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Sérgio Cardoso - 75 - Junho de 2001
Uma vida boa e feliz
Foto da capa do livro Quid Tum
Quid Tum
Autor: Carlos Antonio Leite Brandão
Editora: Ed. UFMG - 380 páginas
Foto do(a) autor(a) Sérgio Cardoso

Como em outros domínios da história da filosofia, houve no Brasil, nos anos 90, um avanço importante nos estudos da cultura filosófica renascentista. De um lado, cresceu o interesse por certos autores e mesmo, de modo geral, pelo pensamento do período (tomamos o recorte convencional, sem discutir as dificuldades da periodização ou da designação "Renascimento"); de outro -em função da exigência de contextualização das obras, da atenção à dimensão histórica de suas questões, vocabulário e interesses-, houve também uma maior comunicação entre as diversas áreas de investigação e, com ela, uma maior sensibilidade para a trama mais ampla do debate em que os textos trabalhados se acham inscritos.
O excelente "Maquiavel Republicano" (Loyola, 1991), de Newton Bignotto, ao realçar os vínculos das indagações daquele autor com a tradição do humanismo cívico, pode certamente ser visto como o ponto de inflexão dessa abertura. Nos anos subsequentes, a produção acadêmica, quase inteiramente confinada até então ao terreno da história e da filosofia da arte, se abre para pensadores tão diversos quanto Maquiavel, Erasmo, Calvino, Vives, Gentillet, Bodin, Montaigne ou Bacon.
Se adiantamos essas observações a propósito do livro de Carlos Brandão, é porque acredito ser esse o contexto em que deve ser apreciado. Ele não só se beneficia dessa recente abertura de nossos estudos renascentistas como também traz para essa empresa de "formação" uma contribuição destacada.
Em primeiro lugar, por assimilar e tornar disponível um fundo de conhecimentos vasto e complexo. Em segundo, porque, por meio da exegese dos escritos de Alberti, põe em questão o perfil estabelecido e o sentido mesmo do projeto intelectual e moral dos humanistas, procurando estabelecer novas balizas para sua interpretação no domínio da arte. E, por fim, porque ilustra os interesses desses estudos, iluminando seu alcance crítico relativamente a aspectos fundamentais do pensamento moderno e do caminho contemporâneo das artes.

