tecnologia na Inglaterra do século XVII, publicada em 1938, como a fundação da sociologia da ciência. A preocupação com o tema não se restringiu à tese inicial, estendendo-se por toda a carreira, com o desenvolvimento de temas antes apenas esboçados, a inclusão de novos e a ampliação do projeto para abarcar o conhecimento em geral. Qualquer sumário de sua produção na área teria de mencionar os estudos sobre a relação entre o éthos puritano e o espírito científico, o papel das demandas tecnológicas militares na seleção dos problemas de investigação, a relação entre a democracia e o avanço do conhecimento, a estratificação social da comunidade científica e a estrutura normativa da ciência, estudos que se estendem de 1938 a 1988, reunidos nesta coletânea.

A lista não conteria, porém, nenhuma formulação programática de Merton sobre como devemos proceder ao fazer sociologia da ciência: quais objetos seriam os candidatos mais promissores à explicação sociológica ou qual a forma desta explicação. Merton, tão empenhado na elaboração de “paradigmas”, para a análise funcional, para a sociologia do conhecimento, e tão confiante na utilidade desse recurso para orientar a pesquisa, não fez o mesmo para a sociologia da ciência. Para a sociologia do conhecimento, Merton elenca as questões pertinentes baseado num balanço crítico de precursores como Marx, Durkheim, Scheler, Mannheim, e afirma o ponto de partida da disciplina: a ideia, perturbadora do ponto de vista da validade do conhecimento, de que não só os erros, mas também as verdades deveriam ser vinculadas à sociedade na qual surgiram. Mas Merton enfatiza um ponto consensual nas abordagens oferecidas pela sociologia do conhecimento que limita seu escopo, a tese de que o pensamento tem uma base social na medida em que não é determinado de forma imanente. Filósofos viram na tese um princípio metodológico segundo o qual só devemos buscar uma explicação sociológica quando não dispomos de uma análise racional a respeito da aceitação ou rejeição de uma ideia.

Em relação à ciência, o que Merton nos oferece são pesquisas exemplares, e cabe aos especialistas numa área que floresceu de maneira vertiginosa identificar o modo “mertoniano” de fazer sociologia da ciência. Extrair de suas diversas contribuições diretrizes de orientação à pesquisa exige um esforço interpretativo. Um tema recorrente é o da importância dos valores e das normas na estruturação da ação, característico do quadro teórico do funcionalismo normativo que Merton ajudou a elaborar. O estudo sobre as relações entre o éthos puritano e a ciência moderna avalia o impacto de valores religiosos na ciência. O que está em jogo na relação é a motivação para a pesquisa paciente, experimental e racional da natureza e a institucionalização da ciência moderna. A ciência surge aí como uma maneira, ainda não institucionalizada, de estudar a natureza, necessitando para tanto de um incentivo ou sanção religiosa. O caminho que Merton percorre para sustentar essa relação tem similaridades com o adotado por Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, e seu estudo pretende estender a linha de investigação weberiana. A força da tese se deve ao trabalho interpretativo que mostra as diversas afinidades entre o éthos puritano e a ciência – a correspondência entre as disposições intelectuais típicas da ciência, como o empirismo, o racionalismo e o pressuposto de uma ordem na natureza e os valores protestantes, como a recusa ao ascetismo monástico e a ênfase na experiência e na razão como bases para a crença e a ação – mas também às generalizações empíricas que apontam um maior número relativo de protestantes empenhados na ciência. A proximidade com o trabalho interpretativo de Weber vai além do aspecto substantivo da tese. Também Merton insiste que não se trata de buscar a motivação religiosa para a ciência na letra da doutrina, mas na disposição mental e valorativa indiretamente inspirada pela ética religiosa, o que significa que a conexão se enquadra no padrão das consequências não intencionais da ação. E, assim como o capitalismo, uma vez consolidado como sistema econômico dominante, prescinde de uma motivação externa de tipo religioso, criando, por meio de mecanismos próprios, os agentes com as devidas motivações, também a ciência, uma vez institucionalizada, ganha a “autonomia funcional” que a emancipa do esteio religioso inicial.

A busca pelos fatores externos que impulsionaram a ciência não se limita a essa incursão no mundo dos valores. Merton propõe um modelo explicativo multidimensional, integrando à explicação “idealista” outra linha causal, de teor “materialista”, independente mas convergente com a anterior. Trata-se de mostrar que a crença na ciência como uma solução eficaz para problemas econômicos, militares e tecnológicos também representou uma força motivadora. Se a religião esclarece parte do interesse geral pela ciência, as necessidades práticas orientam a seleção de problemas específicos de investigação.

A autonomia da ciência, para Merton fruto do processo histórico-social de diferenciação institucional, abre novos temas para a sociologia da ciência. Uma vez institucionalizada, a ciência se dá num universo social unificado por um conjunto de valores. Ao identificar esses valores ao universalismo (a aceitação ou rejeição das ideias independe dos atributos sociais ou pessoais do cientista), à propriedade comum das descobertas científicas, ao desinteresse e ao ceticismo organizado (a suspensão do juízo até que critérios empíricos e lógicos de aceitação sejam satisfeitos), Merton foi criticado por reproduzir a imagem oficial da ciência, confundindo a ideologia elaborada pelos cientistas com a prática real. Mas é preciso levar em conta o contexto político dos anos 30, em que ameaças à ciência provinham do controle centralizado de estruturas ditatoriais e de instituições, econômicas ou religiosas, que se pretendiam sagradas e acima de qualquer crítica. Merton explora as tensões entre o éthos científico e o da política ou da economia, afirmando, por exemplo, que ao reduzir a propriedade à figura simbólica do reconhecimento da autoria, o “comunismo” científico é incompatível com a apropriação privada do conhecimento tecnológico. Cabe perguntar o que Merton diria das atuais investidas do mercado e de outras instituições para explorar o potencial tecnológico da ciência.

O fato da comunidade científica compartilhar os mesmos valores não exclui desigualdades em seu interior. A distribuição desigual das recompensas materiais e simbólicas não obedece apenas à lógica do mérito, privilegiando os que já acumularam prestígio, independente dos méritos posteriores. Merton estuda os custos disso e os mecanismos compensatórios que impedem uma desigualdade ainda maior do que a encontrada. Mas ele não inclui, na “cooperação competitiva” que caracteriza a ciência, as lutas em torno da definição da melhor maneira de fazer ciência e dos objetos de pesquisa mais dignos, tema que exigiria uma concepção mais plural de metodologia.

Aos que consideram ultrapassada a sociologia da ciência de Merton, convém lembrar a falácia da “última palavra”, invocada por ele mesmo ao rever seu estudo sobre as relações entre a religião e a ciência: a crença de que a última palavra é necessariamente a melhor pode ser apenas uma ilusão.

Alexandre Braga Massella é professor de sociologia da USP.
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