Dualismos
O ponto de partida dessa leitura de Alberti é a verificação de que a literatura crítica está inteiramente marcada pelos dualismos: seja enquanto ela própria oscila entre duas representações antagônicas da obra; seja enquanto a fraciona em dois segmentos opostos, de aspecto paradoxal; ou ainda quando tenta acomodar as oposições, apresentando-as como fases sucessivas, vinculadas a momentos diversos do desenvolvimento da cultura humanista.
Há sempre um Alberti solar, otimista e seguro, impelido pela aspiração da "descoberta do mundo e do homem" (para lembrar Burkhardt e Michelet) e um pensador sombrio, soturno e pessimista, atormentado pela hostilidade do mundo e a fragilidade do homem corrompido. Desse modo, entre exaltação e melancolia, se fixam os pólos de uma oscilação que se desdobra em múltiplos registros: entre aspectos "renascentistas" e "medievais" da obra, entre sua vertente humanista e o neoplatonismo, entre o humor e o tom dos tratados artísticos e dos opúsculos morais ou ainda entre o ideal da vida ativa e da vida contemplativa.
No entanto, a recusa desses dualismos não implica ignorar as faces diversas da obra. Pois nela se atesta tanto a confiança na capacidade criadora dos homens, no poder de sua arte, intelecto e vontade (os aspectos que sustentam a figura de Alberti como emblema do "uomo universale" renascentista) quanto as incertezas do pensador, seu pessimismo e desencanto com a condição humana. A leitura de Carlos Brandão destaca-se das interpretações habituais justamente por tentar recuperar, mediante esses traços díspares, a unidade de inspiração da obra, por buscar restabelecer a tensão constitutiva que os associa na teia de uma mesma lógica.
O propósito, enfim, é assumir "a coexistência dessas faces contraditórias", ampliar e aguçar a "visão sintética" proposta por Ferguson e Garin, fazendo-a, no entanto, avançar do plano geral da obra em que a aplicam para o próprio interior dos tratados artísticos ("De Pictura", "De Statua", de "Re Aedificatoria"). A releitura desses textos é o que permite ao autor propor uma nova compreensão da arte albertiana e da renascentista.
"Na verdade", diz Brandão sobre os "tratados estéticos", "esses textos mal foram lidos", serviram apenas para ilustrar generalidades preconcebidas sobre as características estilísticas atribuídas à arte do século 15. Pois, como mostra, o que neles se detecta não é o privilégio da "Venustas", a autonomia da beleza formal (o "pulchrum"), da graça ou da "convenientia partium" (fundada na "consonantia harmonica" entre microcosmos e macrocosmos, entre arte e natureza); é, ao contrário, a eminência da "concinnitas" (harmonia, ordem e equilíbrio governados pelo decoro, o útil e o honesto), pela qual a atividade artística se põe a serviço da construção do projeto humanístico de uma vida boa e feliz (o "bene beateque vivendum").
Assim compreendidas, as artes se revelam uma forma privilegiada do combate da "virtù" contra a fortuna, contra a irracionalidade e a corrupção enraizadas em nossa natureza e contra as devastações do tempo. É no interior do "drama tenso" da vida e da condição dos homens que se definem a função e o estatuto da arte: "Um artifício utópico fundado no desejo de defender-se do absurdo da existência", combate para aliviar o homem de sua miséria e insanidade.
Tal releitura de Alberti inscreve-se numa estratégia crítica de alcance surpreendente. Pois ela não só golpeia as referências convencionais da abordagem do classicismo (clareza, ordem, racionalidade, harmonia, confiança, otimismo) como também faz trincar a própria grade analítica que, a partir dos românticos, nos acostumou a escandir o Renascimento, o maneirismo e o Barroco como segmentos independentes, sucessivos e antitéticos (equilíbrio versus instabilidade, natureza versus artifício, "logos" versus "pathos") do percurso moderno de afirmação da subjetividade -e seu legado de dicotomias: interior e exterior, sentimento e conhecimento, arte e ciência, beleza e utilidade, estética e ética.

Autonomização da arte
Assim o leitor compreenderá que aquilo que se denuncia é a disposição crônica da cultura moderna para o confinamento da arte em um "mundo estético", destituindo-o de sua aptidão para o conhecimento do mundo e de qualquer dimensão ética. Seu alvo é a "autonomização da arte", seu insulamento no domínio abstrato do gosto ou aquele esteticismo que permitiu a Wölffin pensar sua história "separada de qualquer relação com o restante da cultura, num processo atemporal e atópico".
É possível, certamente, arguir que essa estetização da arte (e, frequentemente, da vida) não deixou de ser acusada por filósofos tão diversos quanto Kierkegaard, Gadamer ou Adorno, e mesmo por vários movimentos artísticos no século 20. O autor o sabe e se encarrega de remeter-nos aos nomes citados. Seu propósito, no entanto, é proporcionar a essa crítica alicerces históricos, fundar seus apoios de sustentação no momento da origem, escavando, na gênese da modernidade, uma experiência (renascentista) da interioridade que se mantém entrelaçada com o mundo e investida na vida coletiva dos homens.
"Estudar o século 15 é fundamental para entender e criticar a arte e a filosofia contemporâneas", adianta Carlos Brandão já nas primeiras linhas do livro. E é, certamente, essa convicção franca sobre os interesses e atualidade de sua investigação que confere a essa tese exigente todas as boas qualidades de um vigoroso ensaio. Encontramos aí não só um exame abrangente dos escritos de Leon Battista Alberti e um excelente mapeamento da literatura crítica, mas ainda a reflexão ousada de um arquiteto-filósofo aplicado, como seu grande antecessor, na decifração simultânea do passado e de seu próprio tempo, mobilizado, enfim, pelos combates que hoje se impõem à sua arte.
"Quid tum?" ("E então?") O que mais pedir a um livro que tanto nos adverte quanto motiva para o estudo do Renascimento?

Sergio Cardoso é professor de filosofia na USP. 

Sérgio Cardoso é professor do departamento de filosofia da USP.
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